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terça-feira, 7 de março de 2017

Objectivos ao virar da esquina

Foto: Vitória SC
Na última semana o Vitória disputou dois jogos de extrema importância para a época desportiva. Na última quarta-feira recebeu e venceu o Chaves, a contar para a primeira mão das meias-finais da competição rainha do futebol português. Viajou então para Lisboa, para disputar a 24ª jornada da Liga NOS em Alvalade. Importava conseguir uma vitória com muitos golos no primeiro desafio, enquanto que no segundo só importava a vitória que valia 3 pontos, independentemente do resultado. A realidade não é tão boa, mas o balanço da semana, no que à principal equipa de futebol profissional diz respeito, parece-me ser positivo.

O Estádio D. Afonso Henriques foi palco do primeiro confronto da história entre o Vitória e o Chaves a contar para a Taça de Portugal. O clube da casa (e do meu coração) não foi o melhor anfitrião para os flavienses e para a história fica a vitória do Vitória, conseguida com dois golos incríveis de Hernâni. Foi um jogo que respeitou a história. O primeiro jogo de sempre entre as duas equipas foi em Chaves, a contar para a II Divisão na época 1955/1956. Um jogo repleto de golos que acabou com a vitória dos branquinhos por 6-4. Na segunda volta a vitória foi ainda mais categórica: o Vitória marcou por 7 vezes, sem nenhuma resposta. Foi a primeira vez que os transmontanos saíram derrotados de Guimarães. Muitos anos e alguns jogos depois, o Chaves continua sem saber o que é sair de Guimarães com uma vitória. O jogo da última quarta-feira não contrariou a tendência. Apesar de um resultado menos expressivo e de um jogo, acredito eu, mais equilibrado o vencedor foi o do costume. Os dois golos, para além de merecerem ser vistos e revistos, dão a vantagem ao Vitória. A vantagem deve dar confiança - à equipa e aos adeptos -, mas não deve descurar a preparação para o próximo jogo, disputado no Municipal Engenheiro Manuel Branco Teixeira. Entrar no tapete verde com uma postura relaxada e despreocupada é um risco que não podemos correr, especialmente agora que estamos tão perto do Jamor. Devemos entrar sem pressão, afinal é o Vitória quem está em vantagem, mas sem facilitismos. As bancadas, como é hábito no mais belo estádio português, estiveram compostas. Muitos vitorianos e uma falange de apoio flaviense merecedora de aplausos. Tirando os insultos, os apupos e assobios durante os festejos da equipa da casa é assim que as bancadas dos estádios portugueses deviam estar mais vezes: com adeptos que apoiam a equipa da sua cidade!

Depois da vitória caseira, os conquistadores viajaram até Lisboa. Pedro Martins seguiu a máxima de que em equipa que ganha não se mexe e foram os mesmos onze jogadores que subiram ao relvado de Alvalade, com destaque para Miguel Silva que, depois de uma excelente exibição no jogo da Taça de Portugal, recuperou as redes vitorianas no campeonato. Com a vitória do Marítimo a meio da tarde de Domingo, e consequente aproximação pontual ao Vitória, era fulcral pontuar em Alvalade. Para além de fulcral, sabíamos que ia ser complicado. Apesar do jogo da primeira volta ter sido épico (e impróprio para cardíacos), com um empate a 3 bolas, as deslocações ao reduto sportinguista nas duas últimas épocas ainda me faziam mossa. Duas derrotas pesadas, por 4-1 e 5-1, não são facilmente esquecidas. No entanto, a equipa vitoriana entrou no relvado sem fazer caso disso. De cabeça levantada, peito feito e vontade de conquistar fizeram uma primeira parte de muita qualidade, a disputar o jogo de igual para igual. Ao intervalo perdíamos pela margem mínima, mas a exibição dava-me confiança de que o rumo do jogo ainda podia mudar. A segunda parte foi menos frenética, mas igualmente equilibrada. Aos 76 minutos, Marega regressou aos golos. Depois de muitos jogos a fazer por marcar e de muitos outros a merecer o tão almejado golo, desta vez foram os pés do maliano a concretizar a conquista de um tão importante ponto. O resultado não é o melhor, mas é condizente com o que se passou dentro das quatro linhas. Foi um bom espectáculo de futebol, manchado apenas pela exibição pouco satisfatória de Jorge Sousa. No entanto, e quanto a isso, a minha posição é falar o menos possível, como já o disse. Não porque me conformei ou porque acho normal, mas porque pressionar ou coagir árbitros é uma constante no futebol português, amplamente aceite por dirigentes, pelos órgãos responsáveis, pela comunicação social e pela maioria dos adeptos que, cegos de fanatismo, só querem que o seu clube ganhe para poder exibir taças e campeonatos e justificar o seu "amor", o facto de isso custar a verdade desportiva é só um pormenor no meio de tantos outros. 

Com o ponto conquistado em Alvalade, a equipa orientada por Pedro Martins chega ao marco dos 40 pontos. A 10 jornadas do fim do campeonato, estamos no 5º lugar da tabela classificativa. O 3º lugar já se encontra a 8 pontos, mas o também apetecível 4º lugar está a apenas dois pontos e deve ser o objectivo no campeonato. Por agora! Voltar aos primeiros quatro melhores classificados é, sem dúvida, um novo passo para acordar este monstro vitoriano que tem andado adormecido. A final da Taça de Portugal parece estar também muito perto. Depois desta semana com resultados e exibições positivas, temos razões para esperar um término de campeonato que satisfatório. Ainda sem lançar foguetes, sem fazer a festa, sem demasiado entusiasmo. Apenas cientes de que sabemos fazer o nosso caminho, e sabemos fazê-lo bem - apesar de todas as contrariedades, e são muitas -, sem nos perdermos dos nossos objectivos. Cientes de que a luta vai ser muito dura e vai exigir muito trabalho. Mas se há quem mereça o trabalho e o esforço são as gentes de Guimarães. As gentes de Guimarães que a meio da semana marcaram presença no estádio, as gentes de Guimarães que, antes de um dia de trabalho, fizeram uma viagem longa e morosa para apoiar a equipa durante pouco mais de 90 minutos, as gentes de Guimarães que, ano após ano, acompanham o Vitória para todo o lado sem esperar ou pedir alguma coisa em troca, essas gentes de Guimarães que são incansáveis merecem. Nós, os que somos e sentimos o Vitória, merecemos! 
Foto: Joaquim Galante em Vitória SC

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Berço de campeões

Foto: Vitória SC
O empate caseiro frente ao Porto deixou o Vitória mais vulnerável na tabela classificativa. Depois de um início fulgurante da segunda volta, com uma vitória histórica - por ser a primeira - na Pedreira, os branquinhos estão com dificuldades em somar pontos, consolidar o lugar europeu e, quiçá, lançar-se para o pódio. É impossível uma equipa ser consistente durante toda a época e, eventualmente, há fases menos boas. Seja pelo cansaço colectivo, pelas baixas forçadas ou por qualquer um dos muitos motivos que podem enfraquecer uma equipa. No nosso caso, parece-me que estamos ainda a ressacar da janela de transferências. Ficamos sem dois titulares importantes: João Pedro que, com exibições sólidas e de qualidade, se transformou num pilar da equipa e numa das suas mais importantes referências, e Soares, o segundo melhor marcador da equipa e que se revelou importante para além dos golos que marcou por desassossegar (e muito) a equipa adversária. O primeiro rumou a Los Angeles e o segundo esteve, no último sábado, do outro lado da "barricada". O facto é que já não representam o Vitória e eu sou da opinião de que não vale a pena chorar sobre leite derramado, portanto é necessário acreditar e depositar toda a confiança naqueles que entram no relvado com o símbolo vitoriano ao peito. Eu acredito no Vitória e acredito na equipa, mas o lugar de sonho no pódio parece cada vez mais uma miragem e o lugar europeu começa a parecer estar em risco. 

O terceiro lugar nunca foi um objectivo assumido e, em boa verdade, provavelmente nunca foi um objectivo - assumido ou não. No entanto, a ambição dos vitorianos de ver o clube da sua cidade que fervorosamente apoiam - esteja chuva ou faça sol - combinada com a saudade de ver o Vitória actuar nos principais palcos europeus e de se elevar (ainda mais) no panorama do futebol português deixa-nos sempre com a sensação de que tudo é possível. Inclusive o terceiro lugar. Depois de épocas que ficaram muito aquém das expectativas, depois de épocas de graves dificuldades financeiras e com menos recursos do que aqueles que os adversários possuem. Apesar de todas as contrariedades, os vitorianos acreditaram - e acreditam (?) - num lugar "ao sol". Uma espécie de bonança, muito merecida, depois da tempestade. A primeira volta fez-nos acreditar: a goleada, em casa, ao Paços de Ferreira; a recuperação caseira incrível frente ao Sporting, quando a derrota por 3-0 parecia certa aos 72 minutos de jogo; a boa prestação na Taça de Portugal (que nos faz sonhar com o levantar da Taça no Jamor); a deslocação incrível dos vitorianos a Vila do Conde para ver o hat-trick de Marega a selar o marcador; as duas vitórias - para o campeonato e para a Taça de Portugal - no Bessa. A primeira volta não foi idílica, mas foi boa. Apesar dos momentos de frustração, nomeadamente nos empates inesperados que deixaram os vitorianos com um amargo de boca, a primeira volta foi marcada pela união entre os adeptos e a equipa com muitas demonstrações de amor épicas por esse país fora que, tenho a certeza, contribuíram muitas vezes para a conquista dos tão almejados pontos. Muitas foram as vezes em que saí de estádios adversários a pensar que, se alguém me perguntasse o que é o Vitória eu só os poderia convidar a assistir um jogo para que tivessem a oportunidade de ver a paixão com que "as gentes de Guimarães" levantam os seus cachecóis e cantam, sem saltar nenhuma sílaba, as músicas que sabem de cor.

Depois de disputada a primeira jornada da segunda volta (correspondente à 18ª jornada do campeonato), o Vitória encontrava-se com 34 pontos, a um ponto do 4º lugar (ocupado, na altura, pelo Sporting) e a dois pontos do 3º lugar (ocupado, na altura, pelo Sporting de Braga). O Chaves e o Marítimo, na 6ª e 7ª posição, em igualdade pontual - 27 pontos - não faziam soar alarmes. Os sete pontos de vantagem pareciam deixar seladas as primeiras cinco posições da tabela, sendo que as alterações nesses lugares seriam entre os clubes que já lá se encontravam. Desde a 18ª à 21ª jornada, o Vitória somou apenas uma vitória. O registo é de uma vitória (Sp. de Braga), empate (Marítimo) e duas derrotas (Paços de Ferreira e Porto). Em 12 pontos possíveis na segunda volta, o Vitória conquistou apenas três. Apesar dos adversários directos não terem feito grandes progressos, o fosso para o quarto e, principalmente, para o terceiro lugar aumentou, enquanto que o fosso que separava o último lugar europeu (deve ser o mínimo dos nossos objectivos), que ocupamos, do sexto lugar diminuiu drasticamente. Actualmente o Vitória está a 3 pontos do 4º lugar e a 6 pontos do 3º lugar, sendo que o 6º classificado está a apenas 3 pontos de distância do Vitória. Isto já faz soar alarmes, pelo menos os meus. As próximas jornadas não vão ser fáceis - deslocações tipicamente complicadas (Restelo e Alvalade), a disputa do derby de Guimarães com um Moreirense muito motivado e confiante, e um encontro importante a contar para a Taça de Portugal. 

