Trumbo
Fiquei extremamente feliz quando vi o Mr. White, perdão, o Bryan Cranston, nomeado para o Oscar de melhor actor, ainda antes de ter visto Trumbo, porque sabia que é um actor de enorme qualidade e capaz de fazer magia no ecrã.
Desta vez fá-lo na pele de Dalton Trumbo. Trumbo foi um dos homens que marcou os dias negros de Hollywood e cuja história é trazida agora à ribalta.
É um filme interessante mas que tem dois pontos, em particular, que merecem ser referenciados: o primeiro é, naturalmente, Bryan Cranston; o segundo é o tema importante que, se não fosse por este filme, eu nem sequer tinha conhecimento. Trumbo foi proibido de trabalhar (continuou a trabalhar, e a ganhar prémios com o seu trabalho, mas de forma clandestina) e colocado numa "lista negra" porque simpatizava com os ideais comunistas. É ridículo que se proíba alguém de trabalhar com base nas suas ideologias, ou pelas suas ideologias serem contrárias à maioria.
A nomeação de Cranston a melhor actor parece-me justa e ainda que não seja um filme revolucionário ou inesquecível, vale a pena ver. Principalmente, para não voltar a repetir os erros do passado!
The Martian
Só descobri que The Martian era uma comédia quando ganhou o Globo de Ouro de Melhor Comédia. Quando vi a notícia fiquei baralhada. Spy, nomeado na mesma categoria, é uma comédia. The Martian às vezes dá para rir, o que não o torna numa comédia. Eu percebi a lógica, no entanto: o The Revenant, Room, Spotlight e etc. estavam nomeados na categoria de drama e contra esses filmes duvido que The Martian tivesse hipótese de ganhar. Como duvido que tenha alguma hipótese hoje.
É um filme que tem capacidade de entreter e de nos manter presos ao ecrã (apesar de sabermos de antemão que tudo vai ficar bem) e foi o filme de ficção científica que mais gostei de ver o ano passado. Matt Damon faz o que lhe compete, é engraçado quando precisa de ser e corresponde ao que o personagem pede e isso valeu-lhe a nomeação a melhor actor.
Mad Max: Fury Road
Se não fosse pelos nomeados ao Oscar de melhor filme do ano passado, Whiplash provavelmente passar-me-ia ao lado. O que era um crime porque é um óptimo filme! Se não fosse pelos nomeados ao Oscar de melhor filme deste ano, provavelmente Mad Max passar-me-ia ao lado, e eu acho que não perdia nada!
A minha primeira tentativa de ver este filme foi no Verão. Na primeira cena (ou segunda, ou a começar) aparece um homem no meio do deserto a comer um bicho (vivo!) como quem vai à cozinha comer uma Oreo. Revirei os olhos e não quis saber mais disto. Nem o giraço do Tom Hardy (que estava a comer o bicho) me convencia. Até ver que estava nomeado para... (rufar de tambores) DEZ oscares!!!!! Pensei com os meus botões que podia ter feito um julgamento demasiado rápido e podia ter sido injusta. Dei-lhe uma segunda oportunidade.
Devo dizer que eu sou suspeita. Não sou fã de filmes que se desviem demasiado da realidade. É o meu gosto pessoal e desde que me lembro que este género de filmes não me dá gozo nenhum. Sei que um dos objectivos do cinema é "tirar-nos" deste planeta e envolver-nos no planeta dentro do ecrã mas ainda assim prefiro coisas mais... naturais.
Voltando ao Mad Max. Dei-lhe uma segunda oportunidade. Fiz o esforço de ver até ao fim, são duas horas. Muito sinceramente o filme pareceu-me quase todo igual: conduzir a "máquina de guerra". Foi isso que retive do filme. Entendo a nomeação para o Oscar, por exemplo, de melhores efeitos visuais e melhor caracterização. Melhor filme? Pessoalmente, substituía-o com facilidade nos nomeados porque foi dos filmes mais aborrecidos que já vi.
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domingo, 28 de fevereiro de 2016
Sétima Arte | Trumbo & The Martian & Mad Max
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Sétima Arte | Brooklyn & Spotlight & Carol
Brooklyn
Ainda não há viagens no tempo, mas há filmes (e livros) que, quando são feitos em condições, servem o propósito. Brooklyn fá-lo e transporta-nos até aos anos 50, à vida de Eilis (Saoirse Ronan).
Eilis cresceu numa aldeia irlandesa mas vê-se forçada a partir para a América, na esperança de encontrar as oportunidades que não encontra na Irlanda. O único conhecido que tem na América é o padre que lhe arranjou emprego numa loja em Brooklyn, onde também reside. Em Brooklyn reside também o italiano Tony (Emory Cohen). Conhecem-se num baile irlandês. Tony não é irlandês, mas gosta de "raparigas irlandesas" e gostou de Eilis.
É fácil ficar sensibilizado com a história de Eilis, afinal quase todos (ou todos) conhecemos ou vivemos de perto a dor de ver pessoas próximas e que nos são queridas ir para longe em busca das oportunidades que cá não têm, ou conhecemos a dor de partir. Acho até que é difícil não sentir uma tremenda empatia por Eilis e aqueles grandes olhos azuis!
A maior qualidade do filme é ser despretensioso. É o little black dress dos nomeados ao melhor filme. O less is more. Simples, mas inteligente e eficaz na mensagem que passa e acho que foi por isso que gostei. Por isso e por causa de Saoirse Ronan (nomeada a melhor actriz), sem dúvida nenhuma!
Spotlight
Já conhecia o caso Spotlight antes do filme ter sido lançado, por isso fiquei expectante para ver o filme, e não desiludiu!
Depois de ver o filme consolidei ainda mais uma certeza que já tinha: uma comunicação social completamente independente é fulcral para que casos como os que são retratados em Spotlight sejam denunciados e resolvidos e para que não sejam sempre encobertos (como acredito que continuam a ser). Um filme essencial e que dá que pensar (e muito!) sobre os podres e os poderes da igreja, de que tantos têm conhecimento e sobre os quais ninguém, ou quase ninguém, está disposto a agir.
