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terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Destino: Jamor

Foto: Vitória SC
A Taça de Portugal é, talvez, a competição mais querida da maioria dos adeptos portugueses e, acredito, é a mais acarinhada pelos vitorianos. É o palco dos sonhos para todas as equipas. É o nosso palco dos sonhos. Os jogos têm um sabor diferente, todos querem ganhar, o estatuto tem pouca ou nenhuma relevância, a classificação do campeonato não significa nada e as equipas agigantam-se na expectativa de pisar o relvado do Jamor e, quiçá, levantar a tão cobiçada taça. Todas as equipas têm uma certa urgência em ganhar e isso é, porventura, a característica que torna esta competição tão bonita.

O Vitória entra em campo amanhã para disputar o primeiro jogo da meia-final, dentro das muralhas da nossa cidade. O adversário é o Chaves, outro emblema histórico português que tem uma massa adepta muito dedicada. Esta era a final que eu gostaria de ver no Jamor. Na impossibilidade de isso se poder concretizar quero, naturalmente, que o (meu) Vitória chegue ao Jamor e, mais do que isso, que volte a levantar a taça. Esse é o sonho, mas não vai ser fácil. Entrar em campo a achar que sim é um erro e pode ser fatal. O Vitória não está na sua melhor fase e, apesar da importante vitória caseira frente ao Moreirense, tem de batalhar muito para conseguir conquistar este jogo. O ideal é conseguir uma vantagem confortável sem sofrer golos.

Já fui duas vezes ao Jamor ver o Vitória disputar a final da Taça de Portugal. Em 2011 vi, com muita tristeza, o Vitória ser derrotado pelo Porto por 6-2. Uma derrota pesada que doeu a todos os vitorianos. Ao deixar a bancada do Jamor só queria voltar lá outra vez. Queria vingar-me daquele resultado e queria ver o capitão vitoriano finalmente levantar a taça. No ano seguinte ficamos pelo caminho muito cedo, na casa do Desportivo das Aves. Estava no estádio, e a derrota foi quase tão dolorosa como na final uns meses antes porque deitava por terra a hipótese de voltar ao Jamor, deitava por terra a hipótese de vencer a taça. Na edição seguinte, um percurso tumultuoso levou-nos ao Jamor. Na 3ª eliminatória, a vitória foi categórica sobre o Vilaverdense. De seguida, a vitória na casa do homónimo de Setúbal, com o jogo a decidir-se nas grandes penalidades. Nos oitavos-de-final, a decisão foi adiada outra vez para os penaltis, e a vitória foi arrancada ao Marítimo, longe da nossa casa. Os quartos-de-final tiveram sabor a final, com o Vitória a receber o eterno rival Sporting de Braga. Sofremos, mais uma vez, mas acabámos por ganhar por 2-1. As meias-finais foram disputadas com o Belenenses, com o Vitória a levar a melhor e vencer a eliminatória, disputada a duas mãos, por 3-0. O resto é história e é uma história bonita. Foi um momento extraordinário para a família vitoriana e, ainda hoje, indescritível.

Quando olho para as equipas que disputaram as duas finais, em 2011 e 2013, não posso deixar de pensar nas diferenças, que são muitas. E é com facilidade que percebo ainda melhor que a verdadeira essência do Vitória somos nós, os adeptos. Os jogadores - os que perderam e os que ganharam - passam, saem do clube, vestem outras camisolas. Eventualmente todos acabam por sair e por rumar a outros clubes. Mas nós não. Nós nunca vestimos outra camisola, nós nunca queremos segurar outro cachecol, nós nunca deixamos este símbolo por outro. Se voltarmos ao Jamor, no próximo mês de Maio, a maioria dos jogadores que lá estiveram pela última vez ao serviço do Vitória já não vão estar lá, mas nas bancadas vão estar lá muitos dos que estiveram há 4 anos e há 6 anos porque, de facto, somos os únicos que nunca deixam o clube. Amanhã vamos marcar presença uma vez mais e vamos caminhar, juntos, para o Jamor. Assim espero!

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Berço de campeões

Foto: Vitória SC
O empate caseiro frente ao Porto deixou o Vitória mais vulnerável na tabela classificativa. Depois de um início fulgurante da segunda volta, com uma vitória histórica - por ser a primeira - na Pedreira, os branquinhos estão com dificuldades em somar pontos, consolidar o lugar europeu e, quiçá, lançar-se para o pódio. É impossível uma equipa ser consistente durante toda a época e, eventualmente, há fases menos boas. Seja pelo cansaço colectivo, pelas baixas forçadas ou por qualquer um dos muitos motivos que podem enfraquecer uma equipa. No nosso caso, parece-me que estamos ainda a ressacar da janela de transferências. Ficamos sem dois titulares importantes: João Pedro que, com exibições sólidas e de qualidade, se transformou num pilar da equipa e numa das suas mais importantes referências, e Soares, o segundo melhor marcador da equipa e que se revelou importante para além dos golos que marcou por desassossegar (e muito) a equipa adversária. O primeiro rumou a Los Angeles e o segundo esteve, no último sábado, do outro lado da "barricada". O facto é que já não representam o Vitória e eu sou da opinião de que não vale a pena chorar sobre leite derramado, portanto é necessário acreditar e depositar toda a confiança naqueles que entram no relvado com o símbolo vitoriano ao peito. Eu acredito no Vitória e acredito na equipa, mas o lugar de sonho no pódio parece cada vez mais uma miragem e o lugar europeu começa a parecer estar em risco. 

O terceiro lugar nunca foi um objectivo assumido e, em boa verdade, provavelmente nunca foi um objectivo - assumido ou não. No entanto, a ambição dos vitorianos de ver o clube da sua cidade que fervorosamente apoiam - esteja chuva ou faça sol - combinada com a saudade de ver o Vitória actuar nos principais palcos europeus e de se elevar (ainda mais) no panorama do futebol português deixa-nos sempre com a sensação de que tudo é possível. Inclusive o terceiro lugar. Depois de épocas que ficaram muito aquém das expectativas, depois de épocas de graves dificuldades financeiras e com menos recursos do que aqueles que os adversários possuem. Apesar de todas as contrariedades, os vitorianos acreditaram - e acreditam (?) - num lugar "ao sol". Uma espécie de bonança, muito merecida, depois da tempestade. A primeira volta fez-nos acreditar: a goleada, em casa, ao Paços de Ferreira; a recuperação caseira incrível frente ao Sporting, quando a derrota por 3-0 parecia certa aos 72 minutos de jogo; a boa prestação na Taça de Portugal (que nos faz sonhar com o levantar da Taça no Jamor); a deslocação incrível dos vitorianos a Vila do Conde para ver o hat-trick de Marega a selar o marcador; as duas vitórias - para o campeonato e para a Taça de Portugal - no Bessa. A primeira volta não foi idílica, mas foi boa. Apesar dos momentos de frustração, nomeadamente nos empates inesperados que deixaram os vitorianos com um amargo de boca, a primeira volta foi marcada pela união entre os adeptos e a equipa com muitas demonstrações de amor épicas por esse país fora que, tenho a certeza, contribuíram muitas vezes para a conquista dos tão almejados pontos. Muitas foram as vezes em que saí de estádios adversários a pensar que, se alguém me perguntasse o que é o Vitória eu só os poderia convidar a assistir um jogo para que tivessem a oportunidade de ver a paixão com que "as gentes de Guimarães" levantam os seus cachecóis e cantam, sem saltar nenhuma sílaba, as músicas que sabem de cor.

Depois de disputada a primeira jornada da segunda volta (correspondente à 18ª jornada do campeonato), o Vitória encontrava-se com 34 pontos, a um ponto do 4º lugar (ocupado, na altura, pelo Sporting) e a dois pontos do 3º lugar (ocupado, na altura, pelo Sporting de Braga). O Chaves e o Marítimo, na 6ª e 7ª posição, em igualdade pontual - 27 pontos - não faziam soar alarmes. Os sete pontos de vantagem pareciam deixar seladas as primeiras cinco posições da tabela, sendo que as alterações nesses lugares seriam entre os clubes que já lá se encontravam. Desde a 18ª à 21ª jornada, o Vitória somou apenas uma vitória. O registo é de uma vitória (Sp. de Braga), empate (Marítimo) e duas derrotas (Paços de Ferreira e Porto). Em 12 pontos possíveis na segunda volta, o Vitória conquistou apenas três. Apesar dos adversários directos não terem feito grandes progressos, o fosso para o quarto e, principalmente, para o terceiro lugar aumentou, enquanto que o fosso que separava o último lugar europeu (deve ser o mínimo dos nossos objectivos), que ocupamos, do sexto lugar diminuiu drasticamente. Actualmente o Vitória está a 3 pontos do 4º lugar e a 6 pontos do 3º lugar, sendo que o 6º classificado está a apenas 3 pontos de distância do Vitória. Isto já faz soar alarmes, pelo menos os meus. As próximas jornadas não vão ser fáceis - deslocações tipicamente complicadas (Restelo e Alvalade), a disputa do derby de Guimarães com um Moreirense muito motivado e confiante, e um encontro importante a contar para a Taça de Portugal. 

A próxima deslocação é ao Estádio do Restelo. Fiquei surpreendida quando, ao pesquisar o histórico de confrontos entre estes dois símbolos emblemáticos do futebol português, constatei que é o Belenenses que leva a vantagem. As duas equipas já disputaram 141 jogos no total (a contar para o campeonato, a Taça de Portugal e a Taça da Liga), sendo que o Vitória levou a melhor 45 vezes, empatou outras 34 e saiu derrotado em 62 jogos. Quando restringimos a pesquisa somente aos jogos disputados em casa do Belenenses a história repete-se, sendo que o que sobressaí é que a vantagem é muito mais categórica: os azuis venceram 42, dos 64, encontros, e o Vitória venceu apenas 7. Apesar dos números não serem encorajadores, a supremacia do Belenenses tem sido contrariada nos últimos anos. Nos últimos cinco jogos disputados longe do Berço, o Vitória venceu três vezes e saiu derrotado apenas uma vez. O último encontro, a contar para o campeonato, foi repleto de golos com o resultado final a fixar-se em 3-3. A equipa vitoriana era, na época, comandada por Sérgio Conceição e os golos foram apontados pelos saudosos Bouba Saré e Henrique Dourado, e Filipe Ferreira, que marcou na própria baliza. Do onze inicial preto e branco que pisou o relvado em Belém na última época, apenas Bruno Gaspar, Josué e Pedro Henrique se mantêm, sendo que Miguel Silva, que foi titular, agora se senta no banco, "cedendo" o seu lugar na baliza a Douglas. Espero que no Domingo os adeptos de ambos os clubes possam ver um bom espectáculo de futebol e proporcionar um bom espectáculo nas bancadas - como é hábito - e que seja o tão necessário ponto de viragem no Vitória para consolidar verdadeiramente a presença europeia e, no melhor dos cenários, assaltar o terceiro lugar. A margem de erro é cada vez menor, mas ainda é possível.