A próxima deslocação é ao Estádio do Restelo. Fiquei surpreendida quando, ao pesquisar o histórico de confrontos entre estes dois símbolos emblemáticos do futebol português, constatei que é o Belenenses que leva a vantagem. As duas equipas já disputaram 141 jogos no total (a contar para o campeonato, a Taça de Portugal e a Taça da Liga), sendo que o Vitória levou a melhor 45 vezes, empatou outras 34 e saiu derrotado em 62 jogos. Quando restringimos a pesquisa somente aos jogos disputados em casa do Belenenses a história repete-se, sendo que o que sobressaí é que a vantagem é muito mais categórica: os azuis venceram 42, dos 64, encontros, e o Vitória venceu apenas 7. Apesar dos números não serem encorajadores, a supremacia do Belenenses tem sido contrariada nos últimos anos. Nos últimos cinco jogos disputados longe do Berço, o Vitória venceu três vezes e saiu derrotado apenas uma vez. O último encontro, a contar para o campeonato, foi repleto de golos com o resultado final a fixar-se em 3-3. A equipa vitoriana era, na época, comandada por Sérgio Conceição e os golos foram apontados pelos saudosos Bouba Saré e Henrique Dourado, e Filipe Ferreira, que marcou na própria baliza. Do onze inicial preto e branco que pisou o relvado em Belém na última época, apenas Bruno Gaspar, Josué e Pedro Henrique se mantêm, sendo que Miguel Silva, que foi titular, agora se senta no banco, "cedendo" o seu lugar na baliza a Douglas. Espero que no Domingo os adeptos de ambos os clubes possam ver um bom espectáculo de futebol e proporcionar um bom espectáculo nas bancadas - como é hábito - e que seja o tão necessário ponto de viragem no Vitória para consolidar verdadeiramente a presença europeia e, no melhor dos cenários, assaltar o terceiro lugar. A margem de erro é cada vez menor, mas ainda é possível.

Enquanto for possível, eu acredito. Até porque Guimarães é um berço de campeões. Ontem foram premiados, com os troféus desportivos "O Minhoto", vários atletas da região. Muitos dos nomeados e dos vencedores são vimaranenses e foram formados, actuam ou actuaram no representante desportivo máximo da cidade - o Vitória, claro. É, indubitavelmente, um motivo de orgulho, apesar dos vimaranenses e vitorianos reconhecem o valor dos seus todos os dias. Na categoria das Artes Marciais, o atleta de Taekwondo Nuno Costa ganhou o troféu. Atleta da mesma modalidade, Rui Bragança foi o vencedor do Grande Prémio do Júri (Individual). Dois atletas que, apesar de agora pertencerem aos quadros do Benfica, viveram e ganharam muito no e com o Vitória enquanto atletas e que são de Guimarães - e serão sempre, independentemente do clube que representam (com muita pena minha, já não é o Vitória). Na categoria que Rui Bragança venceu, estava nomeado outro vimaranense que leva o nome de Portugal ao mundo: o número um do ténis português, João Sousa - que nunca se esquece das suas raízes nem do seu (e nosso) Vitória. Na categoria de Basquetebol foi o "nosso" Filipe Lima, que actua na incansável equipa de basquetebol vitoriana, o vencedor. O medalhado olímpico Manuel Mendes - vimaranense e vitoriano, enquanto adepto e atleta -, venceu com muito mérito na categoria de Desporto Adaptado. Paulo Oliveira, que nasceu em Vila Nova de Famalicão e actuou no Vitória, fazendo parte do selecto grupo de jogadores que conquistou a Taça de Portugal e que, por isso e por nunca se esquecer do Vitória, é sempre lembrado com muito carinho. Envergando, agora, a camisola do Sporting venceu Nélson Oliveira e Pedro Tiba na categoria de Futebol Profissional. Na categoria de Voleibol, estavam nomeados, para além de uma atleta do Sporting de Braga, Bruno Cunha e João Oliveira, dois atletas do Vitória na modalidade, e foi o último a levar o troféu para casa. Na categoria Treinador, o incrível treinador de basquetebol do Vitória, Fernando Sá estava também nomeado, mas perdeu, com muita pena minha, para Carlos Resende. Um homem que merece o reconhecimento de todos os vitorianos por tudo o que já fez pela modalidade e pelo nosso nome. Em suma, foi um bom dia para o desporto vimaranense e vitoriano. (E é com alguma tristeza que constato que o Vitória ainda não felicitou, através dos seus sítios oficiais, nenhum dos seus antigos e actuais atletas. Espero que o façam. Vitória não é só futebol!)

Para terminar, tenho (sempre) de falar de outros campeões. Aqueles que, jornada após jornada, enchem as bancadas do nosso - ou outro - estádio com amor (e também daqueles que se deslocam aos pavilhões - ao nosso ou a outros - para acompanhar os incríveis e dedicados atletas das modalidades). É admirável e é incrível a atmosfera vivida num estádio praticamente cheio (com a maioria dos adeptos a ser os da casa, contrariando a tendência do que se vive em Portugal), em que se entoam as músicas a uma só voz e em que os cachecóis se atropelam de tantos que são e de tanto os querermos elevar. Isto de apoiar o clube da terra é realmente bonito. Seja a perder ou a ganhar. Não é só bonito, também é admirável. Estes campeões das bancadas que não se movem por troféus, que não se mobilizam por esperar vitórias, que não se importam com o resultado são, porventura, o mais importante jogador da equipa vitoriana. São os nossos valores que nos distinguem dos outros, porque são os nossos valores que nos levam ao estádio - depois das derrotas e depois das vitórias. Percebo, cada vez mais e cada vez melhor, que é tudo uma questão de valores e educação. Percebo, cada vez com mais orgulho, que em Guimarães se vive o que de mais bonito há no futebol: a paixão e o interesse genuínos, baseados somente no amor e na paixão a uma instituição e a uma cidade que se fundem de cada vez que passamos o cartão de associados, de que tanto nos orgulhamos de ter na carteira, no torniquete, de cada vez que passamos um bilhete - que muitas vezes compramos com muito esforço - no torniquete de outro estádio, de cada vez que, com os olhos a brilhar, falámos do Vitória sem sequer mencionar um título ou uma vitória. Estar presente basta, é disso que nos orgulhamos e é disso que nos alimentámos. E é, também por isso, que tenho cada vez mais pena daqueles que nos perguntam pelos nossos títulos com a ironia vincada em cada comentário, como se isso fosse o que realmente importa. Eles não entendem que o nosso amor não se alimenta de títulos e vitórias, não entendem que o nosso amor se alimenta do orgulho que temos daquilo que é nosso e daquilo que faz parte da nossa identidade. Eles não entendem que nós somos a resistência ao fácil. É difícil ser de um clube que não ganha troféus atrás de troféus, que não está sempre bem, que tem muitos problemas. É muito difícil, mas eu não podia imaginar-me a apoiar de outra forma. É muito difícil, mas não podia ser melhor. Afinal, é nosso. Isso não se compra!

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Critérios

Todos os animais são iguais. Este era um dos mandamentos escritos numa parede da Quinta dos Animais, na obra homónima de Orwell. Esses mandamentos, inicialmente escritos com o intuito de guiar a conduta dos animais da quinta e para garantir a liberdade e igualdade de todos, foram sofrendo alterações pelas patas dos porcos que, depois de serem apanhados a violar os mandamentos que os próprios estipularam e escreveram, os modificaram para servir os seus propósitos e vontades. Depois de várias alterações, já só restava um único mandamento. Esse mandamento era uma adaptação daquele com que principiei este texto e dizia o seguinte: Todos os animais são iguais, mas uns são mais iguais do que outros. 

George Orwell foi um génio e a prova disso é a intemporalidade e aplicabilidade das suas obras a todas (ou quase todas) os sectores da sociedade, inclusive no futebol e na imprensa desportiva. Assim que vi as capas dos jornais desportivos de hoje confirmei as minhas suspeitas de ontem. O Moreirense, vencedor da décima edição da Taça CTT, não figura na capa de dois, dos três, jornais desportivos com distribuição nacional. Apenas o jornal O Jogo decidiu destacar o vencedor da competição e A Bola apenas o fez na edição impressa para o Norte do país (não sei se essa edição é para todo o Norte do país ou se é para certas zonas da região). 

Nos últimos anos, estes jornais guiaram-se sempre pelos mesmos critérios ao desenhar a capa do dia seguinte à final da Taça da Liga. Através de uma rápida pesquisa online consegui consultar algumas dessas capas, desde o ano de 2010, e constatei que o vencedor foi sempre o grande destaque na capa destes dois jornais. Não me dei ao trabalho de pesquisar as capas d'O Jogo, uma vez que fizeram uma capa digna e que vai de acordo com o que costumam fazer quando se trata de outros clubes. Na capa sempre figurou o vencedor - que, por norma, é o Benfica. Ontem o vencedor não foi o Benfica e o Benfica nem marcou presença na final, mas o destaque é o Benfica. O Record e A Bola (não, a capa da edição nortenha não os desculpa, uma vez que a competição é de âmbito nacional) priorizaram a convocatória dos encarnados à vitória do Moreirense que ontem se tornou no Campeão de Inverno. 

Os critérios, subitamente, são outros e o vencedor de uma competição de âmbito nacional e que serve para condecorar o Campeão de Inverno já só merece ser assunto de rodapé. Merece-o porque, para os jornais, o Moreirense é pequeno. Os pequenos sentam-se ao lado, não se sentam na mesa. É triste como as linhas editoriais servem para servir os gostos e agendas pessoais de alguns, ao invés de servir para serem isentos, intelectualmente honestos e éticos. Cada jornal decide aquilo que publica e eu decido não os comprar. Neste país, há apenas três clubes que parecem interessar. Estão acima das outras modalidades, dos outros desportistas e dos outros clubes. É uma dualidade de critérios triste, mas que combina com tudo o resto que se faz no futebol português. Há dois micro-campeonatos de diferentes níveis dentro do nosso campeonato. Um deles, o superior, é disputado a três cores: vermelho, verde e azul. O outro é disputado pelos restantes e, para a comunicação social, não vale por um. 