É um filme excelente e que merece o reconhecimento de ser nomeado a melhor filme pela qualidade, pelo argumento e pela direcção. Excelentes interpretações de todo o elenco valeram a Rachel McAdams a nomeação a melhor actriz secundária e a nomeação a Mark Ruffalo para melhor actor secundário.
Carol
Depois de pousar os nossos olhos em Carol Aird (Cate Blanchett) pela primeira vez, é impossível não ficar hipnotizado pela beleza intemporal e tão clássica que emana de uma mulher tão elegante que está apenas a procurar um presente de natal para a sua filha. Therese Belivet (Rooney Mara) fica tão hipnotizada quanto nós e só desvia o olhar quando uma cliente (Therese é funcionária da loja que vende brinquedos) lhe rouba a atenção.
Adaptado do livro homónimo de Patricia Highsmith, Todd Haynes não descura nada: sentimos que estamos em Nova Iorque, no início dos anos cinquenta e sentimos as dores destas duas mulheres que se apaixonam perdidamente. Carol sabe-o primeiro mas Therese não se apercebe de imediato.
Uma paixão como poucas vezes se tem visto no cinema, com os sentimentos à flor da pele e com duas excelentes actrizes: Cate Blanchett está deslumbrante e icónica e Rooney Mara, apesar de não conseguir ter o carisma de Blanchett, também nos dá uma excelente performance. Estão ambas nomeadas, para o óscar de melhor actriz e melhor actriz secundária, respectivamente.
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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016
Sétima Arte | The Danish Girl & Steve Jobs & 45 Years
The Danish Girl

Estava curiosa para ver The Danish Girl, porque o tema que aborda não é frequentemente abordado no grande ecrã. Lili Elbe, nascida Einar Wegener (Eddie Redmayne) foi das primeiras pessoas a fazer cirurgia para mudar de sexo. Einar era o marido de Gerda Wegener (Alicia Vikander). Ambos eram pintores, Einar era um pintor de sucesso, e viviam um casamento feliz. Pelo menos são-nos apresentados dessa forma logo no início do filme.
Um filme interessante e sobretudo um filme bonito e interessante aos olhos mas que podia ter muito mais conteúdo do que aquele que tem, e podia ser muito mais interessante do que o que foi. No final ficamos com a sensação de a forma o que vimos foi uma oportunidade perdida. Pessoalmente senti que não consegui entrar nas cabeças de Einar/Lili ou Gerda, não há a profundeza psicológica que as personagens pedem e gostava muito de ter visto a reacção da sociedade dos anos 20 a esta transformação que era uma novidade para a época.
As interpretações de Eddie Redmayne e Alicia Vikander são, sem nenhuma dúvida, o melhor que o filme nos oferece. Redmayne transforma-se outra vez, numa prestação fabulosa e que naturalmente lhe garantiu uma nomeação na categoria de Melhor Actor. No entanto, Alicia Vikander é, para mim, a mais fabulosa. Depois de a ver ser excelente em Ex Machina, tive o prazer de a rever aqui, com uma prestação magnífica e que lhe garantiu a nomeação na categoria de Melhor Actriz Secundária.
Steve Jobs
Lançamento do Macintosh, 1984. Lançamento do computador NExT em 1988. Lançamento do iMac em 1998. Três lançamentos de três produtos importantes na carreira - e na vida - de Steve Jobs.
Danny Boyle conta-nos a vida de Jobs através dos momentos que antecedem essas três apresentações dos três produtos, sem nunca nos mostrar a apresentação.
A verdade é que a maioria das coisas não aconteceram como Boyle nos diz que aconteceram. Os maiores dramas da vida de Jobs não eram todos 40 minutos antes de cada apresentação e a maioria das pessoas que trabalhou com Jobs afirma que a forma como ele é apresentado no filme não corresponde à realidade.
É um filme que entretém, mas não é o filme que representa a vida de Jobs, nem o próprio, da forma mais fidedigna ou fiel. Michael Fassbender, que está inegavelmente bom (e nomeado a Melhor Actor) nunca me parece Steve Jobs.
Se não tivesse como título um dos nomes dos génios maiores dos últimos anos nem se apresentasse como uma representação da sua vida seria um filme certamente muito melhor. O filme é bom, mas desilude porque se centra em apenas três momentos (que, ainda por cima, não são retratos fieis da realidade) da vida grandiosa de um génio!
Para além da nomeação de Fassbender ao Oscar de Melhor Actor, valeu ainda a nomeação da Kate Winslet, que nunca desilude, a Melhor Actriz Secundária.
45 Years
Há muitos filmes sobre amor, geralmente cheios de clichés e lugares comuns. Acho que é por isso que não sou fã de romances, a maioria parecem-me iguais e demasiado previsíveis. 45 Years é sobre amor e a sua resistência, e sobre o casamento.
Kate Mercer (Charlotte Rampling) e Geoff Mercer (Tom Courtenay) são um casal inglês que está a uma semana de festejar o seu 45º aniversário de casamento. Por problemas de saúde de Geoff, viram-se impossibilitados de festejar o 40º aniversário. No entanto, Geoff recebe uma carta das autoridades suíças que o informam que o corpo de Katya, o seu primeiro amor, tinha sido encontrado em perfeito estado de conservação. Naturalmente, Geoff fica abalado e leva a que Kate a questionar o seu casamento.
O filme constrói-se devagar e não há um clímax, um ponto alto. O registo é constante e não precisamos das palavras de Kate ou Geoff para percebermos o que se passa no seu íntimo. É um filme melancólico e todas as cenas são naturais. Não há artifícios, porque são dispensáveis. É um filme que nos faz sentir que nunca devemos tomar nada por garantido - se uma simples carta pode abalar um casamento construído durante 45 anos, tudo pode ser abalado e até mesmo destruído.
Um filme de uma hora e meia do mais realista que o cinema pode ser. Charlotte Rampling está nomeada, merecidamente, na categoria de Melhor Actriz porque oferece à sua personagem tudo o que ela precisa: credibilidade, naturalidade, drama e amor. Sem esquecer a também excelente interpretação de Tom Courtenay! Um filme que certamente não agradará a todos por haver pouca ou quase nenhuma acção mas que me agrada a mim. Agrada-me, principalmente, por ser tão distinto na sua normalidade.