Enquanto for possível, eu acredito. Até porque Guimarães é um berço de campeões. Ontem foram premiados, com os troféus desportivos "O Minhoto", vários atletas da região. Muitos dos nomeados e dos vencedores são vimaranenses e foram formados, actuam ou actuaram no representante desportivo máximo da cidade - o Vitória, claro. É, indubitavelmente, um motivo de orgulho, apesar dos vimaranenses e vitorianos reconhecem o valor dos seus todos os dias. Na categoria das Artes Marciais, o atleta de Taekwondo Nuno Costa ganhou o troféu. Atleta da mesma modalidade, Rui Bragança foi o vencedor do Grande Prémio do Júri (Individual). Dois atletas que, apesar de agora pertencerem aos quadros do Benfica, viveram e ganharam muito no e com o Vitória enquanto atletas e que são de Guimarães - e serão sempre, independentemente do clube que representam (com muita pena minha, já não é o Vitória). Na categoria que Rui Bragança venceu, estava nomeado outro vimaranense que leva o nome de Portugal ao mundo: o número um do ténis português, João Sousa - que nunca se esquece das suas raízes nem do seu (e nosso) Vitória. Na categoria de Basquetebol foi o "nosso" Filipe Lima, que actua na incansável equipa de basquetebol vitoriana, o vencedor. O medalhado olímpico Manuel Mendes - vimaranense e vitoriano, enquanto adepto e atleta -, venceu com muito mérito na categoria de Desporto Adaptado. Paulo Oliveira, que nasceu em Vila Nova de Famalicão e actuou no Vitória, fazendo parte do selecto grupo de jogadores que conquistou a Taça de Portugal e que, por isso e por nunca se esquecer do Vitória, é sempre lembrado com muito carinho. Envergando, agora, a camisola do Sporting venceu Nélson Oliveira e Pedro Tiba na categoria de Futebol Profissional. Na categoria de Voleibol, estavam nomeados, para além de uma atleta do Sporting de Braga, Bruno Cunha e João Oliveira, dois atletas do Vitória na modalidade, e foi o último a levar o troféu para casa. Na categoria Treinador, o incrível treinador de basquetebol do Vitória, Fernando Sá estava também nomeado, mas perdeu, com muita pena minha, para Carlos Resende. Um homem que merece o reconhecimento de todos os vitorianos por tudo o que já fez pela modalidade e pelo nosso nome. Em suma, foi um bom dia para o desporto vimaranense e vitoriano. (E é com alguma tristeza que constato que o Vitória ainda não felicitou, através dos seus sítios oficiais, nenhum dos seus antigos e actuais atletas. Espero que o façam. Vitória não é só futebol!)

Para terminar, tenho (sempre) de falar de outros campeões. Aqueles que, jornada após jornada, enchem as bancadas do nosso - ou outro - estádio com amor (e também daqueles que se deslocam aos pavilhões - ao nosso ou a outros - para acompanhar os incríveis e dedicados atletas das modalidades). É admirável e é incrível a atmosfera vivida num estádio praticamente cheio (com a maioria dos adeptos a ser os da casa, contrariando a tendência do que se vive em Portugal), em que se entoam as músicas a uma só voz e em que os cachecóis se atropelam de tantos que são e de tanto os querermos elevar. Isto de apoiar o clube da terra é realmente bonito. Seja a perder ou a ganhar. Não é só bonito, também é admirável. Estes campeões das bancadas que não se movem por troféus, que não se mobilizam por esperar vitórias, que não se importam com o resultado são, porventura, o mais importante jogador da equipa vitoriana. São os nossos valores que nos distinguem dos outros, porque são os nossos valores que nos levam ao estádio - depois das derrotas e depois das vitórias. Percebo, cada vez mais e cada vez melhor, que é tudo uma questão de valores e educação. Percebo, cada vez com mais orgulho, que em Guimarães se vive o que de mais bonito há no futebol: a paixão e o interesse genuínos, baseados somente no amor e na paixão a uma instituição e a uma cidade que se fundem de cada vez que passamos o cartão de associados, de que tanto nos orgulhamos de ter na carteira, no torniquete, de cada vez que passamos um bilhete - que muitas vezes compramos com muito esforço - no torniquete de outro estádio, de cada vez que, com os olhos a brilhar, falámos do Vitória sem sequer mencionar um título ou uma vitória. Estar presente basta, é disso que nos orgulhamos e é disso que nos alimentámos. E é, também por isso, que tenho cada vez mais pena daqueles que nos perguntam pelos nossos títulos com a ironia vincada em cada comentário, como se isso fosse o que realmente importa. Eles não entendem que o nosso amor não se alimenta de títulos e vitórias, não entendem que o nosso amor se alimenta do orgulho que temos daquilo que é nosso e daquilo que faz parte da nossa identidade. Eles não entendem que nós somos a resistência ao fácil. É difícil ser de um clube que não ganha troféus atrás de troféus, que não está sempre bem, que tem muitos problemas. É muito difícil, mas eu não podia imaginar-me a apoiar de outra forma. É muito difícil, mas não podia ser melhor. Afinal, é nosso. Isso não se compra!

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Indissociáveis


Foto: Vitória SC
A última semana fica pautada por duas vitórias basilares na presente época vitoriana. Na Covilhã, o Vitória conseguiu a primeira vitória do ano civil e garantiu a continuidade na Taça de Portugal, competição em que o objectivo tem de ser o de chegar ao Jamor e levantar a taça. A vitória no Municipal de Braga, no último Domingo à noite, foi importante não só pelos três pontos conseguidos, mas também porque foi a primeira vez que os branquinhos ganharam naquele estádio e acredito que isso dará uma injecção de confiança à equipa para enfrentar a segunda volta. Em termos de jogo jogado, é de destacar o último jogo, em especial a primeira parte. Se o desempenho da equipa não foi totalmente satisfatório na Covilhã, pese embora o resultado, a prestação da turma vitoriana em Braga convenceu e ficou a certeza de que o 5º lugar não pode ser o objectivo. Apesar da conquista do 4º ou 3º lugar já não depender exclusivamente de nós, estou certa de que podemos ambicionar em terminar a época no pódio. Não é uma ambição descabida. Estamos a um ponto do Sporting de Portugal, 4º classificado, e a dois pontos do Sporting de Braga, que ocupa a 3º posição. A verdade é que ter ambições não chega, é preciso que as acções sejam condizentes. A nossa preocupação tem de ser a de desenhar e construir o nosso caminho, unicamente. 

Tento ser ponderada em tudo aquilo que digo e escrevo, portanto ainda me parece ser muito cedo para falar de transferências com a objectividade desejada. No entanto, há algumas coisas que posso dizer desde já. Não sei quais os benefícios que esta janela de transferências, a meio da época, traz ao futebol. Da mesma forma que não entendo a lógica do mercado só fechar no final de Agosto, já depois do início das competições. É descabido e beneficia apenas a carteira dos empresários e os clubes com poder financeiro. Isto não é de hoje e será tema para outro dia, certamente. Quanto ao que é particular ao Vitória, o que realmente interessa, não fiquei agradada com as saídas conhecidas até ao momento, pese embora qualquer comentário da minha parte seja feito sempre com alguma cautela por não conhecer os contornos dos negócios. Gostaria de ver a SAD ser mais transparente com os sócios quanto às vendas e aquisições de jogadores. Não sendo esse o caso, comento aquilo que depreendo do que leio e do que vou sabendo. O que sei, com certeza, é que a saída de dois jogadores titulares deixa sempre danos. Mesmo que sejam contratados jogadores de qualidade, estes precisam de se entrosar com os companheiros, de conhecer a equipa e de se adaptar ao futebol português, se estiverem a militar em campeonatos estrangeiros. É para isso que, antes do início do campeonato, existe a pré-época. A pré-época dos jogadores que chegam em Janeiro é numa altura determinante no campeonato e, no nosso caso, da Taça de Portugal. João Pedro foi vendido aos LA Galaxy. Apesar de não ser conhecido o valor da transferência, estima-se que tenha saído por cerca de um milhão e meio de euros. Parece-me um valor irrisório, tendo em conta a importância do jogador para a equipa e a sua margem de progressão. É impossível dizer se iria valorizar, são muitas as variáveis a ter em conta e o futebol é imprevisível, mas uma vez que a sua venda não permite um encaixe financeiro considerável. não vejo quais os grandes benefícios imediatos, ou a longo prazo, para o Vitória. A transferência de Soares, para o Porto, é mais difícil de comentar. Não há declarações oficiais nem consenso quanto ao valor e parece ainda estar em cima da mesa a possibilidade de jogadores da equipa portuense serem transferidos, inclusive a título definitivo, para o Vitória. Resta-nos esperar e desejar aos dois jogadores todo o sucesso possível.

A última semana, para além de ficar marcada pelas duas vitórias importantes já referidas, ficou marcada, mais uma vez, pelo apoio incondicional e extraordinário dos melhores adeptos do mundo. Não tive possibilidade de me deslocar à Covilhã, mas acompanhei o jogo pela televisão. Não comecei a ver o Vitória há dois dias, bem pelo contrário. Já conto alguns anos a acompanhar o Vitória - fora e em casa - e espero contar muitos mais. No que depender de mim, enquanto tiver condições para o fazer, vou passar muitos dias nas bancadas do nosso estádio ou noutras bancadas por esse país - e quiçá, por esse mundo - fora. Isto tudo para dizer que, depois de tantos anos, ainda fico surpreendida com a capacidade desta massa associativa se desdobrar para acompanhar a sua equipa do coração. Quando vi a moldura humana composta pelos vitorianos, a quase 300 km de distância, ao final da tarde de um dia da semana e com graus negativos fiquei boquiaberta. Sabia que os vitorianos não iam deixar a equipa jogar sozinha. Nunca deixamos, mas ainda assim não contava que tanta gente o fizesse, tendo em conta as péssimas condições. Fiquei emocionada e extremamente orgulhosa por fazer parte desta família. 

No Domingo à noite, assim como muitos outros vitorianos, desloquei-me a Braga para acompanhar a equipa. É uma deslocação ímpar, pela rivalidade entre os dois clubes. Os vitorianos não desiludiram, claro. Compareceram em massa e, mais uma vez, proporcionaram a todos os braguistas um espectáculo dentro do espectáculo. Nada de novo. Quem compra bilhete para assistir a um jogo do Vitória já deve saber que compra um bilhete 2 em 1: para além do jogo de futebol em si, ainda há um espectáculo único nas bancadas. No entanto, os artistas (nós, claro) foram muito mal recebidos. Ainda antes de chegar às imediações do estádio, já havia graúdos com medo - e miúdos a chorar - dentro dos autocarros ao ver a polícia de intervenção correr em direcção aos autocarros de bastão na mão. Episódios desnecessários protagonizados por quem devia ter, mas aparentemente não tem, formação para lidar com multidões. Depois de chegar às imediações do estádio, toda a gente percebeu que não estavam prontos para receber a força conquistadora. Só assim se pode explicar a forma como os adeptos entraram no estádio. Iam passando grupos para a revista que depois se amontoaram na zona dos torniquetes de acesso que tinham, se não estou em erro, duas ou três pessoas a recolher os bilhetes. Entrei já perto da hora, mas provavelmente muitos só conseguiram entrar depois do apito inicial. Quando cheguei ao último piso ainda estava muita gente à espera de ser revistada e, nesse momento, chegaram mais cinco autocarros. 