Escrevo hoje, no âmbito do futebol, mas já escrevi anteriormente quando o João Sousa, ao vencer um troféu inédito na história do ténis português, foi relegado para segundo, terceiro ou quarto plano. Podia escrever o mesmo quando Patrícia Mamona ganha uma competição e ela fá-lo tantas vezes! Podia escrever para muitos outros atletas que dignificam o desporto português em todo o mundo, mas que não podem ver os seus feitos nas capas dos jornais. O compromisso da imprensa desportiva portuguesa é com os lucros, nada mais. 

A culpa não é só de quem dirige os jornais e gere os seus conteúdos. A culpa é partilhada com os que compram os jornais, os que preferem apoiar o clube que não os representa mesmo que isso signifique rebaixar o clube da sua terra, é do centralismo bacoco e da falta de orgulho na sua cidade, de quem não vê o quão sectaristas são estas decisões. Isto não é uma crítica ao Benfica (porque há sempre quem ache que qualquer coisa que envolva o Benfica é um ataque directo ao clube), não é uma crítica aos benfiquistas que nasceram e cresceram em Lisboa. É uma crítica aos jornais que não respeitam os clubes e os adeptos (acima de tudo, isto é uma falta de respeito tremenda) e uma crítica ao adepto que prefere apoiar a equipa lá de longe, rebaixando a equipa da sua terra e a equipa que o representa. Diz-se com alguma leveza que em Portugal se gosta de futebol. Os portugueses, os actuais campeões europeus de futebol, não gostam de futebol. É uma generalidade que sou obrigada a fazer, por muito que me desagrade. Infelizmente em Portugal vive-se em demasia um fanatismo clubístico que cega. 

Parabéns ao Moreirense, pelo percurso incrível e pela conquista merecida desta Taça da Liga. Parabéns ao Braga, por ter chegado à final. Parabéns aos adeptos destes dois clubes que, com civismo, fizeram muitos quilómetros na última semana para apoiar o seu clube, independentemente da sua dimensão. Sempre que um clube como o Moreirense ganha, o futebol ganha outro encanto. Não é o meu clube, o meu coração só tem espaço para o Vitória, mas consigo reconhecer que quantos mais Moreirenses houver mais o futebol português cresce. 
22 de Março de 2010.
14 de Abril de 2013
30 de Maio de 2015
21 de Maio de 2016
30 de Janeiro de 2017
Acredito que podemos concluir que estes dois jornais não pretendem ser imparciais ou intelectualmente honestos e têm apenas uma linha editorial: o Benfica.
Todos os animais são iguais, mas uns são mais iguais do que outros.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Indissociáveis


Foto: Vitória SC
A última semana fica pautada por duas vitórias basilares na presente época vitoriana. Na Covilhã, o Vitória conseguiu a primeira vitória do ano civil e garantiu a continuidade na Taça de Portugal, competição em que o objectivo tem de ser o de chegar ao Jamor e levantar a taça. A vitória no Municipal de Braga, no último Domingo à noite, foi importante não só pelos três pontos conseguidos, mas também porque foi a primeira vez que os branquinhos ganharam naquele estádio e acredito que isso dará uma injecção de confiança à equipa para enfrentar a segunda volta. Em termos de jogo jogado, é de destacar o último jogo, em especial a primeira parte. Se o desempenho da equipa não foi totalmente satisfatório na Covilhã, pese embora o resultado, a prestação da turma vitoriana em Braga convenceu e ficou a certeza de que o 5º lugar não pode ser o objectivo. Apesar da conquista do 4º ou 3º lugar já não depender exclusivamente de nós, estou certa de que podemos ambicionar em terminar a época no pódio. Não é uma ambição descabida. Estamos a um ponto do Sporting de Portugal, 4º classificado, e a dois pontos do Sporting de Braga, que ocupa a 3º posição. A verdade é que ter ambições não chega, é preciso que as acções sejam condizentes. A nossa preocupação tem de ser a de desenhar e construir o nosso caminho, unicamente. 

Tento ser ponderada em tudo aquilo que digo e escrevo, portanto ainda me parece ser muito cedo para falar de transferências com a objectividade desejada. No entanto, há algumas coisas que posso dizer desde já. Não sei quais os benefícios que esta janela de transferências, a meio da época, traz ao futebol. Da mesma forma que não entendo a lógica do mercado só fechar no final de Agosto, já depois do início das competições. É descabido e beneficia apenas a carteira dos empresários e os clubes com poder financeiro. Isto não é de hoje e será tema para outro dia, certamente. Quanto ao que é particular ao Vitória, o que realmente interessa, não fiquei agradada com as saídas conhecidas até ao momento, pese embora qualquer comentário da minha parte seja feito sempre com alguma cautela por não conhecer os contornos dos negócios. Gostaria de ver a SAD ser mais transparente com os sócios quanto às vendas e aquisições de jogadores. Não sendo esse o caso, comento aquilo que depreendo do que leio e do que vou sabendo. O que sei, com certeza, é que a saída de dois jogadores titulares deixa sempre danos. Mesmo que sejam contratados jogadores de qualidade, estes precisam de se entrosar com os companheiros, de conhecer a equipa e de se adaptar ao futebol português, se estiverem a militar em campeonatos estrangeiros. É para isso que, antes do início do campeonato, existe a pré-época. A pré-época dos jogadores que chegam em Janeiro é numa altura determinante no campeonato e, no nosso caso, da Taça de Portugal. João Pedro foi vendido aos LA Galaxy. Apesar de não ser conhecido o valor da transferência, estima-se que tenha saído por cerca de um milhão e meio de euros. Parece-me um valor irrisório, tendo em conta a importância do jogador para a equipa e a sua margem de progressão. É impossível dizer se iria valorizar, são muitas as variáveis a ter em conta e o futebol é imprevisível, mas uma vez que a sua venda não permite um encaixe financeiro considerável. não vejo quais os grandes benefícios imediatos, ou a longo prazo, para o Vitória. A transferência de Soares, para o Porto, é mais difícil de comentar. Não há declarações oficiais nem consenso quanto ao valor e parece ainda estar em cima da mesa a possibilidade de jogadores da equipa portuense serem transferidos, inclusive a título definitivo, para o Vitória. Resta-nos esperar e desejar aos dois jogadores todo o sucesso possível.

A última semana, para além de ficar marcada pelas duas vitórias importantes já referidas, ficou marcada, mais uma vez, pelo apoio incondicional e extraordinário dos melhores adeptos do mundo. Não tive possibilidade de me deslocar à Covilhã, mas acompanhei o jogo pela televisão. Não comecei a ver o Vitória há dois dias, bem pelo contrário. Já conto alguns anos a acompanhar o Vitória - fora e em casa - e espero contar muitos mais. No que depender de mim, enquanto tiver condições para o fazer, vou passar muitos dias nas bancadas do nosso estádio ou noutras bancadas por esse país - e quiçá, por esse mundo - fora. Isto tudo para dizer que, depois de tantos anos, ainda fico surpreendida com a capacidade desta massa associativa se desdobrar para acompanhar a sua equipa do coração. Quando vi a moldura humana composta pelos vitorianos, a quase 300 km de distância, ao final da tarde de um dia da semana e com graus negativos fiquei boquiaberta. Sabia que os vitorianos não iam deixar a equipa jogar sozinha. Nunca deixamos, mas ainda assim não contava que tanta gente o fizesse, tendo em conta as péssimas condições. Fiquei emocionada e extremamente orgulhosa por fazer parte desta família. 

No Domingo à noite, assim como muitos outros vitorianos, desloquei-me a Braga para acompanhar a equipa. É uma deslocação ímpar, pela rivalidade entre os dois clubes. Os vitorianos não desiludiram, claro. Compareceram em massa e, mais uma vez, proporcionaram a todos os braguistas um espectáculo dentro do espectáculo. Nada de novo. Quem compra bilhete para assistir a um jogo do Vitória já deve saber que compra um bilhete 2 em 1: para além do jogo de futebol em si, ainda há um espectáculo único nas bancadas. No entanto, os artistas (nós, claro) foram muito mal recebidos. Ainda antes de chegar às imediações do estádio, já havia graúdos com medo - e miúdos a chorar - dentro dos autocarros ao ver a polícia de intervenção correr em direcção aos autocarros de bastão na mão. Episódios desnecessários protagonizados por quem devia ter, mas aparentemente não tem, formação para lidar com multidões. Depois de chegar às imediações do estádio, toda a gente percebeu que não estavam prontos para receber a força conquistadora. Só assim se pode explicar a forma como os adeptos entraram no estádio. Iam passando grupos para a revista que depois se amontoaram na zona dos torniquetes de acesso que tinham, se não estou em erro, duas ou três pessoas a recolher os bilhetes. Entrei já perto da hora, mas provavelmente muitos só conseguiram entrar depois do apito inicial. Quando cheguei ao último piso ainda estava muita gente à espera de ser revistada e, nesse momento, chegaram mais cinco autocarros. 

Se o que acabei de descrever é o que me faz espécie no futebol (bem, a incompetência incomoda-me em todas as áreas), o que aconteceu nas (cerca de) duas horas seguintes foi o que me fez apaixonar por futebol e é o que me faz continuar a dar dinheiro e tempo para ir aos estádios acompanhar uma equipa de futebol. Um apoio digno de registo. Cada vez mais me apercebo que nós, vitorianos, somos o sinónimo de amor. Somos nós que impulsionamos o futebol nas bancadas, num país que tem a mentalidade tacanha de apoiar um clube só porque é esse clube que ganha. Realmente o Vitória tem poucos troféus, não faz épocas incríveis, não tem os melhores jogadores do mundo e não tem os cofres cheios. É a realidade e é inegável. No entanto tem o que muitos outros, principalmente em Portugal, não têm: adeptos resilientes, verdadeiramente apaixonados e sempre dispostos a apoiar o clube. É o verdadeiro décimo segundo jogador, capaz de empurrar a equipa para a vitória. Eu, que sou de letras e gosto tanto de palavras, não as encontro para descrever aquilo que vejo e sinto quando estou na bancada, junto de pessoas que eu não conheço, mas que têm o mesmo objectivo do que eu: fazer do Vitória um clube maior! O Vitória é maior por nossa causa e por causa do nosso inenarrável apoio. Não tenho dúvidas disso. Aliás, tenho cada vez mais essa certeza. O Vitória é indissociável dos seus adeptos e, juntos, somos indissociáveis da palavra amor. 
Foto: Pedro Cunha

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Os tipos admiráveis

O Vitória encerrou a primeira volta do campeonato no Estádio Marcolino de Castro, em Santa Maria da Feira, com um empate que soube a pouco. A exibição não foi excelência, mas chegaria para somar três pontos, ao invés de um, se a equipa soubesse ser mais assertiva na altura de alvejar a baliza. É notório que há limitações, que devem ser tratadas no mercado de Inverno, e algum cansaço, provocado por um mês de Janeiro com um calendário extenso e exigente. Desde o dia 30 de Dezembro do ano transacto, em que o Vitória foi a Vizela arrancar uma vitória para a Taça CTT, a equipa já disputou quatro jogos - dois deles para a referida Taça e os restantes dois para o campeonato. Destes jogos, os resultados repartem-se igualmente em empates (frente ao Paços de Ferreira, para a Taça, e frente ao Feirense, para o campeonato) e derrotas (as duas frente ao Benfica, para a Taça e para o campeonato). De forma simplificada, bastará dizer que 2017 ainda não convenceu. O Vitória somou apenas 1 ponto para o campeonato, de seis possíveis, e foi eliminado de uma competição que tinha todas as possibilidades de ganhar. Até ao final de Janeiro, disputam-se jogos muito importantes para o campeonato (Braga fora e Marítimo em casa) e para a Taça de Portugal, frente ao Covilhã. O início de Fevereiro trará, também, os seus desafios: começa com uma deslocação ao Estádio da Mata Real e com a recepção ao Porto.