Estava curiosa para ver The Danish Girl, porque o tema que aborda não é frequentemente abordado no grande ecrã. Lili Elbe, nascida Einar Wegener (Eddie Redmayne) foi das primeiras pessoas a fazer cirurgia para mudar de sexo. Einar era o marido de Gerda Wegener (Alicia Vikander). Ambos eram pintores, Einar era um pintor de sucesso, e viviam um casamento feliz. Pelo menos são-nos apresentados dessa forma logo no início do filme.
Um filme interessante e sobretudo um filme bonito e interessante aos olhos mas que podia ter muito mais conteúdo do que aquele que tem, e podia ser muito mais interessante do que o que foi. No final ficamos com a sensação de a forma o que vimos foi uma oportunidade perdida. Pessoalmente senti que não consegui entrar nas cabeças de Einar/Lili ou Gerda, não há a profundeza psicológica que as personagens pedem e gostava muito de ter visto a reacção da sociedade dos anos 20 a esta transformação que era uma novidade para a época.
As interpretações de Eddie Redmayne e Alicia Vikander são, sem nenhuma dúvida, o melhor que o filme nos oferece. Redmayne transforma-se outra vez, numa prestação fabulosa e que naturalmente lhe garantiu uma nomeação na categoria de Melhor Actor. No entanto, Alicia Vikander é, para mim, a mais fabulosa. Depois de a ver ser excelente em Ex Machina, tive o prazer de a rever aqui, com uma prestação magnífica e que lhe garantiu a nomeação na categoria de Melhor Actriz Secundária.
Steve Jobs
Lançamento do Macintosh, 1984. Lançamento do computador NExT em 1988. Lançamento do iMac em 1998. Três lançamentos de três produtos importantes na carreira - e na vida - de Steve Jobs.
Danny Boyle conta-nos a vida de Jobs através dos momentos que antecedem essas três apresentações dos três produtos, sem nunca nos mostrar a apresentação.
A verdade é que a maioria das coisas não aconteceram como Boyle nos diz que aconteceram. Os maiores dramas da vida de Jobs não eram todos 40 minutos antes de cada apresentação e a maioria das pessoas que trabalhou com Jobs afirma que a forma como ele é apresentado no filme não corresponde à realidade.
É um filme que entretém, mas não é o filme que representa a vida de Jobs, nem o próprio, da forma mais fidedigna ou fiel. Michael Fassbender, que está inegavelmente bom (e nomeado a Melhor Actor) nunca me parece Steve Jobs.
Se não tivesse como título um dos nomes dos génios maiores dos últimos anos nem se apresentasse como uma representação da sua vida seria um filme certamente muito melhor. O filme é bom, mas desilude porque se centra em apenas três momentos (que, ainda por cima, não são retratos fieis da realidade) da vida grandiosa de um génio!
Para além da nomeação de Fassbender ao Oscar de Melhor Actor, valeu ainda a nomeação da Kate Winslet, que nunca desilude, a Melhor Actriz Secundária.
45 Years
Há muitos filmes sobre amor, geralmente cheios de clichés e lugares comuns. Acho que é por isso que não sou fã de romances, a maioria parecem-me iguais e demasiado previsíveis. 45 Years é sobre amor e a sua resistência, e sobre o casamento.
Kate Mercer (Charlotte Rampling) e Geoff Mercer (Tom Courtenay) são um casal inglês que está a uma semana de festejar o seu 45º aniversário de casamento. Por problemas de saúde de Geoff, viram-se impossibilitados de festejar o 40º aniversário. No entanto, Geoff recebe uma carta das autoridades suíças que o informam que o corpo de Katya, o seu primeiro amor, tinha sido encontrado em perfeito estado de conservação. Naturalmente, Geoff fica abalado e leva a que Kate a questionar o seu casamento.
O filme constrói-se devagar e não há um clímax, um ponto alto. O registo é constante e não precisamos das palavras de Kate ou Geoff para percebermos o que se passa no seu íntimo. É um filme melancólico e todas as cenas são naturais. Não há artifícios, porque são dispensáveis. É um filme que nos faz sentir que nunca devemos tomar nada por garantido - se uma simples carta pode abalar um casamento construído durante 45 anos, tudo pode ser abalado e até mesmo destruído.
Um filme de uma hora e meia do mais realista que o cinema pode ser. Charlotte Rampling está nomeada, merecidamente, na categoria de Melhor Actriz porque oferece à sua personagem tudo o que ela precisa: credibilidade, naturalidade, drama e amor. Sem esquecer a também excelente interpretação de Tom Courtenay! Um filme que certamente não agradará a todos por haver pouca ou quase nenhuma acção mas que me agrada a mim. Agrada-me, principalmente, por ser tão distinto na sua normalidade.
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sexta-feira, 13 de novembro de 2015
Sétima Arte | Django Unchained
Há filmes. Depois há o Django. É óbvio que esta distinção merece ser feita. Senão vejamos: o filme é de Tarantino e no elenco temos os monstros Leonardo DiCaprio, Jammie Foxx, Christopher Waltz, Sammuel L Jackson e Kerry Washington. Podia nem acrescentar mais nada e acho que vocês já tinham percebido que é, com toda a certeza, um filme memorável. Quem ainda não viu pode até assustar-se com os 165 minutos de duração, parece muito tempo para um filme. E provavelmente seria, se não fosse de Tarantino.
Não vou dizer que é um filme que vai agradar unicamente aos admiradores e fãs de Tarantino, não. Seria injusto limitar assim uma obra-de-arte. Acredito que, mesmo para aqueles que não apreciam este tipo de filmes, seja um grande filme. No entanto, para os que apreciam o estilo tão singular de Tarantino (é impossível não identificar um dos seus filmes), este filme é bem capaz de os deixar em êxtase. Como me deixou a mim.