Se o que acabei de descrever é o que me faz espécie no futebol (bem, a incompetência incomoda-me em todas as áreas), o que aconteceu nas (cerca de) duas horas seguintes foi o que me fez apaixonar por futebol e é o que me faz continuar a dar dinheiro e tempo para ir aos estádios acompanhar uma equipa de futebol. Um apoio digno de registo. Cada vez mais me apercebo que nós, vitorianos, somos o sinónimo de amor. Somos nós que impulsionamos o futebol nas bancadas, num país que tem a mentalidade tacanha de apoiar um clube só porque é esse clube que ganha. Realmente o Vitória tem poucos troféus, não faz épocas incríveis, não tem os melhores jogadores do mundo e não tem os cofres cheios. É a realidade e é inegável. No entanto tem o que muitos outros, principalmente em Portugal, não têm: adeptos resilientes, verdadeiramente apaixonados e sempre dispostos a apoiar o clube. É o verdadeiro décimo segundo jogador, capaz de empurrar a equipa para a vitória. Eu, que sou de letras e gosto tanto de palavras, não as encontro para descrever aquilo que vejo e sinto quando estou na bancada, junto de pessoas que eu não conheço, mas que têm o mesmo objectivo do que eu: fazer do Vitória um clube maior! O Vitória é maior por nossa causa e por causa do nosso inenarrável apoio. Não tenho dúvidas disso. Aliás, tenho cada vez mais essa certeza. O Vitória é indissociável dos seus adeptos e, juntos, somos indissociáveis da palavra amor. 
Foto: Pedro Cunha

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Os tipos admiráveis

O Vitória encerrou a primeira volta do campeonato no Estádio Marcolino de Castro, em Santa Maria da Feira, com um empate que soube a pouco. A exibição não foi excelência, mas chegaria para somar três pontos, ao invés de um, se a equipa soubesse ser mais assertiva na altura de alvejar a baliza. É notório que há limitações, que devem ser tratadas no mercado de Inverno, e algum cansaço, provocado por um mês de Janeiro com um calendário extenso e exigente. Desde o dia 30 de Dezembro do ano transacto, em que o Vitória foi a Vizela arrancar uma vitória para a Taça CTT, a equipa já disputou quatro jogos - dois deles para a referida Taça e os restantes dois para o campeonato. Destes jogos, os resultados repartem-se igualmente em empates (frente ao Paços de Ferreira, para a Taça, e frente ao Feirense, para o campeonato) e derrotas (as duas frente ao Benfica, para a Taça e para o campeonato). De forma simplificada, bastará dizer que 2017 ainda não convenceu. O Vitória somou apenas 1 ponto para o campeonato, de seis possíveis, e foi eliminado de uma competição que tinha todas as possibilidades de ganhar. Até ao final de Janeiro, disputam-se jogos muito importantes para o campeonato (Braga fora e Marítimo em casa) e para a Taça de Portugal, frente ao Covilhã. O início de Fevereiro trará, também, os seus desafios: começa com uma deslocação ao Estádio da Mata Real e com a recepção ao Porto.

Apesar do ano não ter começado da melhor forma, o balanço da primeira volta é positivo. Não é satisfatório e deixa a sensação de que se podia ter feito mais e melhor, mas é, no geral, positivo. O Vitória encontra-se na 5ª posição da tabela classificativa, na posição mínima que dá acesso à 3ª pré-eliminatória da Liga Europa. Parece-me que este lugar tem de ser sempre o mínimo exigido e não o objectivo da época. Logo abaixo, na 6ª posição e a 6 pontos, encontra-se o Marítimo. Acima, para onde temos de olhar, encontra-se imediatamente o Sporting, com mais três pontos; o Braga, em 3º lugar, com mais cinco pontos; e, na 2ª posição, está o Porto, com mais sete pontos. Parece-me importante declarar, de imediato, um facto óbvio, mas que por vezes pode passar despercebido. São seis pontos que separam o 6º classificado, o Marítimo, do Vitória e são cinco pontos que separam o Vitória do 3º classificado, o Braga. Outro facto óbvio, e de grande importância, é que na jornada inaugural da segunda volta o Vitória desloca-se ao sempre complicado reduto do Sporting de Braga, enquanto que na jornada seguinte recebe o Marítimo. Se as duas jornadas correrem bem, e o Vitória conseguir somar seis pontos, pode aproximar-se do 3º posto ou, até mesmo, instalar-se nesse lugar agradável - contando, para isso, com deslizes do Sporting de Braga e do Sporting de Lisboa. No outro extremo do espectro, o 5º lugar pode ficar em risco se as próximas duas jornadas correrem mal para o Vitória e correrem bem ao Marítimo, que inicia a segunda volta defrontando o Sporting. Naturalmente prefiro - e acredito - no primeiro cenário, apesar de ser a primeira a admitir que não vai ser nada fácil e que não podemos ser condescendentes, em nenhum período dos jogos (e, de preferência, em toda a segunda volta e isso incluí o mercado de transferências).

Os próximos dois jogos são peculiares e com características muito próprias. Começando pelo início: amanhã o Vitória desloca-se à fria Covilhã para tentar desbravar caminho até ao Jamor. Não há alternativa à vitória. A Taça de Portugal é o palco dos sonhos e é fundamental estar ciente de que o é para todos os clubes. Da mesma forma que o é para nós, também é para o Covilhã. A mentalidade com que se entra em campo, num jogo assim, tem de ser forte e inflexível. O adversário chegou ao mesmo patamar por mérito. Cair na armadilha de questionar esse mérito, é meio caminho andado para sair da prova. Não é, de forma nenhuma, o primeiro confronto entre os dois emblemas. Nem é o primeiro confronto para a Taça de Portugal. No computo geral até é o Covilhã que leva a vantagem. Em 37 jogos, o Covilhã venceu 17 e o Vitória 15, sendo que os restantes 5 terminaram em empate. Na Taça de Portugal, o caso muda de figura. Foram 6 os confrontos e o Vitória levou a sua avante por 4 vezes. O último jogo disputado, e o único disputado este milénio, foi em 2009 para a Taça da Liga, na altura designada por Carlsberg Cup. O jogo disputado no nosso estádio ficou 2-0, com golos de Moreno e Targino. O Vitória acabou por ficar em primeiro do grupo e passar à próxima fase. O jogo de amanhã não se adivinha fácil, mas ganhar é a palavra de ordem!

No próximo Domingo, o Vitória entra em campo na Pedreira. Um dérbi tem sempre contornos especiais. Os nervos estão à flor da pele, os pequenos detalhes ganham proporções megalómanas e a pressão triplica para quem está dentro de campo. Não é um jogo fácil, para ninguém. No entanto é sempre um jogo emocionante e que, por norma, é um espectáculo sem igual. Arrisco-me a dizer, não pela primeira vez, que este é o mais emocionante dérbi a nível nacional. Pela história que comporta e, principalmente, por ser um dérbi milenar que é apenas uma extensão da disputa entre as duas cidades minhotas. É difícil, para quem vê de fora, entender as dimensões deste jogo. Para quem o vive, na sua essência e há muitos anos, é um dos jogos da época. Não só porque pode ser decisivo, mas porque dá uma força anímica sem igual a um dos clubes. Isto, no início da segunda volta, pode ser muito importante. Não só em termos classificativos. No entanto, tal como o jogo de amanhã, não vai ser tarefa fácil para os nossos branquinhos. Aliás, o Vitória ainda não conseguiu ganhar nenhum dos 12 jogos disputados no Municipal de Braga. Destes, 11 contaram para a Liga. O Vitória perdeu 8 vezes e empatou nos outros três jogos, sendo que os últimos dois jogos acabaram em empate. Em 2014, sem golos. Em 2016 foram 6 os golos apontados, três para cada emblema. Do onze titular que alinhou frente ao Braga a época passada restam apenas 4 jogadores: João Miguel, Josué, Pedro Henrique e Bruno Gaspar. Os três golos vitorianos foram apontados por jogadores que já não estão no clube, nomeadamente Licá, Dourado e Otávio. O Sporting de Braga tem, em sua casa, um campo muito difícil. Para o campeonato ainda não perderem nenhum jogo. Os dois jogos que perderam contaram para a Taça CTT, frente ao Rio Ave, e para a Taça de Portugal, precisamente pelo Covilhã, que os eliminaram da prova. Para todos os efeitos são três pontos como todos os outros, mas podem ser determinantes na principal prova portuguesa.

A minha última nota não pode deixar de ser para os do costume: para nós, adeptos. Se me pedirem para eleger o melhor desta primeira volta, a minha resposta seria a mais natural do mundo e sem nenhuma hesitação. O melhor desta primeira volta, como em todas as voltas de todas as épocas, são os adeptos. Temos de ser justos e intelectualmente honestos: um clube não se faz só de adeptos. O Vitória não é excepção. O Vitória é uma instituição constituída por várias partes, desde a administração aos adeptos - passando, naturalmente, pela equipa e equipa técnica, entre todos os outros departamentos que contribuem (e devem contribuir sempre) para fazer do Vitória um clube cada vez melhor e maior. No entanto, são os adeptos a força motriz deste clube, de um dos símbolos mais importantes e indispensáveis do futebol português. São os adeptos vitorianos, grupo em que me estou incluída, que são verdadeiramente admiráveis - mais do que qualquer jogador, marque ele os golos que marcar; mais do que qualquer treinador, independentemente dos troféus que ganhe ao serviço do clube. Não os desmereço, naturalmente. Não desmereço nenhum jogador, nenhum treinador e ninguém que faça o seu melhor ao serviço do Vitória. São os irredutíveis e incomparáveis adeptos vitorianos que têm, cada vez mais, a minha maior admiração. Aqueles que, como eu, gerem os seus horários para poder ir apoiar a equipa. Aqueles que, como eu, estão no autocarro a regressar de Santa Maria da Feira a planear a próxima deslocação, sem querer saber se estamos há quatro jogos sem ganhar. Aqueles que, como eu, ficam verdadeiramente tristes quando não podem acompanhar a equipa. Aqueles que, como eu, preferem estar na bancada de qualquer estádio português, ao frio e à chuva, do que estar confortavelmente sentados no sofá a ver o jogo pela televisão.

A minha admiração pelos adeptos vitorianos é, de dia para dia, maior. Àqueles que eu nem sequer conheço, mas que partilham este amor comigo: o meu obrigada! Por partilharem as bancadas comigo, por comporem molduras humanas extraordinárias comigo, por fazerem tudo em prol do Vitória como eu faço, por tornarem do Vitória o clube com os adeptos mais épicos e extraordinários do país. Quem acompanhou o Vitória na primeira volta da presente temporada, quem foi ao Dragão, a Moreira, a Vila do Conde, ao Bessa, a Tondela, a Arouca, a Vizela e ao Feirense - e a todas as outras deslocações que não estão enumeradas aqui -, tem muitas novas histórias para contar e para juntar a todas aquelas que já têm anos e que, carinhosamente, vamos contando em jantares e aos amigos quando eles já estão cansados de ver o nosso cartão do Vitória e cansados de ouvir as nossas histórias. Nós contamos sempre, uma e outra vez. E vamos contar no futuro, porque nós fazemos parte dessas histórias. Acrescentamos sempre, embebecidos, que "vocês, que estão de fora, não entendem". Dizemos isso porque sabemos que não entendem mesmo. Não conhecem aquela sensação incrível de sair do estádio com um sorriso estampado no rosto, depois de uma derrota, porque nas bancadas demos 15-0. Nem conhecem a sensação maravilhosa de perceber que, de certa forma, fomos nós que empurramos a equipa para a vitória. Muito menos sabem o que é chegar a casa, depois de uma viagem cansativa, de peito feito e com o coração a transbordar de orgulho. Nem conhecem - e desconfio que são poucos os que vão conhecer - a sensação de nos sentirmos uns super-heróis no final do jogo, com a camisola do Vitória, a camisola do clube da cidade que me viu crescer e que faz parte da minha identidade.