Apesar do ano não ter começado da melhor forma, o balanço da primeira volta é positivo. Não é satisfatório e deixa a sensação de que se podia ter feito mais e melhor, mas é, no geral, positivo. O Vitória encontra-se na 5ª posição da tabela classificativa, na posição mínima que dá acesso à 3ª pré-eliminatória da Liga Europa. Parece-me que este lugar tem de ser sempre o mínimo exigido e não o objectivo da época. Logo abaixo, na 6ª posição e a 6 pontos, encontra-se o Marítimo. Acima, para onde temos de olhar, encontra-se imediatamente o Sporting, com mais três pontos; o Braga, em 3º lugar, com mais cinco pontos; e, na 2ª posição, está o Porto, com mais sete pontos. Parece-me importante declarar, de imediato, um facto óbvio, mas que por vezes pode passar despercebido. São seis pontos que separam o 6º classificado, o Marítimo, do Vitória e são cinco pontos que separam o Vitória do 3º classificado, o Braga. Outro facto óbvio, e de grande importância, é que na jornada inaugural da segunda volta o Vitória desloca-se ao sempre complicado reduto do Sporting de Braga, enquanto que na jornada seguinte recebe o Marítimo. Se as duas jornadas correrem bem, e o Vitória conseguir somar seis pontos, pode aproximar-se do 3º posto ou, até mesmo, instalar-se nesse lugar agradável - contando, para isso, com deslizes do Sporting de Braga e do Sporting de Lisboa. No outro extremo do espectro, o 5º lugar pode ficar em risco se as próximas duas jornadas correrem mal para o Vitória e correrem bem ao Marítimo, que inicia a segunda volta defrontando o Sporting. Naturalmente prefiro - e acredito - no primeiro cenário, apesar de ser a primeira a admitir que não vai ser nada fácil e que não podemos ser condescendentes, em nenhum período dos jogos (e, de preferência, em toda a segunda volta e isso incluí o mercado de transferências).

Os próximos dois jogos são peculiares e com características muito próprias. Começando pelo início: amanhã o Vitória desloca-se à fria Covilhã para tentar desbravar caminho até ao Jamor. Não há alternativa à vitória. A Taça de Portugal é o palco dos sonhos e é fundamental estar ciente de que o é para todos os clubes. Da mesma forma que o é para nós, também é para o Covilhã. A mentalidade com que se entra em campo, num jogo assim, tem de ser forte e inflexível. O adversário chegou ao mesmo patamar por mérito. Cair na armadilha de questionar esse mérito, é meio caminho andado para sair da prova. Não é, de forma nenhuma, o primeiro confronto entre os dois emblemas. Nem é o primeiro confronto para a Taça de Portugal. No computo geral até é o Covilhã que leva a vantagem. Em 37 jogos, o Covilhã venceu 17 e o Vitória 15, sendo que os restantes 5 terminaram em empate. Na Taça de Portugal, o caso muda de figura. Foram 6 os confrontos e o Vitória levou a sua avante por 4 vezes. O último jogo disputado, e o único disputado este milénio, foi em 2009 para a Taça da Liga, na altura designada por Carlsberg Cup. O jogo disputado no nosso estádio ficou 2-0, com golos de Moreno e Targino. O Vitória acabou por ficar em primeiro do grupo e passar à próxima fase. O jogo de amanhã não se adivinha fácil, mas ganhar é a palavra de ordem!

No próximo Domingo, o Vitória entra em campo na Pedreira. Um dérbi tem sempre contornos especiais. Os nervos estão à flor da pele, os pequenos detalhes ganham proporções megalómanas e a pressão triplica para quem está dentro de campo. Não é um jogo fácil, para ninguém. No entanto é sempre um jogo emocionante e que, por norma, é um espectáculo sem igual. Arrisco-me a dizer, não pela primeira vez, que este é o mais emocionante dérbi a nível nacional. Pela história que comporta e, principalmente, por ser um dérbi milenar que é apenas uma extensão da disputa entre as duas cidades minhotas. É difícil, para quem vê de fora, entender as dimensões deste jogo. Para quem o vive, na sua essência e há muitos anos, é um dos jogos da época. Não só porque pode ser decisivo, mas porque dá uma força anímica sem igual a um dos clubes. Isto, no início da segunda volta, pode ser muito importante. Não só em termos classificativos. No entanto, tal como o jogo de amanhã, não vai ser tarefa fácil para os nossos branquinhos. Aliás, o Vitória ainda não conseguiu ganhar nenhum dos 12 jogos disputados no Municipal de Braga. Destes, 11 contaram para a Liga. O Vitória perdeu 8 vezes e empatou nos outros três jogos, sendo que os últimos dois jogos acabaram em empate. Em 2014, sem golos. Em 2016 foram 6 os golos apontados, três para cada emblema. Do onze titular que alinhou frente ao Braga a época passada restam apenas 4 jogadores: João Miguel, Josué, Pedro Henrique e Bruno Gaspar. Os três golos vitorianos foram apontados por jogadores que já não estão no clube, nomeadamente Licá, Dourado e Otávio. O Sporting de Braga tem, em sua casa, um campo muito difícil. Para o campeonato ainda não perderem nenhum jogo. Os dois jogos que perderam contaram para a Taça CTT, frente ao Rio Ave, e para a Taça de Portugal, precisamente pelo Covilhã, que os eliminaram da prova. Para todos os efeitos são três pontos como todos os outros, mas podem ser determinantes na principal prova portuguesa.

A minha última nota não pode deixar de ser para os do costume: para nós, adeptos. Se me pedirem para eleger o melhor desta primeira volta, a minha resposta seria a mais natural do mundo e sem nenhuma hesitação. O melhor desta primeira volta, como em todas as voltas de todas as épocas, são os adeptos. Temos de ser justos e intelectualmente honestos: um clube não se faz só de adeptos. O Vitória não é excepção. O Vitória é uma instituição constituída por várias partes, desde a administração aos adeptos - passando, naturalmente, pela equipa e equipa técnica, entre todos os outros departamentos que contribuem (e devem contribuir sempre) para fazer do Vitória um clube cada vez melhor e maior. No entanto, são os adeptos a força motriz deste clube, de um dos símbolos mais importantes e indispensáveis do futebol português. São os adeptos vitorianos, grupo em que me estou incluída, que são verdadeiramente admiráveis - mais do que qualquer jogador, marque ele os golos que marcar; mais do que qualquer treinador, independentemente dos troféus que ganhe ao serviço do clube. Não os desmereço, naturalmente. Não desmereço nenhum jogador, nenhum treinador e ninguém que faça o seu melhor ao serviço do Vitória. São os irredutíveis e incomparáveis adeptos vitorianos que têm, cada vez mais, a minha maior admiração. Aqueles que, como eu, gerem os seus horários para poder ir apoiar a equipa. Aqueles que, como eu, estão no autocarro a regressar de Santa Maria da Feira a planear a próxima deslocação, sem querer saber se estamos há quatro jogos sem ganhar. Aqueles que, como eu, ficam verdadeiramente tristes quando não podem acompanhar a equipa. Aqueles que, como eu, preferem estar na bancada de qualquer estádio português, ao frio e à chuva, do que estar confortavelmente sentados no sofá a ver o jogo pela televisão.

A minha admiração pelos adeptos vitorianos é, de dia para dia, maior. Àqueles que eu nem sequer conheço, mas que partilham este amor comigo: o meu obrigada! Por partilharem as bancadas comigo, por comporem molduras humanas extraordinárias comigo, por fazerem tudo em prol do Vitória como eu faço, por tornarem do Vitória o clube com os adeptos mais épicos e extraordinários do país. Quem acompanhou o Vitória na primeira volta da presente temporada, quem foi ao Dragão, a Moreira, a Vila do Conde, ao Bessa, a Tondela, a Arouca, a Vizela e ao Feirense - e a todas as outras deslocações que não estão enumeradas aqui -, tem muitas novas histórias para contar e para juntar a todas aquelas que já têm anos e que, carinhosamente, vamos contando em jantares e aos amigos quando eles já estão cansados de ver o nosso cartão do Vitória e cansados de ouvir as nossas histórias. Nós contamos sempre, uma e outra vez. E vamos contar no futuro, porque nós fazemos parte dessas histórias. Acrescentamos sempre, embebecidos, que "vocês, que estão de fora, não entendem". Dizemos isso porque sabemos que não entendem mesmo. Não conhecem aquela sensação incrível de sair do estádio com um sorriso estampado no rosto, depois de uma derrota, porque nas bancadas demos 15-0. Nem conhecem a sensação maravilhosa de perceber que, de certa forma, fomos nós que empurramos a equipa para a vitória. Muito menos sabem o que é chegar a casa, depois de uma viagem cansativa, de peito feito e com o coração a transbordar de orgulho. Nem conhecem - e desconfio que são poucos os que vão conhecer - a sensação de nos sentirmos uns super-heróis no final do jogo, com a camisola do Vitória, a camisola do clube da cidade que me viu crescer e que faz parte da minha identidade.