Não sei se sou a única a pensar assim, mas eu penso que Hollywood tem medo de tocar no tema da escravatura. Quando o faz é de forma muito sensível e sempre com a ideia de abolição e de liberdade presente. Não quero dizer que esteja mal, e eu entendo porque é um tema realmente sensível, mas isto leva-me a pensar que só Quentin Tarantino podia pegar num tema tão delicado e que facilmente é interpretado de 20 formas diferentes (nem sempre positivas) e fazer uma obra-de-arte que mistura acção, comédia e suspense como Django. Sim, há muitos momentos cómicos durante estas 2 horas e 45 minutos.
Já todos sabemos também que se há alguém que consegue transformar os actores na melhor versão de si próprios é, claramente, Tarantino. Voltou a fazê-lo. As interpretações são soberbas e é daquelas situações em que é impossível destacar alguém porque se o fizesse era uma injustiça para os restantes. Leonardo DiCaprio, no papel de Calvin Candie - proprietário da Candieland, uma plantação de algodão no racista Mississipi-, dá aquilo a que já nos habituou em todo os filmes que participa, uma interpretação inesquecível, onde vai de um desprezível menino bonito com demasiadas tendências racistas a ser um dos vilões mais épicos de Hollywood dos últimos anos; há uma cena memorável em que ele parte um copo e fica a sangrar, o que muita gente não sabe é que ele cortou mesmo a mão e sangrou de verdade, só que não quis parar e continuou a ser brilhante (what's not to love about this guy?). Jammie Foxx, o nosso Django, também não podia estar melhor na pele de um tímido escravo que depois de um fortuito encontro com Dr. Schultz, se torna no mais rápido pistoleiro do sul, mas sendo sempre um eterno apaixonado que faz tudo para recuperar a sua mulher, de quem o separaram - consegue ser cómico quando deseja, charmoso sempre que quer e detestável quando precisa. Não consigo esquecer os momentos em que tem de interpretar um esclavagista, o que para ele só é tolerável porque tem de recuperar Broomhilda. Christopher Waltz tem, para mim, no Dr. King Schultz, a interpretação da sua vida - um alemão, dentista sem exercer e caçador de prémios, que abomina a escravatura e que sente uma grande compaixão pela história de Django e Broomhilda, ao ponto de arriscar a sua vida para os ajudar a ficar juntos. É extremamente divertido e é impossível não gostar dele. Samuel L Jackson é o detestável Stephen, o fiel servo de Candie já de idade avançada e que é demoníaco - não conseguimos desenvolver nenhum carinho por este homem, bem pelo contrário. Tem uma interpretação perfeita, não tenho absolutamente nada a apontar! Kerry Washington cumpre muito bem o seu papel de Broomhilda, uma escrava que tem as suas marcas por todo o corpo e é dramática sempre que tem de o ser, sem exageros.
Para além dos desempenhos brilhantes deste elenco de luxo, e para completar a obra-de-arte, há um argumento fabuloso com diálogos brutais e duros, mas também cómicos - acho que é por este dom que Tarentino consegue oferecer-nos o melhor dos seus actores. A banda sonora também merece um grande destaque, é como se fosse uma personagem porque é impossível imaginar o filme sem ela, mas tem um grave problema: é que acaba. A sério, mesmo que não queiram ver o filme (mas vejam!) ouçam com atenção a banda sonora porque é sublime.
Sem dúvida nenhuma, Django é um dos melhores filmes dos últimos anos e que nos consegue entreter com a maior das facilidades durante 2 horas e 45 minutos. Com a marca indelével de Tarantino, as interpretações perfeitas de um elenco maravilhoso, uma banda sonora de chorar porque acaba e um argumento de fazer inveja, temos horas garantidas de puro deleite e de uma experiência cinematográfica única. São estes filmes que me fazem ser fascinada por cinema e entender que quando um filme começa o meu mundo passa a ser esse e não o mundo real. Cinema é o que cada um quiser fazer dele, para mim é uma forma de escapar do mundo real e viver outras vidas. Django é cinema puro para ver, rever e voltar a ver e ficar cada vez mais maravilhado!
P.S.: Não, os óculos de sol ainda não existiam na altura, mas vá, vamos perdoar o nosso Tarantino porque o Jammie Foxx fica com um ar badass naqueles óculos pelos quais eu fiquei apaixonada.
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segunda-feira, 5 de outubro de 2015
Sétima Arte | Trainspotting
Quando vi o Requiem for a Dream tinha lido vários comentários que o comparavam a Trainspotting. Conhecia vagamente o filme e sabia que o tema principal era o uso de drogas, por isso a comparação entre estas duas obras ser tão evidente. Apesar do tema ser o mesmo acho que são dois filmes muito distintos. Requiem for a Dream é, indubitavelmente, um dos filmes que mais me marcou até hoje, continua a arrepiar-me e a mexer imenso comigo e portanto, se tivesse de escolher um, seria esse. Acho que a maior diferença reside no facto de Trainspotting ser um filme mais leve, que dá espaço para rir de algumas das deixas de um ou outro personagem. É, também ele inesquecível e o seu lado psicadélico com cenas absolutamente icónicas como quando Renton (Ewan McGregor) "mergulha" na sanita mais suja da Escócia para procurar os seus comprimidos ou a cena em que o espectador vê Renton ser, aparentemente, enterrado quando este se encontra num estado entre a vida e a morte. O que se separa este filme de todos os filmes sobre o uso de drogas? É a sua objectividade. O que quero dizer com isto é que é um filme que não tem um tom moral relativamente ao uso de drogas, é a realidade pura e dura sem flores ou adornos e eu gosto muito disso. Uns verão este filme como pró-drogas e outros como anti-drogas. Outros verão uma obra-prima do cinema. Essa interpretação, Danny Boyle deixa-a connosco.
As drogas apresentavam-se como um caminho alternativo à sociedade consumista e fútil dos anos 90. É um escape à vida sempre igual de todos os outros, pessoas monótonas e todos com os mesmos objectivos. A heroína é um prazer e um grito de revolta dos jovens para quem a sociedade parece não ter espaço. Renton, que se revela capaz de levar uma vida normal, vai narrando episódios da sua vida e da vida dos seus amigos: o inocente e trapalhão Spud (Ewen Bremner), o interesseiro Sick Boy (Johny Lee Miller), o atinado mas que acaba por se tornar como os amigos Tommy (Kevin McKidd) e Begbie (Robert Carlyle), viciado em álcool e violento qb. Sabem o tipo de companhias com quem nenhuma mãe sonha que os seus filhos se dêem? São eles. O pano de fundo são os arredores de Edimburgo, na Escócia e Londres, onde Renton acaba por começar uma vida longe das drogas e arranja um emprego convencional... até que tudo recomeça quando os amigos lhe decidem aparecer à porta.