Quem apoia o clube da terra, contra todas as adversidades (e são muitas), é capaz de conseguir ter uma ideia daquilo que aqui falo. Há umas semanas li que "em Portugal, ser adepto de um clube do meio da tabela é cada vez mais um acto de masoquismo. Um acto de heroísmo." e, de facto, é. É difícil ir contra o que é normal, habitual, contra os jornais e as televisões, contra o que nos querem impor a ferro e fogo. É difícil, mas o lado bom compensa todo o lado mau que possa existir. É por isso que, quando chego a casa, vejo e revejo as fotos e os vídeos dos adeptos vitorianos e não consigo deixar de pensar que "estes tipos são mesmo admiráveis". E são. Somos admiráveis, somos arte. Muitos não entendem, nem é necessário. Nós sabemos dos esforços que fazemos e sabemos da paixão que nos move. Somos o combustível do Vitória. Onde houver um vitoriano apaixonado, estamos todos. Enquanto houver o Vitória, o futebol português é um bocadinho mais bonito.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

"Somos do melhor do mundo"

"Sexta-feira, 21 horas, antevéspera de Natal e previsão de temperaturas muito baixas. Mais de 100 quilómetros a separar Guimarães de Arouca. Esqueça, nada é suficiente para demover os aficionados vimaranenses, que se fizeram ouvir e sentir no apoio ao seu clube, nesta noite gelada de Arouca. Já se sabe a paixão que move estes adeptos, mas caso ainda houvesse dúvidas, elas ter-se-iam diluído esta noite. «E onde fores, eu vou», não se cansaram de cantar. No Natal celebra-se também a família, e a vitoriana mostrou a forte união que se lhe reconhece"
Maisfutebol
Foto: Luís Martins (comunicação do FC Arouca)
Há quem diga que a paixão, eventualmente, esmorece. Não sei até que ponto é uma afirmação válida. Acredito que possa ser, para alguns e em determinadas situações. No entanto não acredito que seja válida para nós, enquanto vitorianos. Ando pelas bancadas do D. Afonso Henriques - e de outros estádios portugueses - há muitos anos a acompanhar o Vitória. Já vi, da bancada, o Vitória ser goleado, já vi o Vitória golear, já vi o Vitória ser arrumado de competições importantes por equipas teoricamente mais acessíveis, já vi o Vitória vencer o jogo de acesso à final dessa mesma competição, já vi o Vitória levantar uma Taça incrivelmente bonita, já vi o Vitória ser goleado numa final. Já vi lágrimas de alegria e de tristeza correr pela cara de muitos vitorianos. Já chorei em muitas bancadas - umas vezes de felicidade extrema, outras de uma tristeza gigante, outras ainda de emoção. Há quem afirme, com toda a convicção do mundo, que "futebol é só futebol". Eu não acho que seja.

O Vitória e os vitorianos são um caso de paixão particular. É por isso que, quando vamos a outro estádio, é gritante e inegável a nossa dedicação em apoiar a equipa. Assim que cheguei a Arouca e ainda a uns quilómetros do estádio, já via vitorianos parados na berma da estrada. Assim que cheguei ao estádio só via vitorianos - nos passeios, nos estacionamentos, na estrada e na entrada para o estádio. Parecia um dia de jogo em Guimarães, só que a cerca de 100 quilómetros de distância. Ver as ruas de outras terras, onde o Vitória vai disputar um jogo, cheias de vitorianos, de cachecol ao peito, ainda me impressiona e ainda me enche de orgulho como se fosse a primeira vez. Já não é uma imagem nova para mim, mas ainda me consegue surpreender e deixar um bocadinho mais apaixonada - mesmo que isso me pareça pouco possível. 

No dia anterior à deslocação a Arouca, conheci um sócio do Vitória por puro acaso. Uma coisa normal, mas que me deixou com um sorriso estampado no rosto. Assim que soube o meu clube, levantou o punho e disse para quem quisesse ouvir que "somos do melhor do mundo". Concordei imediatamente e, como não podia deixar de ser, ficamos a conversar durante uns minutos. Contou-me, sempre com um sorriso e muita vivacidade, que já é sócio há muitos, muitos anos. "Desde os anos 50, se calhar já era sócio do Vitória antes do teu pai nascer". Disse-me que, com muita pena, os seus mais de setenta anos já não lhe permitiam ir ver muitos jogos porque as horas nem sempre são as mais simpáticas e está sempre muito frio, mas que ia ao estádio sempre que podia e esta época já tinha ido ver quatro jogos - um dos quais o último em casa. Disseram-me depois que é o sócio nº 101 do Vitória, um número muito bonito e que certamente guarda muitas histórias. 

Assim que o senhor foi embora, não pude deixar de pensar que todos aqueles anos de sócio devem estar cheios de experiências incríveis ao lado do Vitória. Só com muito amor e uma paixão incrível que não esmorece é que é possível falar com um brilho especial nos olhos de alguma coisa, tantos anos depois. É por isto que futebol nunca é só futebol. Daqui a muitos anos quero contar a alguém, muitos anos mais novo, que numa noite fria antes da noite de Natal os vitorianos foram até Arouca para cantar e apoiar o Vitória em mais uma demonstração de amor incrível - como tantas outras naquela época (e em todas as outras). Se tiver essa oportunidade sei que o farei e tenho a certeza de que o farei com o mesmo brilho nos olhos com que levanto o meu cachecol em qualquer bancada de qualquer estádio. Isto é amor. E mesmo que ninguém entenda... "onde fores, eu vou".

Por fim, desejo a todos um excelente final de ano e um bom 2017. Que possamos acabar o ano com uma vitória em Vizela e que em 2017 nos possamos encontrar para mais momentos memoráveis - "no berço ou noutro estádio". Somos do melhor do mundo.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Conquistar em todas as frentes

Foto: Marco Jacobeu
O Vitória está numa fase positiva de resultados em todas as frentes. Não só no futebol profissional, mas também nas modalidades em competição. Perto do Natal e a poucos dias do último jogo do ano para o campeonato, convém começar a fazer contas e acautelar o futuro. Os últimos anos da equipa principal de futebol têm sido anos de transição, em que a vertente financeira é privilegiada em detrimento da aposta na vertente desportiva e na ambição de ficar nos lugares cimeiros da tabela classificativa. Quanto às modalidades, seria exigir demasiado pedir mais do que aquilo que já nos dão. Com o pouco que têm, vão fazendo muito e é por isso que ser um clube ecléctico deve continuar a ser uma prioridade de todas as épocas. Recheadas de atletas campeões que dão tudo pela camisola, são uma mais valia ao nosso símbolo. Vamos por partes.
  • Futebol
    Numa semana a equipa A conseguiu duas vitórias muito importantes em jogos disputados dentro das muralhas. A primeira, na última quinta-feira frente ao Vilafranquense, mantém o Vitória a caminho do Jamor. Infelizmente estive impossibilitada de assistir ao jogo. Pelo que li, foi uma vitória conseguida a ferro e fogo, com a exibição a não convencer uma vez mais. A vitória pela margem mínima é condizente. O sorteio, que se realizou ontem, ditou que o próximo desafio nesta competição será na Covilhã. Se o Vitória vencer o jogo, e vamos acreditar que assim será, encontrará nas meias-finais, disputada a duas mãos, o Chaves ou o Sporting. Nenhuma equipa é fácil, a começar pela Covilhã. Derrotou o Sporting de Braga e acredito que está motivada para voltar a vencer a uma equipa da primeira divisão do futebol português. Apesar de não ser fácil, temos todas as hipóteses de voltar ao Jamor se enfrentarmos os próximos desafios conscientes de que este é o palco dos sonhos - não só para nós, mas para todas as equipas. Sem facilitismos e com trabalho. O caminho é para o Jamor!
    Para o campeonato e num jogo disputado também no conforto de casa, o Vitória conseguiu uma vitória frente ao homónimo de Setúbal. Com uma exibição de melhor nível do que as anteriores e com algumas individualidades em destaque, ainda tremi na bancada com o golo de Edinho aos setenta minutos para empatar a partida. João Pedro, o menino querido da casa, inaugurou o marcador pouco depois da meia hora de jogo com um golo que já merecia há muito e de enorme categoria. Não que os vitoriano precisem de uma confirmação do seu valor, mas soube bem ver João Pedro festejar o seu golo. Foi uma aposta ganha! A resposta ao golo de Edinho não se fez demorar. Foi Raphinha a voltar a pôr o Vitória por cima no marcador dois minutos depois com um golo que satisfez todos os que estavam no estádio. Para selar a vitória, Hernâni chegou-se à frente e fez o 3-1. Os desentendimentos com os adeptos já estavam no passado. Mostrou o seu valor e mostrou que da mesma forma que pode ter jogos menos conseguidos, pode resolver a partida. Com três golos de excelência e que merecem ser vistos e revistos o Vitória ficou, à 14ª jornada, no 4º lugar com 27 pontos, em igualdade pontual com o Sporting de Lisboa.
    Segue-se a deslocação a Arouca, no último jogo do campeonato deste ano civil. Com uma vitória no jogo da próxima Sexta, o Vitória pode terminar o ano no terceiro lugar - dependendo dos resultados de Sporting de Braga e Sporting de Lisboa, claro. No pior cenário, continuamos na mesma posição. Não preciso, enquanto adepta, de pedir "prendas de Natal" à equipa para a acompanhar. Tento estar sempre presente - em casa ou noutro estádio -, e Sexta-feira estarei em Arouca, assim como muitos outros vitorianos que acompanham a equipa onde quer que ela vá. No entanto admito que o Natal seria francamente melhor com uma vitória. O nosso apoio não vai faltar e estou certa de que, se for correspondido em campo na mesma medida então os três pontos voltam connosco para casa!
    A equipa B defrontou a Académica no início da semana e venceu um jogo polémico, dentro e fora das bancadas. Com expulsões de jogadores no tapete verde e aspirantes a jornaleiros na bancada, a vitória ficou para os do costume, ou seja, nós. Na primeira e segunda divisão, já sabemos muito bem qual o sabor de ganhar à Académica. Relativamente à expulsão pela presidência do Vitória de alguém que, sem carteira profissional, se julga jornalista convém relembrar que da mesma forma que pessoas assim mascaram os seus insultos com liberdade de expressão, o Vitória tem a liberdade de receber apenas quem quer e quem respeita a instituição Vitória, a cidade de Guimarães - berço de Portugal -, os vimaranenses e vitorianos. Quem não sente, não é filho de boa gente! Segue-se a equipa B do Porto amanhã, pelas 15 horas, no sítio do costume - a nossa casa!
  • Modalidades
    Nas modalidades o Vitória soma e segue. Numas mais do que noutras, mas os resultados têm sido muito bons. Nos últimos dias, foram várias as modalidades a entrar em acção: basquetebol, voleibol e kickboxing.
    A equipa de voleibol, em jornada dupla no fim-de-semana, perdeu o primeiro jogo, na casa do Esmoriz por 3-1. No dia seguinte, deslocaram-se ao pavilhão do Leixões e deram uma resposta à altura e muito satisfatória. Venceram por 3-1. Encontram-se na 7ª posição da tabela classificativa, em igualdade pontual com a Associação Académica de São Mamede.
    A equipa de basquetebol teve de se deslocar a Famalicão para disputar o Benfica e, num jogo muito discutido e que deixou tudo por decidir até ao último segundo - literalmente! -, só as gentes de Guimarães se fizeram ouvir e a equipa ganhou por 68 - 65. Já esta semana, a equipa recebeu o Lusitânia. Desta vez em nossa casa, o desfecho foi o mesmo: uma vitória para a equipa comandada por Fernando Sá. Desta vez a vantagem foi mais folgada, 77-68, apesar de o resultado - e a vitória - só se consolidar no último período.
    No entanto, o fim-de-semana foi mesmo dos atletas do kickboxing que, como cortesia enquanto anfitriões, conseguiram uma vitória esmagadora com dez atletas vitorianos a conquistar o primeiro lugar, sendo que mais três atletas conseguiram lugar no pódio. O excelente desempenho sagrou o Vitória como Campeão Nacional de Kickboxing!
Com o ano a terminar é bom relembrar que podemos e conseguimos fazer muito mais do que aquilo que os outros possam achar que conseguimos. Já não é altura da falta de ambição. Está na hora de apostar todas as fichas. O Vitória é uma instituição portuguesa de excelência e merece ser tratada como tal. Enquanto os outros - leia-se a comunicação social e alguns outros clubes, bem como os seus adeptos - não a tratam ou encaram como tal somos nós que temos de os fazer ver que somos de facto "O grande". Uma das formas de o fazer, e que já é natural para nós, é mostrar a base social sobre a qual se ergue este símbolo. Essa base social é feita de adeptos apaixonados que acompanham a equipa onde quer que esta esteja. Não pode ser só no futebol! Se somos realmente únicos temos de encher pavilhões e mostrar o nosso apoio aos atletas que tanto o merecem porque todos são o Vitória! Abandonar uns é, de certa forma, abandonar uma parte do Vitória. Isso não é o que nós fazemos. Somos conhecidos por apoiar sempre quem usa o nosso símbolo, esteja chuva ou sol. A nós nada mais nos interessa para além do Vitória! É essa a nossa imagem de marca, é assim que temos de ser. Sempre!