Quem apoia o clube da terra, contra todas as adversidades (e são muitas), é capaz de conseguir ter uma ideia daquilo que aqui falo. Há umas semanas li que "em Portugal, ser adepto de um clube do meio da tabela é cada vez mais um acto de masoquismo. Um acto de heroísmo." e, de facto, é. É difícil ir contra o que é normal, habitual, contra os jornais e as televisões, contra o que nos querem impor a ferro e fogo. É difícil, mas o lado bom compensa todo o lado mau que possa existir. É por isso que, quando chego a casa, vejo e revejo as fotos e os vídeos dos adeptos vitorianos e não consigo deixar de pensar que "estes tipos são mesmo admiráveis". E são. Somos admiráveis, somos arte. Muitos não entendem, nem é necessário. Nós sabemos dos esforços que fazemos e sabemos da paixão que nos move. Somos o combustível do Vitória. Onde houver um vitoriano apaixonado, estamos todos. Enquanto houver o Vitória, o futebol português é um bocadinho mais bonito.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

"Somos do melhor do mundo"

"Sexta-feira, 21 horas, antevéspera de Natal e previsão de temperaturas muito baixas. Mais de 100 quilómetros a separar Guimarães de Arouca. Esqueça, nada é suficiente para demover os aficionados vimaranenses, que se fizeram ouvir e sentir no apoio ao seu clube, nesta noite gelada de Arouca. Já se sabe a paixão que move estes adeptos, mas caso ainda houvesse dúvidas, elas ter-se-iam diluído esta noite. «E onde fores, eu vou», não se cansaram de cantar. No Natal celebra-se também a família, e a vitoriana mostrou a forte união que se lhe reconhece"
Maisfutebol
Foto: Luís Martins (comunicação do FC Arouca)
Há quem diga que a paixão, eventualmente, esmorece. Não sei até que ponto é uma afirmação válida. Acredito que possa ser, para alguns e em determinadas situações. No entanto não acredito que seja válida para nós, enquanto vitorianos. Ando pelas bancadas do D. Afonso Henriques - e de outros estádios portugueses - há muitos anos a acompanhar o Vitória. Já vi, da bancada, o Vitória ser goleado, já vi o Vitória golear, já vi o Vitória ser arrumado de competições importantes por equipas teoricamente mais acessíveis, já vi o Vitória vencer o jogo de acesso à final dessa mesma competição, já vi o Vitória levantar uma Taça incrivelmente bonita, já vi o Vitória ser goleado numa final. Já vi lágrimas de alegria e de tristeza correr pela cara de muitos vitorianos. Já chorei em muitas bancadas - umas vezes de felicidade extrema, outras de uma tristeza gigante, outras ainda de emoção. Há quem afirme, com toda a convicção do mundo, que "futebol é só futebol". Eu não acho que seja.

O Vitória e os vitorianos são um caso de paixão particular. É por isso que, quando vamos a outro estádio, é gritante e inegável a nossa dedicação em apoiar a equipa. Assim que cheguei a Arouca e ainda a uns quilómetros do estádio, já via vitorianos parados na berma da estrada. Assim que cheguei ao estádio só via vitorianos - nos passeios, nos estacionamentos, na estrada e na entrada para o estádio. Parecia um dia de jogo em Guimarães, só que a cerca de 100 quilómetros de distância. Ver as ruas de outras terras, onde o Vitória vai disputar um jogo, cheias de vitorianos, de cachecol ao peito, ainda me impressiona e ainda me enche de orgulho como se fosse a primeira vez. Já não é uma imagem nova para mim, mas ainda me consegue surpreender e deixar um bocadinho mais apaixonada - mesmo que isso me pareça pouco possível. 

No dia anterior à deslocação a Arouca, conheci um sócio do Vitória por puro acaso. Uma coisa normal, mas que me deixou com um sorriso estampado no rosto. Assim que soube o meu clube, levantou o punho e disse para quem quisesse ouvir que "somos do melhor do mundo". Concordei imediatamente e, como não podia deixar de ser, ficamos a conversar durante uns minutos. Contou-me, sempre com um sorriso e muita vivacidade, que já é sócio há muitos, muitos anos. "Desde os anos 50, se calhar já era sócio do Vitória antes do teu pai nascer". Disse-me que, com muita pena, os seus mais de setenta anos já não lhe permitiam ir ver muitos jogos porque as horas nem sempre são as mais simpáticas e está sempre muito frio, mas que ia ao estádio sempre que podia e esta época já tinha ido ver quatro jogos - um dos quais o último em casa. Disseram-me depois que é o sócio nº 101 do Vitória, um número muito bonito e que certamente guarda muitas histórias. 

Assim que o senhor foi embora, não pude deixar de pensar que todos aqueles anos de sócio devem estar cheios de experiências incríveis ao lado do Vitória. Só com muito amor e uma paixão incrível que não esmorece é que é possível falar com um brilho especial nos olhos de alguma coisa, tantos anos depois. É por isto que futebol nunca é só futebol. Daqui a muitos anos quero contar a alguém, muitos anos mais novo, que numa noite fria antes da noite de Natal os vitorianos foram até Arouca para cantar e apoiar o Vitória em mais uma demonstração de amor incrível - como tantas outras naquela época (e em todas as outras). Se tiver essa oportunidade sei que o farei e tenho a certeza de que o farei com o mesmo brilho nos olhos com que levanto o meu cachecol em qualquer bancada de qualquer estádio. Isto é amor. E mesmo que ninguém entenda... "onde fores, eu vou".

Por fim, desejo a todos um excelente final de ano e um bom 2017. Que possamos acabar o ano com uma vitória em Vizela e que em 2017 nos possamos encontrar para mais momentos memoráveis - "no berço ou noutro estádio". Somos do melhor do mundo.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Conquistar em todas as frentes

Foto: Marco Jacobeu
O Vitória está numa fase positiva de resultados em todas as frentes. Não só no futebol profissional, mas também nas modalidades em competição. Perto do Natal e a poucos dias do último jogo do ano para o campeonato, convém começar a fazer contas e acautelar o futuro. Os últimos anos da equipa principal de futebol têm sido anos de transição, em que a vertente financeira é privilegiada em detrimento da aposta na vertente desportiva e na ambição de ficar nos lugares cimeiros da tabela classificativa. Quanto às modalidades, seria exigir demasiado pedir mais do que aquilo que já nos dão. Com o pouco que têm, vão fazendo muito e é por isso que ser um clube ecléctico deve continuar a ser uma prioridade de todas as épocas. Recheadas de atletas campeões que dão tudo pela camisola, são uma mais valia ao nosso símbolo. Vamos por partes.
  • Futebol
    Numa semana a equipa A conseguiu duas vitórias muito importantes em jogos disputados dentro das muralhas. A primeira, na última quinta-feira frente ao Vilafranquense, mantém o Vitória a caminho do Jamor. Infelizmente estive impossibilitada de assistir ao jogo. Pelo que li, foi uma vitória conseguida a ferro e fogo, com a exibição a não convencer uma vez mais. A vitória pela margem mínima é condizente. O sorteio, que se realizou ontem, ditou que o próximo desafio nesta competição será na Covilhã. Se o Vitória vencer o jogo, e vamos acreditar que assim será, encontrará nas meias-finais, disputada a duas mãos, o Chaves ou o Sporting. Nenhuma equipa é fácil, a começar pela Covilhã. Derrotou o Sporting de Braga e acredito que está motivada para voltar a vencer a uma equipa da primeira divisão do futebol português. Apesar de não ser fácil, temos todas as hipóteses de voltar ao Jamor se enfrentarmos os próximos desafios conscientes de que este é o palco dos sonhos - não só para nós, mas para todas as equipas. Sem facilitismos e com trabalho. O caminho é para o Jamor!
    Para o campeonato e num jogo disputado também no conforto de casa, o Vitória conseguiu uma vitória frente ao homónimo de Setúbal. Com uma exibição de melhor nível do que as anteriores e com algumas individualidades em destaque, ainda tremi na bancada com o golo de Edinho aos setenta minutos para empatar a partida. João Pedro, o menino querido da casa, inaugurou o marcador pouco depois da meia hora de jogo com um golo que já merecia há muito e de enorme categoria. Não que os vitoriano precisem de uma confirmação do seu valor, mas soube bem ver João Pedro festejar o seu golo. Foi uma aposta ganha! A resposta ao golo de Edinho não se fez demorar. Foi Raphinha a voltar a pôr o Vitória por cima no marcador dois minutos depois com um golo que satisfez todos os que estavam no estádio. Para selar a vitória, Hernâni chegou-se à frente e fez o 3-1. Os desentendimentos com os adeptos já estavam no passado. Mostrou o seu valor e mostrou que da mesma forma que pode ter jogos menos conseguidos, pode resolver a partida. Com três golos de excelência e que merecem ser vistos e revistos o Vitória ficou, à 14ª jornada, no 4º lugar com 27 pontos, em igualdade pontual com o Sporting de Lisboa.
    Segue-se a deslocação a Arouca, no último jogo do campeonato deste ano civil. Com uma vitória no jogo da próxima Sexta, o Vitória pode terminar o ano no terceiro lugar - dependendo dos resultados de Sporting de Braga e Sporting de Lisboa, claro. No pior cenário, continuamos na mesma posição. Não preciso, enquanto adepta, de pedir "prendas de Natal" à equipa para a acompanhar. Tento estar sempre presente - em casa ou noutro estádio -, e Sexta-feira estarei em Arouca, assim como muitos outros vitorianos que acompanham a equipa onde quer que ela vá. No entanto admito que o Natal seria francamente melhor com uma vitória. O nosso apoio não vai faltar e estou certa de que, se for correspondido em campo na mesma medida então os três pontos voltam connosco para casa!
    A equipa B defrontou a Académica no início da semana e venceu um jogo polémico, dentro e fora das bancadas. Com expulsões de jogadores no tapete verde e aspirantes a jornaleiros na bancada, a vitória ficou para os do costume, ou seja, nós. Na primeira e segunda divisão, já sabemos muito bem qual o sabor de ganhar à Académica. Relativamente à expulsão pela presidência do Vitória de alguém que, sem carteira profissional, se julga jornalista convém relembrar que da mesma forma que pessoas assim mascaram os seus insultos com liberdade de expressão, o Vitória tem a liberdade de receber apenas quem quer e quem respeita a instituição Vitória, a cidade de Guimarães - berço de Portugal -, os vimaranenses e vitorianos. Quem não sente, não é filho de boa gente! Segue-se a equipa B do Porto amanhã, pelas 15 horas, no sítio do costume - a nossa casa!
  • Modalidades
    Nas modalidades o Vitória soma e segue. Numas mais do que noutras, mas os resultados têm sido muito bons. Nos últimos dias, foram várias as modalidades a entrar em acção: basquetebol, voleibol e kickboxing.
    A equipa de voleibol, em jornada dupla no fim-de-semana, perdeu o primeiro jogo, na casa do Esmoriz por 3-1. No dia seguinte, deslocaram-se ao pavilhão do Leixões e deram uma resposta à altura e muito satisfatória. Venceram por 3-1. Encontram-se na 7ª posição da tabela classificativa, em igualdade pontual com a Associação Académica de São Mamede.
    A equipa de basquetebol teve de se deslocar a Famalicão para disputar o Benfica e, num jogo muito discutido e que deixou tudo por decidir até ao último segundo - literalmente! -, só as gentes de Guimarães se fizeram ouvir e a equipa ganhou por 68 - 65. Já esta semana, a equipa recebeu o Lusitânia. Desta vez em nossa casa, o desfecho foi o mesmo: uma vitória para a equipa comandada por Fernando Sá. Desta vez a vantagem foi mais folgada, 77-68, apesar de o resultado - e a vitória - só se consolidar no último período.
    No entanto, o fim-de-semana foi mesmo dos atletas do kickboxing que, como cortesia enquanto anfitriões, conseguiram uma vitória esmagadora com dez atletas vitorianos a conquistar o primeiro lugar, sendo que mais três atletas conseguiram lugar no pódio. O excelente desempenho sagrou o Vitória como Campeão Nacional de Kickboxing!
Com o ano a terminar é bom relembrar que podemos e conseguimos fazer muito mais do que aquilo que os outros possam achar que conseguimos. Já não é altura da falta de ambição. Está na hora de apostar todas as fichas. O Vitória é uma instituição portuguesa de excelência e merece ser tratada como tal. Enquanto os outros - leia-se a comunicação social e alguns outros clubes, bem como os seus adeptos - não a tratam ou encaram como tal somos nós que temos de os fazer ver que somos de facto "O grande". Uma das formas de o fazer, e que já é natural para nós, é mostrar a base social sobre a qual se ergue este símbolo. Essa base social é feita de adeptos apaixonados que acompanham a equipa onde quer que esta esteja. Não pode ser só no futebol! Se somos realmente únicos temos de encher pavilhões e mostrar o nosso apoio aos atletas que tanto o merecem porque todos são o Vitória! Abandonar uns é, de certa forma, abandonar uma parte do Vitória. Isso não é o que nós fazemos. Somos conhecidos por apoiar sempre quem usa o nosso símbolo, esteja chuva ou sol. A nós nada mais nos interessa para além do Vitória! É essa a nossa imagem de marca, é assim que temos de ser. Sempre!