Injectam-se com heroína pelo prazer mas também pelo desafio, por ser contra o que todos esperam, até porque, segundo Renton, num diálogo frenético em que enumera todas as drogas com ele e os amigos se injectam refere que "até nos injectávamos com Vitamina C, se fosse ilegal". O filme é uma experiência em que não conseguimos ver as personagens como heróis, mas passamos o tempo todo a olhar para ele como se fossem uns desgraçados, até sentirmos pena deles. No entanto não conseguimos evitar uma pergunta no final do filme: afinal quem é mais triste? É a sociedade que tem uma vida normal, sempre igual, planeada ao mais ínfimo pormenor e moralmente aceitável ou este grupo de jovens, que encontra prazer e felicidade no companheirismo que todos têm por compreenderem entre si o vício das drogas e na heroína, sem nunca querer ceder à vida adulta e a um envelhecimento convencional?
Para além do argumento ser extremamente bom, a direcção de Danny Boyle é frenética e soberba. Os desempenhos dos actores foram maravilhosos. A todos estes pontos positivos junta-se mais um: a banda sonora que é de luxo e que faz do filme algo ainda melhor (e eu acho que se bem escolhida e seleccionada, a banda sonora acaba por ser também uma personagem).
No início deste post disse que era um filme mais leve do que o Requiem for a Drem. Sem dúvida que é, mas continua a ser um filme difícil de ver com cenas que de facto nos fazem sentir quase aquilo que as personagens sentem, que nos assombram como quando Renton está em recuperação no quarto da casa dos seus pais e o bebé anda no tecto, enquanto tem uma visão dos seus amigos. Apesar de ser difícil é um filme imperdível, nada convencional e mais do que isso, é uma obra-prima inesquecível do género de que Hollywood anda a precisar neste tempo de crise criativa que por lá paira. Há boas novidades: Danny Boyle anunciou a sequela para 2016 com os mesmos actores e inspirado no livro homónimo de Irvin Welsh (e que eu espero ler em breve no idioma original para que nada se perca na tradução)!
Danny Boyle dirigiu outro filme que eu gosto muito: The Beach com Leonardo DiCaprio no papel principal e dois outros filmes bastante conhecidos e reconhecidos: 127 Hours e Slumdog Millionaire.
P.S.: Trainspotting é, na Inglaterra e na Escócia, o acto de fazer alguma coisa que é uma perda de tempo, nomeadamente escolher um comboio e marcar sempre as horas a que ele passa. É mesmo uma perda de tempo, mas há outras coisas que Renton enumera no início do filme e que corresponde a cada personagem: para si, a heroína, vista como o maior desperdício de tempo. O Sick Boy é obcecado por filmes do James Bond, o Begbie por álcool e lutas de bar, o Spud quer sempre evitar trabalhar e Tommy encontra o seu entretenimento em filmar-se a ter relações sexuais com a namorada.
sexta-feira, 31 de julho de 2015
Sétima Arte | Fury
O primeiro pensamento que tive quando comecei a ver o filme: está aqui um elenco surpreendentemente bom. Começa por Brad Pitt, o príncipe de Hollywood que é muito mais do que uma cara bonita e já deixou isso bem claro no mundo do cinema; dispensa apresentações. Shia LaBeouf, que passa da cara de menino que conhecemos em Transformers para interpretar um soldado que cita a bíblia em momentos de maior stress. Michael Peña que já todos conhecemos de algum filme porque tem um currículo extenso. Jon Bernthal, que aparece totalmente diferente de The Wolf of Wall Street, onde aparece diferente de The Walking Dead, mas onde quer que seja, está sempre impecável. Por fim, Logan Lerman que apesar de ser um miúdo de pouco mais de 20 anos já tem um bom currículo que conta com Noah, The Perks of Being a Wallflower e 3:10 to Yuma, entre outros Ao início admito que não reconheci de imediato o miúdo assustado que foi treinado para dactilografar 60 palavras por minuto e nunca tinha visto um tanque antes, a verdade é que já tinha visto pelo menos três filmes do seu currículo (os que citei anteriormente).
O segundo pensamento foi: eu quero chorar desesperadamente, o mundo é tão cruel e os homens podem ser os seres mais desprezíveis de que há memória, a guerra é tão estúpida e desnecessária, que filme espectacular. Pronto, não foi só um pensamento. Foi um turbilhão deles que chegavam à minha cabeça a uma velocidade descontrolada e sem ordem nenhuma. Um realizador americano do qual não me recordo o nome uma vez disse que os filmes de guerra devem ter o intuito de transmitir ao espectador o que é, de facto, estar na guerra. Acho que é impossível fazê-lo porque acredito que a guerra é o cenário mais horripilante em que se pode inserir um ser vivo e por isso só quem lá está sabe e por muito que tente expressar nunca ninguém saberá realmente o que é estar na guerra. No entanto David Ayer tentou transmitir-nos o que é estar na guerra com este Fury. Foi bem sucedido na missão. Sem dúvida nenhuma que é um filme muito duro em que apetece chorar porque estar ali é demasiado cruel. Há um misto de sentimentos em relação à maioria das personagens: eles matam, têm atitudes desprezíveis mas no fim só querem ir para casa e não temos noção dos traumas que lhes são infligidos na guerra. Sempre foi o que achei dos soldados, são heróis desprezíveis.