Desejo a todos aqueles que me acompanham e vão lendo o que escrevo um Natal muito feliz. Que possamos iniciá-lo com uma vitória em Arouca, em mais um jogo de "romaria" memorável - como tantos o foram este ano. Até Sexta!

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Que medo é este?

Foto: Marco Jacobeu
Numa noite agradável para ir ao estádio ver futebol e em que a equipa entrou com o símbolo da Chapecoense em verde solidariedade, o Vitória mostrou que não aprendeu a lição, voltou a cometer erros e deixou escapar a oportunidade de escalar na tabela. Um ponto é sempre melhor do que nenhum, naturalmente, mas este empate não pode ser considerado um bom resultado. Não por ser contra o Chaves. Os Flavienses bateram-se bem, não desistiram do jogo e mereceram o empate. A arbitragem de Fábio Veríssimo, designado para arbitrar a partida à última hora, deixou muito a desejar como já é habitual. No entanto, o Vitória pode queixar-se somente de si próprio. Uma vez mais! Continuamos, como tem sido habitual, a dar passos pequenos e a pedir permissão (e desculpa) para sermos aquilo que somos: grandes.

O jogo começou bem. A equipa parecia determinada em agarrar o jogo pelos colarinhos e redimir-se da derrota em Tondela. Não foi preciso esperar três minutos para ver Hernâni fazer o gostinho ao pé. Gritou-se golo! Estava lá dentro! Agora precisávamos de matar o jogo, não só para ficarmos mais seguros mas também porque um começo tão fulgurante iria, por certo, fazer mossa ao colectivo adversário. Em vez de lutar para chegar ao knockout, a equipa abrandou drasticamente o ritmo de jogo. Uma cena familiar e que não era particularmente querida. O Chaves percebeu imediatamente o rumo do jogo e começou a procurar o golo do empate. Ao intervalo a situação já não transmitia segurança. A segunda parte não podia ser uma continuação da primeira. Se a equipa voltasse apática dos balneários adivinhava-se o pior. Todos sabemos que quem não marca... sofre. E aos oitenta e três minutos sofremos. Só depois de sofremos o golo, quase ao fechar da cortina, é que a equipa acelerou. Não foi suficiente e, qualquer outro desfecho, não faria justiça ao que se passou em campo. Fomos vítimas de nós próprios, exactamente como tínhamos sido uma semana antes. Não aprendemos com os erros e, quem não aprende com os erros está condenado a sofrer. Voltamos a desperdiçar oportunidades. Com uma vitória no jogo do último domingo podíamos estar em 4º lugar, com 23 pontos, em igualdade pontual com o Sporting de Braga e podíamos, em simultâneo, aumentar a vantagem para as equipas que estão logo abaixo na tabela classificativa tal como o Rio Ave, o Marítimo e mesmo o Chaves. Parece que, quando podemos afirmar a nossa posição e ambição, temos de pedir desculpa e dar um passo atrás. Não é de hoje, não é desta época. Que medo é este? Temos medo de ganhar? Não temos de pedir desculpa por ser grandes, muito menos temos de pedir permissão para continuar a subir na tabela!

Os maus resultados são, parece-me, uma consequência das más exibições. No Bessa, para a Taça de Portugal, o Vitória já não protagonizou uma exibição de qualidade. As fragilidades da equipa estão a nu e conseguimos perceber que são necessários ajustamentos. O Vitória não pode sentir tanto a falta de dois jogadores. Se queremos lutar por um lugar cimeiro da tabela e pelas taças que disputamos, temos de ter alternativas de confiança. Na minha opinião, a equipa tem, actualmente, três grandes problemas: falta de agressividade, visão de jogo deficiente e pouca inteligência emocional. A falta de agressividade é notória na apatia com que a equipa parece, por vezes, arrastar-se pelo campo. Não podemos tirar o pé do acelerador imediatamente depois de marcar. Não podemos descansar durante nenhum período do jogo. Pelo contrário, temos de lutar para aumentar a vantagem e, no mínimo, para assegurar o resultado. A vantagem mínima nunca é garantia de nada. É necessário pressionar o adversário, intimidá-lo, fazê-lo recuar. A equipa, neste momento, só o faz esporadicamente. Como já percebemos não é suficiente. A visão de jogo deficiente do colectivo é bem perceptível das bancadas. Como é óbvio das nossas cadeiras temos uma visão privilegiada e não estamos sob pressão, como estão os nossos jogadores mas é preocupante ver muitas jogadas sem sentido, sem objectivo e tantos espaços para "alugar", principalmente no meio-campo. Por fim, e também porque este último ponto pode ser ilustrado com os últimos minutos do último jogo, há uma clara falta de inteligência emocional. Aos noventa minutos estávamos empatados a uma bola. Marcar o golo da vantagem seria extremamente complicado por uma panóplia de factores que não vale a pena discutir agora. No entanto tornou-se numa missão impossível com o tempo que a equipa gastou em discussões que não interessavam a ninguém e que resultaram na expulsão por duplo amarelo do nosso jogador, Rúben Ferreira, que fica excluído assim do próximo jogo, e no amarelo mostrado a Josué. Foram uns minutos de discussão em que a equipa não ganhou absolutamente nada, bem pelo contrário, e que não contribuiu para alcançar o nosso objectivo. Saímos prejudicados. Nunca joguei futebol de competição na minha vida mas compreendo que seja difícil manter a cabeça fria em todas as situações e só quem está de equipamento no relvado sabe realmente o que se passa, mas é em situações assim que é necessário manter uma distância necessária e manter a concentração no jogo porque o bem colectivo tem de estar no topo das prioridades.

Segue-se o Boavista, no Bessa. Para a Taça de Portugal não foi fácil trazer a vitória mas com uma harmonia incrível entre todos os vitorianos e a equipa conseguimos a passagem à próxima fase. Não podemos ignorar que, desta vez, os axadrezados vão estar ainda mais motivados para procurar a vitória. Também não podemos ignorar que vamos defrontar uma equipa que faz questão, como mostrou quando lá fomos, de recorrer a jogos de bastidores sujos que não devem ter lugar no futebol. É preciso preparar muito bem e com muito cuidado este próximo jogo. Não será fácil mas os três pontos em disputa podem ser fundamentais no fim das contas. Precisamos de contrariar estes maus resultados. E, de uma vez por todas, precisamos de não deixar os nossos objectivos escapar pelos nossos dedos como areia. O mostro não pode adormecer, outra vez! Os vitorianos têm de mostrar o porquê de serem os adeptos mais admirados em Portugal e voltar a formar uma moldura humana incrível capaz de empurrar a equipa para a vitória. Não podemos ter memória curta e devemos estar bem cientes do quão felizes saímos do Bessa há duas semanas. Foi por causa desta equipa. Foi por causa deste símbolo. Os grandes não abandonam o barco quando a situação parece difícil. Pegam num remo e ajudam a remar. Juntos podemos chegar onde quisermos!

Dizem que o melhor fica para último. O momento mais bonito da noite do último Domingo foi um momento que todos nós, e permitam-me que fale por todos, preferíamos não ter vivido. Isso significaria que Nuno Greno, a equipa da Chapecoense e todos os jornalistas envolvidos no acidente estavam bem. Infelizmente não podemos fazer nada quanto a isso e resta-nos, como comuns mortais com o mesmo destino, prestar-lhes as mais bonitas homenagens possíveis. O estádio, lugar de cânticos e palmas, silenciou-se. Nunca vi o D. Afonso Henriques tão silencioso. Cumpriu-se um minuto de silêncio absoluto. A emoção era palpável. Não é suficiente, nem nunca será mas foi marcante e inesquecível. Da mesma forma que foram todas as pessoas homenageadas. A vida e o futebol andam de mãos dadas. Fisicamente não estão connosco nunca mais, mas ficaram imortalizados para sempre num minuto de homenagem num estádio de futebol.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

O futebol


Há pouco a acrescentar ao que já foi dito sobre o último jogo do Vitória, no Estádio João Cardoso em Tondela. Foi um jogo muito mal conseguido. Desperdiçamos uma extraordinária oportunidade de ir para 3º lugar e continuar a lutar pelo topo da tabela. Uma derrota que não é preocupante se se souber tirar as devidas ilações. Parece-me mais pertinente reproduzir as palavras que escrevi no passado Domingo, depois de terminado o jogo e depois de fazer a viagem de regresso a Guimarães, ao invés de acrescentar qualquer outra coisa, porque hoje as palavras ainda me faltam.