Desejo a todos aqueles que me acompanham e vão lendo o que escrevo um Natal muito feliz. Que possamos iniciá-lo com uma vitória em Arouca, em mais um jogo de "romaria" memorável - como tantos o foram este ano. Até Sexta!

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Ganhar!

Foto: Vitória SC
O último sábado foi de futebol para as equipas de futebol do Vitória na casa de adversários que não colhem nenhuma simpatia na cidade berço. A equipa B entrou no relvado do Estádio 1º de Maio, às 15 horas, para defrontar o Braga B, depois de uma saborosa e importante vitória em casa frente ao Sporting B. Ao início da noite, meia hora depois das 20 horas, foi a vez da equipa principal entrar em campo, no mesmo estádio onde cerca de três semanas antes tinha carimbado a passagem à próxima fase da Taça de Portugal.

Infelizmente a tarde não começou da melhor maneira. Acompanhei o jogo online através da BragaTV que, com profissionalismo e qualidade, transmitiu o jogo para os que não podiam deslocar-se ao estádio. O jogo contou apenas com 385 espectadores. Um derby, mesmo que seja entre equipas B, merece mais! A turma vitoriana entrou mal no jogo e antes dos quinze minutos de jogo já tinha sofrido o primeiro golo da partida. Não conseguiu impor-se e voltou a sofrer pouco depois de regressar dos balneários. Sem dar resposta, o marcador manteve-se inalterado até ao apito final. À 18ª jornada, encontra-se no 13º lugar da tabela classificativa com 21 pontos e em igualdade pontual com Famalicão, Gil Vicente, Varzim e Braga B. Seguem-se agora duas jornadas, em casa, que serão desafios difíceis. Na próxima segunda-feira, às 15 horas, recebemos a Académica e na quinta-feira seguinte, dia 22 de Dezembro, à mesma hora recebemos o Porto B. A hora não é convidativa mas os vitorianos marcam sempre presença. Não é à toa que somos o clube da segunda liga com mais assistências, inclusive à frente de um clube da primeira divisão.

O segundo jogo de futebol do dia, no Estádio do Bessa, teve um desfecho bem mais agradável para os vitorianos. Com um começo fulgurante a fazer lembrar o jogo em casa com o Chaves, o estreante Texeira não hesitou e atirou a bola para o fundo da baliza axadrezada aos 3 minutos. Os vitorianos, que nunca abandonam a equipa, ainda festejavam quando Philipe Sampaio fez o 1-1. O resto da primeira parte foi paupérrima de parte a parte, sem alterações no resultado e sem que nenhuma equipa se mostrasse superior. Na segunda parte, o Vitória mostrou-se melhor e aos 68 minutos Hurtado voltou a repetir a obra e a deixar o marcador a nosso favor. O filme de há três semanas repetia-se, desta vez sem necessidade de prolongamento. A vitória - e a moldura humana vitoriana que se deslocou ao Bessa - foi o melhor do jogo. O que não deve acontecer é achar que a vitória encobre o futebol pobre que a equipa tem praticado. É verdade que, no final dos noventa minutos, o que conta realmente são os três pontos. Jogar bem, ou mal, é um detalhe. No entanto, e todos sabemos isto, quem joga melhor tende a ganhar o jogo. Foram três pontos de extrema importância na luta pelos objectivos. Não fossem os desaires das últimas duas jornadas - a derrota frente ao Tondela e o empate caseiro frente ao Chaves - e podíamos estar a sonhar, com direito, em alcançar outros patamares. A meio de Dezembro importa, e muito, começar a acautelar o mercado de Inverno. Ou seja, não deixar sair os pilares da equipa e reforçá-la com titulares de qualidade. É primordial começar a pensar no crescimento desportivo, uma vez que, nos últimos anos, temos privilegiado a vertente financeira.

Nos próximos jogos, a palavra de ordem só pode ser uma: ganhar! Na próxima quinta-feira, às 18 horas, o Vitória recebe o Vilafranquense. Infelizmente não vou conseguir estar presente. A Taça de Portugal, uma das competições mais queridas dos vitorianos - e dos adeptos de futebol em geral -, tida como a prova-rainha portuguesa, devia ser tratada com mais respeito. Afinal de contas, é a festa do futebol por excelência. Um jogo disputado às 18 horas, quando muita gente ainda está no trabalho ou nas aulas, é uma tentativa deliberada de estragar essa festa. Será o segundo confronto entre as duas equipas. O primeiro, disputado a 9 de Dezembro de 1984, fora de portas e também para a Taça de Portugal, resultou numa vitória categórica dos branquinhos: 1-3. Tal como Hurtado repetiu o golo - e, consequentemente, o resultado - de há três semanas no mesmo estádio, desta vez a equipa tem de repetir o resultado dos antepassados. Já disse, e parece-me importante repetir, que não há jogos fáceis. É claro que, tecnicamente, a vitória fica em Guimarães mas ambas as equipas estão na mesma fase da competição e, se assim é, é porque batalharam para lá chegar. Ninguém dá vitorias de bandeja e a equipa do Vilafranquense estará, certamente, muito motivada a mostrar serviço. Eliminaram o Paços de Ferreira, uma equipa da primeira divisão, e vão querer repetir a dose. Cabe-nos pará-los. O Vitória tem de entrar em campo determinado e não pode subestimar o adversário. O caminho tem de ser para o Jamor! No Domingo seguinte entramos em campo para disputar mais três ponto, contra o homónimo de Setúbal. Tal como os últimos conquistados, estes três pontos são fundamentais para aumentar a vantagem relativamente aos adversários que estão a lutar pela Liga Europa e são fundamentais para nos aproximarmos dos lugares mais cimeiros, uma vez que Sporting de Lisboa, com mais três pontos, e Sporting de Braga, com mais dois pontos, se defrontam. A história dá-nos vantagem: dos 60 jogos disputados no nosso estádio para o campeonato, o Vitória manteve os três pontos em casa por 35 vezes, enquanto que o Vitória FC só conseguiu arrancar-nos a vitória por 11 vezes. 

A história, no entanto, não entra em campo, não joga e não ganha pontos. Somos nós, os onze no tapete verde e o décimo segundo nas bancadas, que os ganhamos. Com garra, dedicação e muito trabalho. Seja à semana ou Domingo, a que horas for, eu sei que os vitorianos vão marcar presença. Não fossemos nós a mais apaixonante massa adepta que Portugal já conheceu!

Não esquecer da iniciativa solidária do Vitória e dos White Angels. Ao deixar alimentos na Vitória Store ou na nova sede da claque têm um convite para o jogo. Se não quiserem convites, podem (e devem) deixar alimentos na mesma. Da mesma forma que as nossas vozes são mais fortes juntas, se todos ajudarmos então nada custa. 

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

O futebol


Há pouco a acrescentar ao que já foi dito sobre o último jogo do Vitória, no Estádio João Cardoso em Tondela. Foi um jogo muito mal conseguido. Desperdiçamos uma extraordinária oportunidade de ir para 3º lugar e continuar a lutar pelo topo da tabela. Uma derrota que não é preocupante se se souber tirar as devidas ilações. Parece-me mais pertinente reproduzir as palavras que escrevi no passado Domingo, depois de terminado o jogo e depois de fazer a viagem de regresso a Guimarães, ao invés de acrescentar qualquer outra coisa, porque hoje as palavras ainda me faltam.

Há uma semana, por volta desta hora, estávamos a chegar a Guimarães depois de uma vitória saborosa arrancada à última hora no Estádio do Bessa. Chegamos cansados mas com sorrisos estampados no rosto e fizemos questão de avisar que tínhamos chegado a casa assim que o primeiro vitoriano pôs os pés fora do comboio. Os cânticos de apoio rapidamente encheram toda a estação. O cansaço era grande, mas o orgulho era muito maior. O resultado foi fundamental mas não foi o único factor a contribuir para a nossa felicidade extrema: a viagem, o ambiente que criamos e a forma como empurramos a equipa para a vitória - já disse que não tenho duvidas que o fizemos - foi determinante para chegar a casa com um sorriso meio parvo, de quem se apaixonou (outra vez), que teimava em não sair do rosto. Estávamos contentes, e gostávamos que fosse sempre assim. Infelizmente não é. O sentimento com que fizemos a viagem de regresso, de Tondela para Guimarães, é contrastante com o(s) sentimento(s) de há uma semana. As conversas entusiasmantes de há uma semana deram lugar ao silêncio de hoje - o amor não é uma variável dependente do resultado mas gostámos de ver os nossos a fazer bem. "A que horas é o jogo para a semana?", perguntou um senhor ainda antes de deixarmos o Bessa. Rapidamente obteve uma resposta. "É às 20h15 no Domingo, mas se calhar não vai muita gente que o pessoal trabalha na Segunda". Imediatamente o senhor respondeu aquilo que também eu podia responder: "nós não somos desses". Não somos e, por isso mesmo, hoje estávamos presentes mais uma vez. Voltamos a fazer quase quatrocentos quilómetros, de tantos que já fizemos e que guardam tantas histórias, por amor. De cachecol no ar e peito feito entoávamos os cânticos de sempre, que nos acompanharam toda a vida. Fizemos a nossa equipa jogar em casa tão longe dela. Está a tornar-se um hábito. Mas hoje as coisas não correram bem, hoje deixamos o estádio tristes. Não ficamos tristes só com o mau resultado mas também com uma exibição apática que deixou muito a desejar. E, se há coisa que os vitorianos gostam para além do nosso lindo símbolo, é bom futebol. Hoje não houve disso, hoje perdemos porque merecemos perder. O que não podemos esquecer, sob pena de sermos ingratos e nos tornarmos comuns, é que a equipa que nos deixou tristes hoje foi a mesma equipa que nos deixou eufóricos há uma semana, e nas semanas anteriores - vínhamos de uma excelente série de bons resultados. Há alterações na equipa, mas é, essencialmente, a mesma equipa. Há erros a apontar, sem dúvida! E não são irrisórios. Nós, enquanto adeptos, devemos e temos de o fazer porque só depois de os identificar, analisar e corrigir podemos crescer. No entanto o que realmente importa agora é ser resilientes. O que importa agora é voltar ao estádio com o orgulho de sempre, com a unicidade de sempre e sermos o que sempre somos: o décimo segundo jogador, o único que é insubstituível. Podemos ficar em casa, no ambiente quente e confortável do sofá. Afinal é isso que faz a maioria das pessoas em Portugal. Mas não ficamos, nunca! Não somos desses.