Alemanha, Abril de 1945. A primeira cena é o retrato da guerra. Destroços por todo o lado. Tanques a arder. Corpos no chão. É Abril mas parece o dia mais invernoso na terra. Fumo. Não há sinais de vida. Até que aparece um belo cavalo branco com um soldado alemão. Wardaddy (Brad Pitt), o sargento do tanque Fury elimina o soldado e conhecemos o resto da equipa: Bible (Shia LeBouef), Gordo (Michael Peña) e Coon-Ass (Jon Bernthal); estes são, obviamente, os seus nomes de guerra. Os únicos sobreviventes de um pelotão inteiro. O que sobrou. Os que conseguiram. Os danos são irreparáveis: apesar de os danos do tanque poderem ser reparados, os danos destes homens já são como as marcas que carregam na pele. Um membro da equipa está morto. É a guerra. Quando alcançam outros pelotões é-lhes designado um novo membro para substituir o soldado que morreu. Extremamente assustado tem de limpar o interior do tanque, onde há medalhas nazis penduradas e partes do corpo humano e sangue, muito sangue. A reacção é a reacção que qualquer miúdo teria: a enorme vontade de ir para casa.
Podia descrever o filme todo de tão belo e atroz que é. As cenas de guerra tão boas e cruéis em que as cores dominantes são o castanho e o cinzento e que não dão sequer margem para perceber que é primavera. A obrigação que sente Wardaddy em proteger os seus homens e entregá-los vivos ao mesmo tempo que mostra um ódio visceral a tudo o que é nazi, em especial às SS. A atitude forte e quase antagónica que tem com um corpo forte cheio de cicatrizes. A sujidade que parece parte integrante de todos. A construção de Norman (Logan Lerman), que ao início não consegue sequer conceber a ideia de matar alguém, que não sabe o que fazer nem quer lá estar mas que acaba por se fazer um soldado que odeia os nazis com toda a sua força e capaz de matar todos aqueles que lhe apareça à frente. A ironia da frase que todos usam: Best job I ever had. Algumas das cenas mais interessantes são aquelas mais descontraídas em que a equipa dentro do tanque consegue rir das coisas mais estúpidas no meio daquele deserto de mortos e guerra.
Talvez não seja o filme mais realista sobre a guerra. Acredito que a guerra, a guerra mesmo nua e crua, não seja assim. Acredito que seja muito pior. No entanto, este filme é capaz de propiciar ao espectador uma realidade talvez mais interessante: a dinâmica e complexa relação entre Wardaddy e o resto da sua equipa, a parte psicológica da guerra. Talvez seja mais sobre as relações que se criam e se alimentam na guerra, as relações humanas do que sobre a guerra em si mesmo.
Os actores estão brilhantes, desempenhos excelentes assim como a direcção que não desilude em nenhum aspecto. Um dos filmes mais memoráveis de 2014 e que irá figurar entre os meus favoritos. É realmente brutal e belo ao mesmo tempo. E doloroso o tempo todo. E é, sem dúvida nenhuma, por causa de filmes como este que eu gosto tanto tanto de cinema.
No fim percebemos o que Bible pretende dizer a Norman pouco depois de se conhecerem. Bible pede-lhe que espere para ver o que é a guerra. Norman, inocentemente, pergunta pelo que esperar. Bible é suscinto: Wait to see what a man can do to each other.
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sábado, 25 de julho de 2015
Sétima Arte | Straw Dogs
Tenho alguns filmes sobre os quais quero comentar aqui, mas quando me lembro de fazer a crítica tenho sempre alguma coisa para fazer. Vi à uns dias o Straw Dogs que foi transmitido na SIC. Surpreendentemente é um filme que é transmitido com alguma frequência, já é a segunda vez que por acaso o "encontro". Digo que é uma surpresa porque tem uma boa dose de imagens violentas e fortes. Nunca vi o original - este é um remake de 2011 - mas calculo que as cenas de violência sejam igualmente ou mais perturbadoras. A versão original, de 1971, chegou a ser proibida na Inglaterra. Foi para os cinemas mas a sua comercialização foi proibida até 2002.
David e Amy Sumner (James Marsden e Kate Bosworth) mudam-se da movimentada e frenética cidade de Los Angeles para a pacata e serena terra sulista americana de Blackwater em busca de paz e de uma vida mais calma. David é um argumentista de Hollywood que quer terminar de escrever o guião do seu próximo filme histórico sobre a batalha de Estalinegrado enquanto Amy é uma bela actriz e o orgulho daquela pequena terra, onde nasceu e foi criada.
Desde a primeira cena que percebemos os inegáveis contrastes culturais entre o casal recém chegado e os habitantes da pequena cidade. David é claramente marcado pela educação de Harvard, é politicamente correcto e ouve música clássica. Do outro lado está um grupo de rapazes acostumados a trabalhar com as mãos, que vão à igreja aos domingos, gostam da caça e vão sempre ver futebol da equipa da terra. Esse grupo é liderado pelo musculado com um olhar brutalmente frio e distante ex-namorado de Amy, Charlie (Alexander Skarsgård).
Entretanto, Charlie e os seus amigos são contratados por David para arranjar o telhado do celeiro da antiga casa do pai de Amy, que pretendem restaurar para posteriormente a habitar. As desavenças começam logo no primeiro dia quando os rapazes chegam "demasiado cedo" para trabalhar. Continuam quando um dos rapazes de Charlie entra na cozinha, sem bater à porta ou pedir autorização e se serve de uma cerveja como se estivesse na sua própria casa. Amy, no entanto, desvaloriza o assunto e diz que naquela pacata terra as portas nunca eram trancadas porque toda a gente se conhecia e havia confiança. David acaba por ceder. No entanto, também Amy começa a ficar incomodada com os olhares de assédio dos rapazes quando vai correr ou quando está por perto. Depois de confessar o seu incómodo ao marido, este sugere-lhe que talvez ela estivesse a sujeitar-se a isso, e talvez fosse melhor se ela se vestisse de forma mais apropriada.
Das personagens secundárias, o meu destaque é completamente entregue a Tom Heddon (James Woods) que é o antigo treinador da equipa de futebol e que de certa forma educou aqueles rapazes ao ponto de eles fazerem tudo por ele (inclusive matar se necessário for, e é). Tom, depois de reformado e retirado do futebol, está constantemente no bar local a beber até que a bebida lhe seja recusada - e quando é, ele continua a beber. Tem um comportamento violento, principalmente com Niles (Dominic Purcell), um homem com graves problemas de saúde de quem a sua filha, categoricamente mais nova, está constantemente a tentar aproximar-se. É ele a ponte entre estes miúdos e a sua educação - são moldados à sua imagem.