Há uma semana, por volta desta hora, estávamos a chegar a Guimarães depois de uma vitória saborosa arrancada à última hora no Estádio do Bessa. Chegamos cansados mas com sorrisos estampados no rosto e fizemos questão de avisar que tínhamos chegado a casa assim que o primeiro vitoriano pôs os pés fora do comboio. Os cânticos de apoio rapidamente encheram toda a estação. O cansaço era grande, mas o orgulho era muito maior. O resultado foi fundamental mas não foi o único factor a contribuir para a nossa felicidade extrema: a viagem, o ambiente que criamos e a forma como empurramos a equipa para a vitória - já disse que não tenho duvidas que o fizemos - foi determinante para chegar a casa com um sorriso meio parvo, de quem se apaixonou (outra vez), que teimava em não sair do rosto. Estávamos contentes, e gostávamos que fosse sempre assim. Infelizmente não é. O sentimento com que fizemos a viagem de regresso, de Tondela para Guimarães, é contrastante com o(s) sentimento(s) de há uma semana. As conversas entusiasmantes de há uma semana deram lugar ao silêncio de hoje - o amor não é uma variável dependente do resultado mas gostámos de ver os nossos a fazer bem. "A que horas é o jogo para a semana?", perguntou um senhor ainda antes de deixarmos o Bessa. Rapidamente obteve uma resposta. "É às 20h15 no Domingo, mas se calhar não vai muita gente que o pessoal trabalha na Segunda". Imediatamente o senhor respondeu aquilo que também eu podia responder: "nós não somos desses". Não somos e, por isso mesmo, hoje estávamos presentes mais uma vez. Voltamos a fazer quase quatrocentos quilómetros, de tantos que já fizemos e que guardam tantas histórias, por amor. De cachecol no ar e peito feito entoávamos os cânticos de sempre, que nos acompanharam toda a vida. Fizemos a nossa equipa jogar em casa tão longe dela. Está a tornar-se um hábito. Mas hoje as coisas não correram bem, hoje deixamos o estádio tristes. Não ficamos tristes só com o mau resultado mas também com uma exibição apática que deixou muito a desejar. E, se há coisa que os vitorianos gostam para além do nosso lindo símbolo, é bom futebol. Hoje não houve disso, hoje perdemos porque merecemos perder. O que não podemos esquecer, sob pena de sermos ingratos e nos tornarmos comuns, é que a equipa que nos deixou tristes hoje foi a mesma equipa que nos deixou eufóricos há uma semana, e nas semanas anteriores - vínhamos de uma excelente série de bons resultados. Há alterações na equipa, mas é, essencialmente, a mesma equipa. Há erros a apontar, sem dúvida! E não são irrisórios. Nós, enquanto adeptos, devemos e temos de o fazer porque só depois de os identificar, analisar e corrigir podemos crescer. No entanto o que realmente importa agora é ser resilientes. O que importa agora é voltar ao estádio com o orgulho de sempre, com a unicidade de sempre e sermos o que sempre somos: o décimo segundo jogador, o único que é insubstituível. Podemos ficar em casa, no ambiente quente e confortável do sofá. Afinal é isso que faz a maioria das pessoas em Portugal. Mas não ficamos, nunca! Não somos desses.

O futebol nunca é só futebol e, por isso mesmo, permitam-me desviar do último jogo do nosso amado Vitória. O futebol é, como li ontem, uma metáfora para a vida. Ultrapassa os noventa minutos, trespassa as quatro linhas do tapete verde, vai para além das decisões dos árbitros e das decisões tomadas em gabinetes por quem manda e pode. Consegue encher-nos o coração de alegria com a mesma intensidade com que o despedaça. Todos gostamos de ver a nossa equipa marcar golos, somar pontos e subir na tabela, mas acredito que todos percebemos que o futebol não é só isso. Talvez nos apercebamos melhor disso quando nos deparamos com uma tragédia. Ontem foi um dia sombrio e triste para o futebol e nenhum resultado positivo, nenhuma goleada, nenhuma taça seria capaz de desapertar o nó que apertava com força o nosso coração. Recebemos, ao início do dia de ontem, a notícia de que um avião que transportava jogadores, equipa técnica e administração do Chapecoense, bem como vários jornalistas e a tripulação se tinha despenhado e rapidamente se percebeu que eram poucos os sobreviventes. De uma equipa de vinte e dois jogadores sobreviveram três. Entre os que não resistiram ao acidente estava Caio Júnior, antigo jogador do Vitória e actual treinador do Chapecoense, que muitos adeptos ainda recordam com carinho. "O Caio Júnior? Lembro-me, lembro-me. Era muito bom jogador", disse-me o meu tio assim que eu lhe perguntei se se lembrava de o ver jogar. Umas horas depois chegou outra má notícia: Nuno Greno, da equipa técnica do nosso Vitória B tinha sucumbido ao cancro aos 23 anos. O futebol está de luto. 

Em tempos difíceis as cores não interessam, as fronteiras não existem e somos todos iguais no sofrimento. Conseguimos ser mais humanos, parece-me. Que estas tragédias e estas perdas não sejam em vão e nos ensinem a ser mais humanos em todos os aspectos das nossas vidas e também no futebol - para além das rivalidades e das diferenças. O futebol tem um poder único de nos unir num amor comum. Para nós é o Vitória, para outros o nome será diferente. Mas em essência, e para aqueles que realmente são apaixonados por um símbolo, somos todos unidos pelo futebol e pelo desporto em geral. Que possamos aprender a encher as bancadas dos estádios com os nossos cânticos e o nosso amor. Que o façamos, sempre que conseguirmos. Hoje as bancadas estão em silêncio, a dor é diferente de qualquer outra. O que torna então o futebol, que parece tão insignificante depois de uma tragédia destas dimensões, tão especial? A solidariedade, o humanismo, a compaixão, a empatia. Hoje somos todos Champecoense, hoje ainda queremos confortar aqueles que longe sofrem porque perderam os ídolos, os amigos, os colegas, a família. Não os conhecemos, mas queremos confortá-los. Por causa do futebol. E é isto que, mais do que outra coisa, faz o futebol ser tão apaixonante. Todos, sem excepção, serão para sempre lembrados.

Por fim, e apesar de saber que as minhas palavras não são nada, as minhas sinceras condolências às famílias e amigos de Nuno Greno e de todos os que iam naquele avião. 



terça-feira, 15 de novembro de 2016

Isto (também) é o Vitória

Foto: Vitória SC
Tenho sempre a sensação de que os fins-de-semana sem futebol (as selecções jogaram, eu sei, mas não é a mesma coisa) são aborrecidos, maçadores e chatinhos. Acredito que é um estado de espírito comum a todos os apaixonados por futebol e independente das cores de cada um. Afecta-nos a todos. Apesar disto, a interrupção dos campeonatos de futebol profissional não implica não haver Vitória. Este fim-de-semana foram muitos os conquistadores a entrar em campo para lutar pelo nosso símbolo e o rescaldo é muito positivo. Mais uma vez os nossos atletas mostraram estar à altura da camisola do Rei e mostraram merecer o apoio de todos os vitorianos e, sem as equipas A e B de futebol, foi um fim-de-semana "à Vitória". Há uns tempos disseram-me que o Vitória devia era "investir tudo no futebol e deixar as modalidades" e eu, naturalmente, discordei. O Vitória sempre foi, e é, muito mais do que uma equipa de futebol. É uma instituição ecléctica (das mais eclécticas de Portugal) e contrariar isso seria contrariar a nossa própria identidade. Tenho um tremendo orgulho em todos os nossos atletas e tenho a noção de que, apesar da pouca atenção que recebem, contribuem muito para o crescimento do Vitória. Tento acompanhar as modalidades sempre que posso e nunca me senti desiludida. Há resultados negativos, como é óbvio, mas nunca vi um atleta desrespeitar o nosso símbolo ou sair do pavilhão de cabeça baixa. Lutam até ao fim, são resilientes e apreciam o símbolo que carregam. Isso é, para mim, uma definição do que é ser vitoriano.

As equipas masculinas séniores de basquetebol e voleibol jogaram em casa e deram boas indicações ao conquistar os três jogos disputados. A equipa masculina de basquetebol venceu por 66 - 62 a UD Oliveirense e conquistou, assim, a primeira vitória caseira do campeonato. Pedro Pinto esteve em destaque: 18 pontos e 5 assistências. À 6ª jornada, o Vitória encontra-se no 5º lugar, com 9 pontos e em igualdade pontual com AD Ovarense e FC Porto. A próxima jornada, novamente em casa, é precisamente frente ao FC Porto e é "obrigatório" ganhar. O jogo disputa-se no próximo Sábado, dia 18, pelas 18 horas no pavilhão do Vitória. Depois de três derrotas consecutivas, a equipa feminina venceu pela primeira vez na 1ª divisão na casa do JuveMaia por 42 - 51. As nossas conquistadoras, que ascenderam à 1ª Divisão, ocupam a 5ª posição do campeonato com 5 pontos, em igualdade pontual com mais duas equipas. O campeonato não começou da melhor forma mas o mais importante nunca é como começa, mas sim como acaba. Na próxima jornada as nossas meninas recebem o Guifões S.C., pelas 21 horas de Sábado. O voleibol masculino do Vitória disputou uma jornada dupla que foi sinal de conquistas a duplicar. Depois de duas derrotas consecutivas e nenhum ponto conquistado a equipa mostrou-se capaz e resiliente e entrou em competição da melhor forma. No Sábado venceram o VC Viana por 3-1 e no Domingo venceram por 3-0 o Sporting Clube de Caldas. Bruno Cunha esteve em claro destaque ao concretizar 19 pontos em cada jogo. A equipa encontra-se no 5º lugar, com seis pontos. A equipa feminina, infelizmente, saiu derrotada fora de portas pelo São Mamede de Infesta por 3-1. (Infelizmente não consigo encontrar a classificação nem o calendário da equipa feminina de voleibol do Vitória - nem no site oficial do clube nem em nenhum lado.) Depois do empate caseiro a 7-7 frente ao CNAC, a equipa sénior de pólo aquático foi a Felgueiras conquistar a primeira vitória no campeonato frente ao FOCA, no passado sábado, por 8-9. Apesar da entrada em falso no campeonato, com uma derrota pesada em Alvalade, na antecipação da 4ª jornada (disputada ainda antes do arranque oficial da temporada) a equipa parece ter encontrado o rumo e está bem posicionada na tabela classificativa: depois de três jogos disputados encontra-se no 4º lugar com o total de 4 pontos e apenas a 2 pontos dos primeiros três classificados. A próxima jornada, frente ao CDUP, tem lugar no próximo sábado pelas 19:30 na cidade berço!

Sem futebol profissional, foram os nossos pupilos a conquistar! Os juvenis, liderados por Luís Filipe, garantiram, com a Vitória por 2-0 sobre o Varzim, a passagem à segunda fase do campeonato nacional da sua categoria. A vitória podia ter sido ainda mais expressiva, não fosse um penalti falhado ao cair do pano. Os golos foram apontados por Alberto e por Horvath, o central húngaro que se estreou a marcar. O Vitória foi o terceiro apurado, com 23 pontos e com a melhor defesa do campeonato - sofreram apenas sete golos nos onze jogos disputados -, com o ataque a ser dos mais eficazes, com 23 golos marcados. Os nossos iniciados alcançaram, também eles, uma vitória por 2-0 frente ao Palmeiras e encerraram, assim, uma 1ª Fase brilhante. Em 11 jogos empataram uma vez e venceram... dez! Conquistaram, com mestria, o primeiro lugar com trinta e um pontos. São números que prometem não só a continuação de uma boa época mas que também nos dão garantias quanto ao futuro. Foi um bom fim-de-semana para a formação vimaranense e, neste ponto, não posso fazer referência apenas ao (nosso) Vitória. Os iniciados do Moreirense foram históricos: carimbaram, pela primeira vez, a passagem à 2ª Fase. Num campeonato em que o Vitória se apura em primeiro lugar e o Moreirense em quarto, é Guimarães que fica a ganhar. Parabéns a ambos os clubes, ao do meu coração e ao "vizinho"! É um orgulho ver que Guimarães consegue ter dois clubes na 1ª Divisão do campeonato nacional e que consegue fazer tanto no futebol de formação, contrariando o centralismo bacoco que se vive em Portugal. Que sejamos capazes de fazer ainda mais no futuro. Somos Guimarães!

P.S.: O nosso atleta Manuel Mendes, medalhado paralímpico e uma força da natureza, foi condecorado por Marcelo Rebelo de Sousa na última quarta-feira e não se esqueceu das suas raízes. Nas palavras do próprio "esta é também uma conquista dos vimaranenses e vitorianos" e ainda prometeu fazer "tudo para tentar estar em Tóquio". Por tudo o que já deu ao Vitória, e por levar sempre o nosso nome consigo honrando-o tão bem, nunca será demais agradecer. Obrigada conquistador!

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

O carácter do Vitória (e um pedido de ajuda importante!)