O futebol nunca é só futebol e, por isso mesmo, permitam-me desviar do último jogo do nosso amado Vitória. O futebol é, como li ontem, uma metáfora para a vida. Ultrapassa os noventa minutos, trespassa as quatro linhas do tapete verde, vai para além das decisões dos árbitros e das decisões tomadas em gabinetes por quem manda e pode. Consegue encher-nos o coração de alegria com a mesma intensidade com que o despedaça. Todos gostamos de ver a nossa equipa marcar golos, somar pontos e subir na tabela, mas acredito que todos percebemos que o futebol não é só isso. Talvez nos apercebamos melhor disso quando nos deparamos com uma tragédia. Ontem foi um dia sombrio e triste para o futebol e nenhum resultado positivo, nenhuma goleada, nenhuma taça seria capaz de desapertar o nó que apertava com força o nosso coração. Recebemos, ao início do dia de ontem, a notícia de que um avião que transportava jogadores, equipa técnica e administração do Chapecoense, bem como vários jornalistas e a tripulação se tinha despenhado e rapidamente se percebeu que eram poucos os sobreviventes. De uma equipa de vinte e dois jogadores sobreviveram três. Entre os que não resistiram ao acidente estava Caio Júnior, antigo jogador do Vitória e actual treinador do Chapecoense, que muitos adeptos ainda recordam com carinho. "O Caio Júnior? Lembro-me, lembro-me. Era muito bom jogador", disse-me o meu tio assim que eu lhe perguntei se se lembrava de o ver jogar. Umas horas depois chegou outra má notícia: Nuno Greno, da equipa técnica do nosso Vitória B tinha sucumbido ao cancro aos 23 anos. O futebol está de luto. 

Em tempos difíceis as cores não interessam, as fronteiras não existem e somos todos iguais no sofrimento. Conseguimos ser mais humanos, parece-me. Que estas tragédias e estas perdas não sejam em vão e nos ensinem a ser mais humanos em todos os aspectos das nossas vidas e também no futebol - para além das rivalidades e das diferenças. O futebol tem um poder único de nos unir num amor comum. Para nós é o Vitória, para outros o nome será diferente. Mas em essência, e para aqueles que realmente são apaixonados por um símbolo, somos todos unidos pelo futebol e pelo desporto em geral. Que possamos aprender a encher as bancadas dos estádios com os nossos cânticos e o nosso amor. Que o façamos, sempre que conseguirmos. Hoje as bancadas estão em silêncio, a dor é diferente de qualquer outra. O que torna então o futebol, que parece tão insignificante depois de uma tragédia destas dimensões, tão especial? A solidariedade, o humanismo, a compaixão, a empatia. Hoje somos todos Champecoense, hoje ainda queremos confortar aqueles que longe sofrem porque perderam os ídolos, os amigos, os colegas, a família. Não os conhecemos, mas queremos confortá-los. Por causa do futebol. E é isto que, mais do que outra coisa, faz o futebol ser tão apaixonante. Todos, sem excepção, serão para sempre lembrados.

Por fim, e apesar de saber que as minhas palavras não são nada, as minhas sinceras condolências às famílias e amigos de Nuno Greno e de todos os que iam naquele avião. 



quarta-feira, 23 de novembro de 2016

A simbiose perfeita


Já exprimi, aqui no blogue, a minha confiança na equipa que nos representa. Acho que temos uma equipa com qualidade, muito lutadora, que nunca desiste do jogo (e isto é muitíssimo importante), com alternativas de confiança e que está a dar provas de ser consistente. Os números não mentem. A vitória no Bessa para a Taça de Portugal foi a quinta vitória consecutiva em jogos oficiais e foi o oitavo jogo sem perder. São números interessantes e que nos dão alento e confiança para continuar. Acredito que o caminho que estamos a trilhar nos vai levar a sítios muito bonitos.

Sobre o jogo do passado Domingo há ainda muito a dizer, pese embora já se tenha dito muito - principalmente pelos adeptos, porque para a comunicação social um jogo sem vermelho, verde ou azul tem pouco ou nenhum interesse. O melhor será começar pelo inicio, que foi muito antes do apito inicial. O amor que caracteriza os adeptos vitorianos, o carinho pela competição em questão, aliado a uma antiga disputa entre os dois clubes que ainda é bem presente, prometia uma deslocação em massa ao Estádio do Bessa. Para quem passava na estação de comboios de Guimarães por volta das 15 horas isso já era evidente. Mais de uma hora antes da hora prevista para sair já havia um vitoriano em cada canto e recanto, devidamente equipado. Se havia alguma dúvida, a rapidez com que os comboios encheram foi esclarecedora: íamos jogar em casa. Mais uma vez. A viagem até à estação da Campanhã, no Porto, fez-se tranquila e rapidamente e uma deslocação que tinha tudo para correr bem acabou por se tornar frustrante.

Ao contrário do que aconteceu na época transacta, desta vez os cerca de quatro mil vitorianos ficaram retidos na estação de metro. Num espaço demasiado pequeno e demasiado quente, íamos cantando o mais alto que podíamos, muito desconfortáveis e muito apertados, sem saber muito bem aquilo que se estava a passar. Pessoalmente achei que era uma questão de minutos para garantir que estávamos todos e que era seguro continuar o percurso. Rapidamente me apercebi que os minutos estavam a demorar muito a passar. O relógio já ia avançado e, como já conhecia o percurso que ainda tínhamos pela frente, percebi que dificilmente chegaríamos a tempo. Esses minutos transformaram-se numa hora (eu demorei cerca de uma hora a sair para a estação de metro, mas houve quem ficasse lá retido ainda mais tempo). Sem aviso prévio, sem recibo e sem nos ser dado nenhum bilhete, a polícia estava a cobrar 1€ a cada vitoriano (para quem foi o dinheiro?) e por isso os adeptos estavam a passar a conta-gotas, em grupos demasiado pequenos e com demasiada lentidão. Só a muito custo e depois da insistência e assobios dos adeptos, a polícia ia deixando passar as crianças devidamente acompanhadas pelos pais - infelizmente nem essa consciência tiveram.

Depois de chegar à estação tivemos de esperar pelo metro, para nos juntarmos aos grupos que já estavam prontos a seguir para o estádio, perto da Casa da Música. Faltava cerca de um quarto de hora para o apito inicial e já estávamos cientes de que não íamos ver todo o jogo que pagámos para ver. Às 19h15 já se ouvia o relato e até se conseguia ver o jogo... através do ecrã do telemóvel. O percurso decorreu tranquilamente, com os melhores adeptos do mundo a invadir as ruas e ruelas do Porto, sempre a cantar, a ser constantemente aplaudidos e filmados pelos transeuntes e por quem acorria à janela para ver o espectáculo. Quando chegamos ao estádio só queríamos entrar o mais rapidamente possível, afinal já estávamos quase meia hora atrasados. Entrei mesmo a tempo de festejar o golo de Soares, marcado da linha de grande penalidade, enquanto muitos ainda festejavam fora do estádio. Não vi os primeiros vinte e sete ou vinte e oito minutos nem sequer vi o lance que deu origem ao penalti. Cheguei e festejei, no exacto momento em que os poucos adeptos que estavam do outro lado do estádio levantavam uma tarja a chamar-nos pequeninos (voltaram a levantar outra tarja, a dizer o mesmo por outras palavras, mais tarde enquanto nós, munidos "só" do nosso amor pelo Vitória, lhes íamos mostrando o quão grandiosos somos).

O Boavista conseguiu empatar, e nós cantávamos mais alto. Pensei que estávamos sozinhos no estádio. Os vitorianos acreditavam e puxavam pela equipa, o décimo segundo jogador não deitava a toalha ao chão - nem ninguém o fazia dentro de campo. O marcador não se mexeu e levar o jogo a prolongamento foi inevitável. Os nervos estavam à flor da pele e o coração já batia muito rápido. Então cantávamos ainda mais alto, para que se ouvisse melhor. Os jogadores boavisteiros atiravam-se para o chão e provocavam quem estava no banco vitoriano. E nós cantávamos ainda mais alto. O tempo passava. E nós cantávamos mais alto. Acredito que Hurtado, com uma visão privilegiada, se tenha inspirado na moldura humana que tinha diante de si para bater a bola. O nervosismo era palpável. Só passou quando a bola trespassou a linha de fundo. Golo! O jogo ainda não tinha acabado, mas ninguém tinha dúvidas de que aquela vitória já era nossa.

Ouviu-se o apito final. Era irreversível. Aquele triunfo já ninguém nos tirava. No entanto, e numa competição tão bonita e histórica, o espectáculo dentro de campo não terminou da melhor forma. Sem me alongar muito neste assunto até saber quais vão ser os castigos (que têm de ser obrigatoriamente severos e céleres, como foi com Marega), só tenho a dizer que comportamentos destes não dignificam em nada o futebol. Pelo contrário. O futebol não é violência e quem optar por ser tão sujo (e isto já não é novidade no Boavista), não tem lugar nenhum no futebol. O Miguel Silva foi pontapeado por alguém do staff adversário e foi agredido por dois jogadores - isto é o que se vê nas imagens, ainda antes das equipas recolherem aos balneários. Quanto ao que se passou no túnel só os envolvidos podem esclarecer o que realmente se passou, mas espero que hajam imagens - o estádio do Boavista tem câmaras em tudo o que é sítio, espero que o túnel não seja uma milagrosa excepção. A violência não se ficou dentro das quatro linhas. Antes do início do jogo um casal vitoriano na casa dos sessenta anos foi violentado e roubado nas imediações do estádio e, segundo consta, sob uma polícia serena e nada interventiva. Não desejo a despromoção a ninguém, porque sei o quanto isso custa a quem ama verdadeiramente o símbolo, mas sou da opinião de que quem não sabe estar... não merece estar. O Vitória volta ao Bessa daqui a menos de um mês. Convém que até lá sejam tomadas medidas adequadas e que o Vitória seja publicamente defendido por quem de direito. Quem nos ataca, seja de que forma for, não pode sair impune. As críticas à arbitragem por parte dos axadrezados não passam de uma tentativa de tirar o foco do verdadeiro problema que foi a constante violência - e não falo só do que se passou depois do final do jogo. O "nosso" Rafael Miranda teve de sair porque lhe fracturaram uma costela. Deve pontapear-se a bola, não o jogador.