O filme acaba com cenas de violência bastante brutais, perpetradas pelos rapazes e pelo treinador que vão atrás de Niles, que se encontra na casa de Amy e David. Apesar destes não serem o alvo da violência em primeiro lugar, já o haviam sido por mais de uma vez. Primeiro, os olhares de assédio a Amy. Depois o quase acidente de David, que ia sendo provocado pelos rapazes. Ainda o gato enforcado dentro do armário. A seguir a caça, "tão importante e tradicional na terra" a que David acede ir acompanhado por Charlie e os seus amigos mas que acaba sozinho na beira da estrada com uma caçadeira na mão quando descobre que afinal não era época de caça e tinha sido enganado. Isto sem saber que em casa, a sua mulher está a ser violada por Charlie e por um dos seus companheiros. No fim, o cenário não podia ser outro!
Fiquei com imensa curiosidade de ver o filme original. Sem dúvida que o que mais contribui para este filme é o desempenho dos actores que é excelente, principalmente de James Mardsen e do sueco Alexander. A edição e fotografia também têm qualidade, com um ar vintage e moderno em simultâneo. O pior é o enredo ser por vezes demasiado forçado e repetitivo, sabemos sempre de antemão que vai acontecer o pior. E parece que os protagonistas não se desviam dele. Depois do gato ser enforcado na sua própria casa, nada fazem. Apenas tentam apurar os responsáveis de forma infantil. São repetidamente provocados sem nada fazer. Depois de Amy se sentir assediada, expõe-se ainda mais quando desabotoa a camisa em frente aos rapazes. Depois de ser violada, também não reage. São demasiados acontecimentos sem nenhuma resposta.
No fim, a conclusão só pode ser uma: por muito civilizados e educados que sejamos, acabamos por ser iguais a toda a gente. Todos temos uma dose de monstros e de violência em nós. É uma característica da condição humana da qual ninguém consegue fugir, mesmo que tente resistir e mesmo que pensa que não é assim e é diferente das outras pessoas.
David e Amy Sumner (James Marsden e Kate Bosworth) mudam-se da movimentada e frenética cidade de Los Angeles para a pacata e serena terra sulista americana de Blackwater em busca de paz e de uma vida mais calma. David é um argumentista de Hollywood que quer terminar de escrever o guião do seu próximo filme histórico sobre a batalha de Estalinegrado enquanto Amy é uma bela actriz e o orgulho daquela pequena terra, onde nasceu e foi criada.
Desde a primeira cena que percebemos os inegáveis contrastes culturais entre o casal recém chegado e os habitantes da pequena cidade. David é claramente marcado pela educação de Harvard, é politicamente correcto e ouve música clássica. Do outro lado está um grupo de rapazes acostumados a trabalhar com as mãos, que vão à igreja aos domingos, gostam da caça e vão sempre ver futebol da equipa da terra. Esse grupo é liderado pelo musculado com um olhar brutalmente frio e distante ex-namorado de Amy, Charlie (Alexander Skarsgård).
Entretanto, Charlie e os seus amigos são contratados por David para arranjar o telhado do celeiro da antiga casa do pai de Amy, que pretendem restaurar para posteriormente a habitar. As desavenças começam logo no primeiro dia quando os rapazes chegam "demasiado cedo" para trabalhar. Continuam quando um dos rapazes de Charlie entra na cozinha, sem bater à porta ou pedir autorização e se serve de uma cerveja como se estivesse na sua própria casa. Amy, no entanto, desvaloriza o assunto e diz que naquela pacata terra as portas nunca eram trancadas porque toda a gente se conhecia e havia confiança. David acaba por ceder. No entanto, também Amy começa a ficar incomodada com os olhares de assédio dos rapazes quando vai correr ou quando está por perto. Depois de confessar o seu incómodo ao marido, este sugere-lhe que talvez ela estivesse a sujeitar-se a isso, e talvez fosse melhor se ela se vestisse de forma mais apropriada.
Das personagens secundárias, o meu destaque é completamente entregue a Tom Heddon (James Woods) que é o antigo treinador da equipa de futebol e que de certa forma educou aqueles rapazes ao ponto de eles fazerem tudo por ele (inclusive matar se necessário for, e é). Tom, depois de reformado e retirado do futebol, está constantemente no bar local a beber até que a bebida lhe seja recusada - e quando é, ele continua a beber. Tem um comportamento violento, principalmente com Niles (Dominic Purcell), um homem com graves problemas de saúde de quem a sua filha, categoricamente mais nova, está constantemente a tentar aproximar-se. É ele a ponte entre estes miúdos e a sua educação - são moldados à sua imagem.
O filme acaba com cenas de violência bastante brutais, perpetradas pelos rapazes e pelo treinador que vão atrás de Niles, que se encontra na casa de Amy e David. Apesar destes não serem o alvo da violência em primeiro lugar, já o haviam sido por mais de uma vez. Primeiro, os olhares de assédio a Amy. Depois o quase acidente de David, que ia sendo provocado pelos rapazes. Ainda o gato enforcado dentro do armário. A seguir a caça, "tão importante e tradicional na terra" a que David acede ir acompanhado por Charlie e os seus amigos mas que acaba sozinho na beira da estrada com uma caçadeira na mão quando descobre que afinal não era época de caça e tinha sido enganado. Isto sem saber que em casa, a sua mulher está a ser violada por Charlie e por um dos seus companheiros. No fim, o cenário não podia ser outro!
Fiquei com imensa curiosidade de ver o filme original. Sem dúvida que o que mais contribui para este filme é o desempenho dos actores que é excelente, principalmente de James Mardsen e do sueco Alexander. A edição e fotografia também têm qualidade, com um ar vintage e moderno em simultâneo. O pior é o enredo ser por vezes demasiado forçado e repetitivo, sabemos sempre de antemão que vai acontecer o pior. E parece que os protagonistas não se desviam dele. Depois do gato ser enforcado na sua própria casa, nada fazem. Apenas tentam apurar os responsáveis de forma infantil. São repetidamente provocados sem nada fazer. Depois de Amy se sentir assediada, expõe-se ainda mais quando desabotoa a camisa em frente aos rapazes. Depois de ser violada, também não reage. São demasiados acontecimentos sem nenhuma resposta.