Foto: Vitória SC
O primeiro jogo do Vitória depois de completar 94 anos de uma belíssima história tinha de ser um triunfo. Assim foi e, da casa do nosso vizinho Moreirense, trouxemos três importantes pontos e voltamos aos resultados positivos depois de dois jogos menos conseguidos. Apesar da vitória, a exibição da equipa não convenceu por completo e é visível que há jogadores, com provas dadas de qualidade, que não estão na melhor forma e que acabam por debilitar a equipa. Repito o que disse na semana passada: ainda não é preocupante. A caminho da sétima jornada estamos em 5º lugar e em igualdade pontual com o Rio Ave. Não é, naturalmente, a melhor classificação mas estamos a tempo de fazer bem melhor até ao final da época se soubermos ser consistentes na qualidade e nos resultados. 

Segue-se o Sporting, segundo classificado da Liga. O histórico elege-os como favoritos mas dentro do relvado nada disso importa. Os últimos dois jogos, dentro das nossas muralhas, não nos deixam ficar mal: no final de 2014 o Vitória dominou um leão mansinho e arrancou a vitória por 3-0, num dos melhores jogos da época; na temporada passada o marcador não sofreu alterações numa segunda-feira à noite com os vimaranenses em força máxima num apoio incrível aos nossos branquinhos. No futebol não há receitas nem fórmulas mágicas que garantam a vitória. Futebol não é ciência, mas arrisco dizer que há uma fórmula que pode ser infalível para alcançar a vitória no próximo sábado. É, certamente, a combinação do melhor destes últimos dois jogos. A qualidade irrepreensível da equipa, que tem de entrar em campo e esquecer-se do statuos quo, e o ambiente apaixonado e único que só os vitorianos sabem oferecer. O Inferno Branco em que cresci, o mesmo que deixa os adversários a tremer mesmo antes de pisar o nosso terreno.

Foi esse o ambiente que se viveu em Moreira de Cónegos no último domingo. Não era a nossa casa, mas nós fizemos com que parecesse. Com as nossas vozes edificamos as muralhas e com os nossos cachecóis e bandeiras orgulhosamente levantados fizemos daquele estádio o nosso. Éramos tantos, mas parecíamos ainda mais.O golo nasceu da insistência do Marega (o melhor marcador da Liga!) que tentou uma vez, depois outra e só depois viu o seu objectivo concretizado. Foi um golo que fez o estádio, que não era nosso mas pareceu ser, explodir de tanta alegria. Não há uma medida consensual de como medir a qualidade de uma massa adepta. A verdade é que pode haver tantas definições como há pessoas. Eu tenho a minha. Na minha opinião a qualidade dos adeptos mede-se pela sua resiliência e persistência em apoiar o clube. Por quantas vezes estão presentes depois de uma derrota, por quantas vezes estão presentes depois de quase bater no fundo, por quantas vezes estão presentes depois de todos os outros terem desistido. E nós já sabemos, talvez melhor do que o que gostaríamos, o que é estar presentes depois de derrotas, depois de quase bater no fundo, depois de tudo estar mal e sabemos muito bem o que é estar lá quando todos os outros desistiam com facilidade. Nós não sabemos desistir. E estamos sempre presentes. Somos nós o carácter do Vitória!

Hoje permitam-me terminar de forma pouco habitual mas tremendamente importante e e certamente mais importante do que tudo o que escrevi nos parágrafos acima. Hoje quero apelar à vossa solidariedade. O Rui Salgado tem 23 anos, é vimaranense, vitoriano e já jogou com o nosso símbolo ao peito mas, acima de tudo isso, é uma pessoa que tem uma vida pela frente. Foi-lhe diagnosticado um linfoma de Hodgkins. É uma batalha difícil mas nada é ao acaso: tenho a certeza de que o Rui é um conquistador e vai superar esta prova. Estou certa de que todos sabem que quando estamos no estádio as nossas vozes juntas conseguem ser muito mais altas do que a voz de apenas um de nós. Da mesma forma, se todos ajudarmos não é preciso muito. Se todos nos juntarmos à batalha, eu acredito que esta será muito menos dolorosa e será vencida. Não é preciso muito se ajudarmos todos. Portanto permitam-me, pela primeira vez, fazer um apelo. Vou deixar aqui a fotografia com o número da conta para onde podem contribuir. Podem ler mais aqui.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

(In)Eficácia

Foto: Vitória SC
Defrontar o Marítimo nunca é tarefa fácil, seja no D. Afonso Henriques ou na Madeira. O longo histórico de confrontos de setenta jogos oficiais é equilibrado, com o Vitória a liderar com uma vantagem tímida de apenas mais quatro vitórias. Vantagem essa que tem diminuído nos últimos anos. O último empate, a um golo, foi na primeira volta da época 2012/2013, na cidade onde nasceu Portugal. Desde esse jogo e até ao passado sábado tínhamos disputado, entre o continente e a ilha, um total de sete jogos - todos eles para o campeonato - e os números não nos eram nada favoráveis: o Marítimo somava 5 vitórias e 14 golos. Para além disso, e no topo destes números claramente negativos, o Vitória já não saía com os três pontos dos Barreiros há seis anos; a última vez foi na já longínqua época de 2009/2010 com o único golo da partida a ser apontado por Sereno e com um plantel que contava com Nilson, Desmarets, Nuno Assis, Flávio Meireles, entre outros jogadores que muitos vitorianos ainda recordam com saudade e carinho (outros nem tanto, mas desses não reza a história).

Conseguir a primeira vitória da época nos Barreiros era de extrema importância. Não só pela três pontos em si, que são sempre fundamentais e devem sempre ser procurados, mas também porque deixamos escapar os primeiros três pontos em casa na primeira jornada para os rivais e uma vitória podia aliviar alguma pressão que pudesse existir, bem como fomentar confiança na equipa e também na massa associativa, pela dificuldade que o Vitória tem em sair vitorioso daquele estádio e, enfim, porque ninguém esqueceu ainda os resultados pesados das últimas duas temporadas. Apesar de eu não ter ficado, de todo, desagradada com a primeira exibição oficial da temporada não fiquei nada convencida e sabia que a jogar (e a falhar) daquela forma não podíamos ambicionar por resultados extraordinários. A alteração no onze inicial foi apenas uma e foi natural: Ricardo Valente, apesar de se esforçar não conseguiu ter um desempenho positivo no primeiro jogo e não foi opção para o segundo; Rafinha, que substituiu com competência Valente frente ao Sporting de Braga, foi o escolhido para completar o onze inicial. Não foi preciso esperar nem meia hora para perceber que aqueles três pontos eram nossos. Rafinha, com assistência de Marega, inaugurou o marcador ao minuto dezanove e perto da meia hora de jogo foi a vez de Marega, assistido por Tiquinho Soares, fazer o gosto ao pé. Eu, que não gosto de anunciar a vitória antes do apito final, não duvidei de que o Vitória ia segurar o resultado: os maritimistas estavam sem grandes ideias e algo à toa mas, mais do que isso, o Vitória estava firme, soube impor-se desde o início e estava determinado a dominar e a fazer finca-pé se fosse necessário. Por isso não só acreditei que o resultado se manteria, como acreditei que essa vantagem ia ser dilatada e bem mais expressiva. Não foi, o marcador estacou ao minuto trinta mas as oportunidades sucederam-se ao longo do resto da partida com Gottardi a evitar males maiores para os madeirenses. O desempenho dos nossos branquinhos foi uma mescla de eficácia com ineficácia. De facto houve eficácia e ganhamos com um resultado confortável, no entanto se não fosse pela ineficácia podíamos ter ganho o jogo por uma vantagem absurda e vingar assim os últimos resultados.

Tal como um jogo menos conseguido e um mau resultado não dita uma época, um bom jogo e um resultado seguro também não o faz. Uma boa época é feita de um trabalho contínuo. No entanto não podia deixar de referir as boas indicações que a equipa deixou no sábado passado. Ao contrário do que vimos na primeira jornada, pareceu-me ser um Vitória mais confiável e mais capaz de caminhar no sentido dos objectivos pelos quais todos nós almejamos há já algumas épocas. Com alguns ajustes (afinal o mercado ainda está a aberto) acredito que este possa ser o momento de um Vitória mais competitivo e um Vitória que quer voltar às raízes, de identidade e personalidade difícil e bem vincada, decidido a conquistar aquilo pelo que deve lutar sempre. Não acredito que seja ainda o momento que realmente queremos, o momento de um Vitória monstruoso, o momento de abanar a liga com estrondo, de desafiar as probabilidades. Espero que seja finalmente o primeiro passo dado nesse sentido. Espero que finalmente as desculpas sejam arrumadas e a aposta na vertente desportiva seja planeada e feita de forma sustentável. Há quem diga que de vez em quando tem de se dar um passo para trás para depois se dar dois passos para a frente. Infelizmente o Vitória já deu mais do que um passo para trás e quanto a isso já nada há a fazer. O que há a fazer é alterar o panorama e para o fazer é preciso definir estrategicamente os objectivos e mais importante do que isso é preciso dar passos seguros e conscientes nesse sentido. O caminho ainda é muito longo e não vai ficar mais fácil.

O próximo adversário é o Paços de Ferreira e em trinta e oito jogos de história, há onze vitórias para cada lado mas em nossa casa o cenário é mais preocupante: já não os vencemos desde a época 2011/2012 (não sei se já repararam no padrão: tínhamos uma margem confortável de vitórias sobre um número considerável de equipas da primeira liga, mas essa tendência tem sido contrariada nos últimos anos em que o Vitória tem estado desportivamente mais acomodado e menos efusivo - salvo uma ou outra excepção, como a incrível vitória na Taça de Portugal mas em termos de campeonato não temos crescido) e somam seis vitórias no nosso castelo, enquanto que nós conseguimos manter os três pontos em casa apenas por quatro vezes. Mas os números não jogam e a história fica fora das quatro linhas. Se conseguimos contrariar as estatísticas na Madeira não podemos duvidar de que o podemos fazer na nossa casa. Dentro de campo são onze contra onze mas nós temos ao peito o primeiro Rei de Portugal e subentendida em cada camisola tem de estar a obrigação de o honrar, de honrar aquele símbolo, a nossa história e cada um de nós sentados na bancada e todos os que estão espalhados pelo mundo inteiro mas que nunca se esquecem de onde vão e de um amor tão grande. Tem de ser assim na próxima sexta e tem de ser assim sempre. É esse o meu Vitória e é esse Vitória que tem tudo, absolutamente tudo, para crescer.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Ciência

Foto: Vitória SC
Já disse, e repito, que a pré-época é um período de trabalho, de incertezas e de "rodar" a equipa, se me permitem a expressão. Todos os jogos são deixados para trás quando começa o campeonato. No domingo o Vitória teve a oportunidade de se mostrar pela primeira vez aos seus associados, em casa, e fiquei com a sensação de que foi mais uma experiência de Pedro Martins do que propriamente a resolução final para o início do campeonato. O resultado da experiência foi positiva, pese embora o resultado no marcador ser desagradável. Vou explicar porquê.