Por fim, e depois de mais de meia hora de espera dentro do Bessa, fizemos o percurso a pé de regresso à estação, e depois de metro para a Campanhã para voltar finalmente à cidade berço. Mais uma vez a polícia não nos tratou da melhor maneira. O que já não é nenhuma surpresa. Fizeram-nos esperar à porta da estação de metro durante cerca de vinte minutos. Iniciamos a viagem de regresso a Guimarães precisamente à meia-noite. Foi a minha segunda viagem ao Porto esta época a acompanhar o Vitória - a primeira foi no início de Setembro, ao Dragão, e agora ao Bessa. Duas deslocações que podiam ser tranquilas mas em que fomos mal recebidos por uma organização incapaz. Nestas duas deslocações puseram os vitorianos sob situações de grande tensão e, das duas vezes, houve agentes de "segurança" a provocar deliberadamente adeptos vitorianos com o sorriso arrogante que só um bastão lhes dá. Recuam sempre, quando percebem que estão a ser filmados. Fazem-no porque sabem do comportamento errático que têm connosco. Só connosco. Estas situações não se podem repetir. Acabam por afastar os adeptos dos estádios, por muito grande que seja o amor. Os pais ficam com medo de levar os filhos. E todos sabemos que futebol sem adeptos não é nada.

Agora, e uns dias depois do jogo, ainda me lembro da cara de cada jogador naqueles épicos momentos depois do jogo acabar. Os olhares de admiração e os sorrisos de agradecimento enquanto estavam ali, à nossa frente, a cantar connosco. Cada um deles era um de nós. Éramos todos uma equipa - já não interessavam as distinções. Éramos um grande grupo de pessoas unidas por um amor comum que tentamos engrandecer de formas diferentes. O que eu vi nenhuma câmara filmou mas eu gostava de mostrar aquilo ao mundo e perguntar a toda a gente se realmente não conseguem entender. Não há forma melhor de explicar o que é o Vitória. Na minha cabeça, em repetição, estavam as palavras de Carlos Daniel de há uns anos, e que ainda hoje me arrepiam: "eles tornaram-se ídolos dos próprios ídolos". A simbiose perfeita. Apesar de todos os pontos negativos que referi - que não foram queixas, de forma nenhuma - tudo valeu a pena. Já me perguntaram, inúmeras vezes, porque é que não fico em casa. Não gastava dinheiro, não passava frio, não apanhava chuva nem passava por muitas situações desconfortáveis. Ficava confortavelmente sentada no sofá, como muitos fazem. Era mais fácil, de facto. No entanto eu não seria tão feliz. Então vou, vou sempre. Vou depois de uma derrota, vou depois de ficar doente, vou depois de eles dizerem (e fazerem tudo) para não irmos. Vou sempre, e não sou feliz se não for. Os momentos protagonizados pelos vitorianos nas bancadas do Bessa foram um verdadeiro hino ao futebol, a Guimarães, a todos os que apoiam o clube que amam, o clube da terra, o clube que os representa. Perdoem-me se, com tantas palavras, não consegui expressar a nossa grandiosidade. Não consigo pensar em palavras que façam justiça àquilo que vivi (vivemos). As palavras ainda me faltam, ou ainda não foram inventadas. Mas se vos perguntarem o que é que aconteceu, afinal, de tão especial no Bessa, digam-lhes que viveram o Vitória. Eu vivi o Vitória. Um dicionário completo não seria suficiente para explicar isso.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Isto (também) é o Vitória

Foto: Vitória SC
Tenho sempre a sensação de que os fins-de-semana sem futebol (as selecções jogaram, eu sei, mas não é a mesma coisa) são aborrecidos, maçadores e chatinhos. Acredito que é um estado de espírito comum a todos os apaixonados por futebol e independente das cores de cada um. Afecta-nos a todos. Apesar disto, a interrupção dos campeonatos de futebol profissional não implica não haver Vitória. Este fim-de-semana foram muitos os conquistadores a entrar em campo para lutar pelo nosso símbolo e o rescaldo é muito positivo. Mais uma vez os nossos atletas mostraram estar à altura da camisola do Rei e mostraram merecer o apoio de todos os vitorianos e, sem as equipas A e B de futebol, foi um fim-de-semana "à Vitória". Há uns tempos disseram-me que o Vitória devia era "investir tudo no futebol e deixar as modalidades" e eu, naturalmente, discordei. O Vitória sempre foi, e é, muito mais do que uma equipa de futebol. É uma instituição ecléctica (das mais eclécticas de Portugal) e contrariar isso seria contrariar a nossa própria identidade. Tenho um tremendo orgulho em todos os nossos atletas e tenho a noção de que, apesar da pouca atenção que recebem, contribuem muito para o crescimento do Vitória. Tento acompanhar as modalidades sempre que posso e nunca me senti desiludida. Há resultados negativos, como é óbvio, mas nunca vi um atleta desrespeitar o nosso símbolo ou sair do pavilhão de cabeça baixa. Lutam até ao fim, são resilientes e apreciam o símbolo que carregam. Isso é, para mim, uma definição do que é ser vitoriano.

As equipas masculinas séniores de basquetebol e voleibol jogaram em casa e deram boas indicações ao conquistar os três jogos disputados. A equipa masculina de basquetebol venceu por 66 - 62 a UD Oliveirense e conquistou, assim, a primeira vitória caseira do campeonato. Pedro Pinto esteve em destaque: 18 pontos e 5 assistências. À 6ª jornada, o Vitória encontra-se no 5º lugar, com 9 pontos e em igualdade pontual com AD Ovarense e FC Porto. A próxima jornada, novamente em casa, é precisamente frente ao FC Porto e é "obrigatório" ganhar. O jogo disputa-se no próximo Sábado, dia 18, pelas 18 horas no pavilhão do Vitória. Depois de três derrotas consecutivas, a equipa feminina venceu pela primeira vez na 1ª divisão na casa do JuveMaia por 42 - 51. As nossas conquistadoras, que ascenderam à 1ª Divisão, ocupam a 5ª posição do campeonato com 5 pontos, em igualdade pontual com mais duas equipas. O campeonato não começou da melhor forma mas o mais importante nunca é como começa, mas sim como acaba. Na próxima jornada as nossas meninas recebem o Guifões S.C., pelas 21 horas de Sábado. O voleibol masculino do Vitória disputou uma jornada dupla que foi sinal de conquistas a duplicar. Depois de duas derrotas consecutivas e nenhum ponto conquistado a equipa mostrou-se capaz e resiliente e entrou em competição da melhor forma. No Sábado venceram o VC Viana por 3-1 e no Domingo venceram por 3-0 o Sporting Clube de Caldas. Bruno Cunha esteve em claro destaque ao concretizar 19 pontos em cada jogo. A equipa encontra-se no 5º lugar, com seis pontos. A equipa feminina, infelizmente, saiu derrotada fora de portas pelo São Mamede de Infesta por 3-1. (Infelizmente não consigo encontrar a classificação nem o calendário da equipa feminina de voleibol do Vitória - nem no site oficial do clube nem em nenhum lado.) Depois do empate caseiro a 7-7 frente ao CNAC, a equipa sénior de pólo aquático foi a Felgueiras conquistar a primeira vitória no campeonato frente ao FOCA, no passado sábado, por 8-9. Apesar da entrada em falso no campeonato, com uma derrota pesada em Alvalade, na antecipação da 4ª jornada (disputada ainda antes do arranque oficial da temporada) a equipa parece ter encontrado o rumo e está bem posicionada na tabela classificativa: depois de três jogos disputados encontra-se no 4º lugar com o total de 4 pontos e apenas a 2 pontos dos primeiros três classificados. A próxima jornada, frente ao CDUP, tem lugar no próximo sábado pelas 19:30 na cidade berço!

Sem futebol profissional, foram os nossos pupilos a conquistar! Os juvenis, liderados por Luís Filipe, garantiram, com a Vitória por 2-0 sobre o Varzim, a passagem à segunda fase do campeonato nacional da sua categoria. A vitória podia ter sido ainda mais expressiva, não fosse um penalti falhado ao cair do pano. Os golos foram apontados por Alberto e por Horvath, o central húngaro que se estreou a marcar. O Vitória foi o terceiro apurado, com 23 pontos e com a melhor defesa do campeonato - sofreram apenas sete golos nos onze jogos disputados -, com o ataque a ser dos mais eficazes, com 23 golos marcados. Os nossos iniciados alcançaram, também eles, uma vitória por 2-0 frente ao Palmeiras e encerraram, assim, uma 1ª Fase brilhante. Em 11 jogos empataram uma vez e venceram... dez! Conquistaram, com mestria, o primeiro lugar com trinta e um pontos. São números que prometem não só a continuação de uma boa época mas que também nos dão garantias quanto ao futuro. Foi um bom fim-de-semana para a formação vimaranense e, neste ponto, não posso fazer referência apenas ao (nosso) Vitória. Os iniciados do Moreirense foram históricos: carimbaram, pela primeira vez, a passagem à 2ª Fase. Num campeonato em que o Vitória se apura em primeiro lugar e o Moreirense em quarto, é Guimarães que fica a ganhar. Parabéns a ambos os clubes, ao do meu coração e ao "vizinho"! É um orgulho ver que Guimarães consegue ter dois clubes na 1ª Divisão do campeonato nacional e que consegue fazer tanto no futebol de formação, contrariando o centralismo bacoco que se vive em Portugal. Que sejamos capazes de fazer ainda mais no futuro. Somos Guimarães!

P.S.: O nosso atleta Manuel Mendes, medalhado paralímpico e uma força da natureza, foi condecorado por Marcelo Rebelo de Sousa na última quarta-feira e não se esqueceu das suas raízes. Nas palavras do próprio "esta é também uma conquista dos vimaranenses e vitorianos" e ainda prometeu fazer "tudo para tentar estar em Tóquio". Por tudo o que já deu ao Vitória, e por levar sempre o nosso nome consigo honrando-o tão bem, nunca será demais agradecer. Obrigada conquistador!