Em suma e se me pedirem uma resposta rápida, chega-me uma palavra: ciência. Sou uma apologista da ciência e da forma como torna as pessoas cépticas e as estimula a questionar tudo. Considero essa mentalidade fundamental não só na procura de respostas às grandes perguntas da humanidade como acho que é muito útil quando aplicada no nosso quotidiano e, mesmo que não o saibamos de antemão, a maioria de nós utiliza o método científico para resolver problemas tão simples como saber onde estão as chaves de casa. O método científico tem cinco fases: observar, fazer uma pergunta, formular uma hipótese, conduzir uma experiência e apresentar uma conclusão. A pré-época deve ser a aplicação destes cinco passos e acredito que é isso que Pedro Martins ainda está a fazer. O resultado da aplicação dos passos enumerados anteriormente é sempre positiva, mesmo que a conclusão não seja a desejada, porque nos permite perceber se a conclusão deve ser rejeitada ou aceite. Se for rejeitada, voltamos ao primeiro passo e repetimos todo o processo até alcançarmos a conclusão ideal e que possa ser aceite.

Dito isto, a conclusão da experiência frente ao FC Porto tem de ser rejeitada. Em primeiro lugar, pelo resultado. No entanto, e apesar de ser da opinião de que o Vitória deve jogar para ganhar mesmo que o jogo seja a feijões, o resultado é o que menos me preocupa enquanto ele valer pouco ou nada - e, apesar de achar que o Troféu Cidade de Guimarães devia ficar na cidade que lhe dá o nome, há troféus bem mais desejados e importantes para ganhar na próxima época. O mais importante é o desempenho da equipa e o que vi foi uma equipa com algumas limitações. Nem tudo foi mau e há notas positivas. Testemunhamos alguns minutos de relativa qualidade, infelizmente foram apenas momentos fugazes e pontuais que não chegaram para me convencer. Para competir no campeonato, ou em qualquer outra competição, com o objectivo de alcançar resultados dignos de um símbolo tão gigante como o nosso frente a clubes que se têm munido de armas de qualidade e que não têm medo de entrar em casa de ninguém com garra para ganhar é fundamental que a qualidade seja consistente - e isso tem sido um problema nas equipas vitorianas com épocas em que, por norma, na primeira volta se somam pontos consideráveis mas a que se soma uma segunda volta penosa.

A posição que, a manter-se com os activos que tem, não representa nenhuma preocupação é a de Guarda-Redes. Douglas deu provas de que está preparado para discutir a titularidade com o miúdo da casa Miguel Silva e carimbou uma prestação muito positiva ao negar uma mão cheia de oportunidades claras aos jogadores portistas. Acredito que será difícil para Pedro Martins tomar um partido, uma vez que ambos têm estado bem nos jogos de pré-época e arrisco-me a dizer que será sempre injusto ter que sentar um deles no banco de suplentes porque são dois jogadores de grande categoria. Depois de dar o destaque a quem mais o mereceu, tenho de dizer que não acredito que seja este o onze que vai pisar o relvado em menos de duas semanas frente ao SC Braga. O Moreno é um jogador fundamental para o Vitória, não questiono isso, e é um dos nossos eternos capitães - por tudo o que representa, por ser um estandarte do nosso símbolo, por ser um filho tão querido desta casa, pela mística e pela boa vontade com que se disponibiliza a transmitir a nossa cultura aos que não a conhecem e pelo ser humano humilde e incrível que é - mas não me parece que seja opção viável para a defesa quando a sua função é impor-se perante jogadores rápidos e ágeis. Não me parece exequível jogar com Francis adaptado uma vez que não se mostrou capaz de cumprir com sucesso as suas tarefas mas aguardo por um melhor desempenho na sua posição até porque foi protagonista de uma boa oportunidade de golo, no entanto julgo que esse problema poderá ser solucionado com Bruno Gaspar recuperado e em forma.

Um dos problemas desta equipa, pelo menos da que ontem se mostrou perante os vitorianos, é que nos faz sentir a falta de alguns jogadores da temporada passada (isto apesar de ter sido uma época desastrosa a não repetir!). Ontem ainda se ouvia muito um nome em particular: Otávio. Não porque estava a fazer um bom jogo pela equipa adversária mas sim pela falta que faz um jogador com as suas características ao nosso plantel. O que o Vitória precisa é, na verdade, um Otávio do derby minhoto da segunda volta. Com muita qualidade, muita técnica e criativo. Alguém que possa tirar golos da cartola, para a equipa, quando é necessário. Precisamos de um jogador que pense e jogue outside the box porque, do que vi, não encontrei ninguém que tenha essa capacidade e que consiga ligar a defesa ao ataque. Soares deu boas indicações e não me desagradou. Ainda é muito cedo para fazer um prognóstico mas acredito que será uma mais-valia para o plantel. De Tozé e Ricardo Valente espero muito, mas muito mais do que aquilo que mostraram ontem. Quanto aos três miúdos titulares, Areias, João Pedro e Raphinha, provenientes da equipa B com bons números e boas indicações, acredito que têm margem e bases para progredir e contribuir muito para a equipa. Quanto aos restantes jogadores vitorianos que envergaram a camisola do Rei ontem, penso que não há nenhuma observação - positiva ou negativa - individual de grande destaque.

O método científico que acredito que Pedro Martins está a utilizar trará resultados positivos porque já deu para deduzir muita coisa destes 90 minutos, deu para perceber que aquela equipa não resulta e que ainda há faltas a colmatar. No entanto o relógio está a contar e o tempo não pára para esperar por nós. Apesar de ter destacado essencialmente os pontos positivos deste método, ele também tem limitações. É um método que funciona por eliminação. Isto significa que só podemos chegar à conclusão certa se considerarmos a hipótese certa. Ou seja, Pedro Martins tem de ter à disposição os elementos certos para conseguir construir um plantel conquistador. Outra das limitações é que facilmente se pode cair no erro de assumir que o ambiente é estático. No futebol o ambiente nunca é estático. Cada adversário é diferente, tem peças individuais com características distintas e a organização colectiva nunca é igual. O treinador tem de estar preparado para fazer as alterações de acordo com o adversário e a equipa tem de estar preparada para se adaptar, quando necessário. Afinal, o animal que sobrevive na natureza nem sempre é o mais forte mas sim aquele com mais capacidades de se adaptar ao meio onde se insere.

No geral são necessárias algumas contratações de qualidade, algumas mudanças, uma equipa mais consistente e mais capaz e, acima de tudo, precisa de ser muito trabalhada pois há jogadores em sub-rendimento. Começo a temer que estejamos, uma vez mais, à espera das dispensas dos outros. Espero estar enganada. Não consigo apoiar ou concordar com tal política. Vejo poucos benefícios a curto prazo e nenhuns a médio/longo prazo. Pedro Martins admitiu, na conferência de imprensa após o jogo, que precisa de reforços. A menos de duas semanas do início do campeonato esses reforços que nos fazem falta já deviam estar a trabalhar com a equipa para se entrosarem e para assimilarem as ideias do treinador e a cultura do clube. Se chegarem tarde, corremos o risco de no início da nossa época (e nós temos um início de época intenso) alguns jogadores ainda estarem em pré-época e isso pode prejudicar o rendimento colectivo da equipa. Os resultados não se adivinham positivos e derrotas no início do campeonato podem causar danos: perdemos pontos, prejudica as receitas, desmoraliza a equipa e põe mais pressão nos ombros de Pedro Martins e, consequentemente, em todos os jogadores. Quero acreditar que nada disto vai acontecer, que é apenas um cenário negativo, e que vamos estar preparados no início do campeonato para fazer frente aos nossos adversários.

O apito inicial está a poucos dias de distância e o tempo para experiências começa a esgotar-se. Precisamos, urgentemente, de uma conclusão digna de ser aceite. Acabaram-se as desculpas! Agora tem de ser a sério. Não bastam as hashtags #esteeomomento. É preciso que se façam todos os esforços para que seja, de facto, o momento. Não nos podemos dar ao "luxo" de outra época péssima ou de objectivos falhados. Os prejuízos e os danos podem ser irreparáveis. Entrei com saudades do meu Vitória e saí, de certa forma, com saudades do meu Vitória. O que quero é que não me façam sentir saudades por mais uma época. Preciso do meu Vitória conquistador de volta! Começamos todos a época com zero pontos, antes da época começar não há candidatos ao título, não há favoritos. A bola vai ser redonda e, se não houver jogos de bastidores, o campo não está inclinado e estão onze de cada lado. A pré-época deixa de ter interesse e a derrota de domingo pode transformar-se na vitória da quarta jornada. Não por milagre ou magia, mas com trabalho. Audaces fortuna juvat. A sorte protege os audazes. Os que não esperam, os que firmemente e resolutamente arriscam e procuram a vitória. Sem desculpas!

P.S.: Este post scriptum tem sido adiado há muito mas já não pode voltar a ser. As condições em que os sócios vitorianos são recebidos na própria casa deixa muito a desejar na maioria das vezes. Há muita gente que faz quilómetros para ver os jogos no estádio e há cada vez mais gente a fazer uma ginástica financeira incrível para continuar a estar presente, a apoiar a equipa em casa, para manter as quotas em dia e a cadeira reservada para toda a família e adquirir bilhetes quando é preciso. Nunca ouvi ninguém queixar-se, bem pelo contrário. Os vitorianos orgulham-se de mostrar o cartão de sócio e dizer que mantêm tudo pago para entrar no estádio - assim como eu, faço-o com o maior orgulho e com muito gosto. Durante toda a época somos obrigados a ocupar cadeiras, que pagamos (!), sempre sujas e que claramente não são limpas com frequência; não é uma cadeira suja pontualmente, o que é pontual são as cadeiras limpas. Num jogo da época passada e num dia de imenso calor as garrafas de água acabaram pouco depois do início do jogo (e não voltaram a ser repostas, o que é vergonhoso) e todas as outras bebidas foram gradualmente desaparecendo até não restar absolutamente nenhuma bebida para refrescar os adeptos na nascente - inferior e superior. O estádio está em péssimas condições de manutenção com zonas danificadas e a pintura degradada - embora isso seja mais facilmente ultrapassado pelos sócios pagantes uma vez que é mais uma questão visual que não afecta a experiência de forma alarmante (embora seja importante preservar o nosso património, e o nosso estádio é tão bonito!). No entanto, no passado domingo as condições estavam ainda piores e começa a ser revoltante esta falta de zelo e desinteresse pela manutenção e condições do estádio, a que muitos sócios estão sujeitos. A minha cadeira é na nascente inferior e por isso só posso falar pelas condições daquela bancada em particular. O túnel de acesso à bancada tinha cacos no chão que facilmente podiam ser utilizados, por um adepto de má índole (há-os em todo o lado), para provocar danos graves na vida de outras pessoas. As casas de banho estavam imundas - uma delas tinha inscrições ofensivas contra os vitorianos assinadas por uma claque rival e os lavatórios estavam repletos de terra e lixo que impossibilitavam qualquer adepta de lavar as mãos. Já li comentários que davam conta de casas de banho encerradas e que até na televisão se percebia que os jogadores tinham de tirar os coletes para limpar os bancos de suplentes, que estavam cheios de pó. É inadmissível que um clube da dimensão do Vitória, com a massa associativa incansável que tem, tenha o estádio em semelhantes condições. Fico triste por ter de fazer um comentário destes sobre o meu clube e sobre o estado daquela que considero ser a minha segunda casa, no entanto julgo que é necessário. Os sócios merecem ser tratados com mais cuidado, respeito e carinho. Afinal somos parte integrante e indelével do Vitória e somos o importante 12º jogador. O Vitória é, para mim, O grande de Portugal e sempre foi, ao longo da sua história, um dos grandes emblemas portugueses. Se queremos continuar a sê-lo, é necessário que tenhamos uma estrutura que aja de acordo. As condições actuais do estádio são inadmissíveis! Espero que tenham pelo menos o bom senso e humildade de emendar a situação.