No fim, a conclusão só pode ser uma: por muito civilizados e educados que sejamos, acabamos por ser iguais a toda a gente. Todos temos uma dose de monstros e de violência em nós. É uma característica da condição humana da qual ninguém consegue fugir, mesmo que tente resistir e mesmo que pensa que não é assim e é diferente das outras pessoas.
A origem do nome Cães de Palha ou Straw Dogs é chinesa. São bonecos que são todos aperaltados e colocados num altar, mas não porque são adorados. No final ninguém quer saber deles nem têm importância. São descartados. Numa das cenas, David faz referência a esta tradução e compara-os com Charlie e o resto do grupo. Um filósofo e alquimista chinês explica o conceito num poema seu:
O céu e a terra não são humanosNão tem qualquer piedade.
O sábio não tem predileções,
É impiedoso ao tratar as pessoas como cães de palha
que serão destruídos no sacrifício.
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domingo, 22 de fevereiro de 2015
Sétima Arte | Whiplash
Dos oito filmes nomeados para a categoria principal na cerimónia dos Óscares já só me falta ver dois: Boyhood e The Grand Budapest Hotel. A cerimónia é já daqui a algumas horas e eu tinha a ambição de ainda ver estes dois filmes que faltam e escrever sobre todos eles no blogue antes da cerimónia. No entanto e apesar de não parecer eu tenho uma vida para além de ver filmes (e gripe, também tenho gripe) portanto esta ambição não dá para mais nada do que um bom guião para Mission: Impossible 6. No entanto, venho aqui deixar as minhas apostas!
O menos conhecido dos nomeados é provavelmente Whiplash e admito que também me poderia passar despercebido se não fosse esta nomeação, mas era um verdadeiro desperdício até porque junta duas das melhores coisas da vida: música e cinema. Para além de ser o menos conhecido, é também o mais diverso e "a lufada de ar fresco" entre todos eles porque é muito diferente e ao mesmo tempo muito agradável. É o género de filme que me faz apaixonar e que, na minha opinião, tem a chave para o sucesso: baixo orçamento, bom guião e bons actores. Para além disso, é escrito e realizado por um jovem de 30 anos (feitos em Janeiro): Damien Chazelle.
Dizer que o filme é sobre jazz e músicos (como já li) era demasiado injusto. O filme é uma metáfora para a vida, contada através da história de Andrew Neiman (Miles Teller), um talentoso miúdo de 19 anos, que deseja tornar-se um baterista tão grandioso como o seu ídolo: Buddy Rich. Para realizar esse sonho, ingressa na melhor academia de música de Nova Iorque.
O seu talento é inegável e por isso Fletcher (J.K. Simmons), o mentor da banda de jazz que não compactua com nada inferior à perfeição e que se revela brutalmente exigente com os seus alunos, levando-os repetidamente aos seus limites físicos e psicológicos para que estes possam atingir o seu máximo potencial, recruta Andrew para baterista secundário, mas facilmente se percebe que o seu talento é demasiado grandioso para ficar à sombra.
Miles Teller e J.K. Simmons enchem o ecrã e são, para mim, uma grande surpresa. Acredito que Miles tem em Whiplash o papel que o vai catapultar para uma grande carreira porque tem um desempenho fantástico, com direito a lágrimas, suor e sangue de verdade (Miles Teller é um baterista autodidacta e a maioria das cenas foram mesmo gravadas com ele e o sangue é mesmo real). Nota-se o quão comprometido está com a sua personagem e a partir do primeiro minuto vê-se Miles florescer de uma forma incrível. J.K. Simmons é o actor secundário, mas dizer que é secundário é ser irrealista. O seu papel de vilão é magistralmente cumprido e apesar de ser uma personagem muito pouco amigável, é impossível não criar uma simpatia (antagónica) por ele. Fletcher representa a voz dos que nos puxam aos limites, muitas vezes de forma exagerada e absurda que nem parece real. Damien, o realizador, disse-lhe que não queria mais ver um ser humano no ecrã, queria ver um monstro, um gárgula, um animal.
Whiplash é frenético do início ao fim, a edição é um espelho perfeito do jazz. Tem o tempo perfeito porque todas as cenas são essenciais e importantes (até os episódios do romance que é pouco explorado me parecem proeminentes para cortar a tensão que se vai sentindo ao longo de todo o filme). Apesar de já ter ouvido algumas críticas negativas relativamente ao final, eu acho que não podia acabar de outra forma porque percebemos que ambos conseguem atingir os seus sonhos e isso é a parte mais importante, é o ponto fulcral do filme.
Como disse antes, este filme é uma metáfora para a vida. É impossível alcançar a grandiosidade que todos procuramos (eu sou da opinião de que o ser humano é obcecado com a grandiosidade) sem sair da nossa zona de conforto, sem nos levarmos aos nossos limites, sem suor e lágrimas e sangue. Não se pode chegar a um destino diferente daquele onde nos encontramos se formos pelo mesmo caminho. É sobre isso que este filme é!
P.S.: Whiplash foi inicialmente apresentado como uma curta-metragem de 18 minutos no Sundance Film Festival em 2013 por falta de orçamento. Levou o prémio para casa e conseguiu um orçamento de 3,3 milhões de dólares, o orçamento mais baixo entre os nomeados (Boyhood - 4 milhões; The Imitation Game - 15 milhões; The Theory of Everything - 18 milhões; Birdman - 18 milhões; Selma - 20 milhões; The Grand Budapest Hotel - 30 milhões; American Sniper - 58,8 milhões). Foi filmado em apenas 19 dias e ficou pronto em sensivelmente 10 semanas. Tinha tudo para dar errado, mas deu tudo certo.
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segunda-feira, 19 de janeiro de 2015
Sétima Arte | The Theory of Everything
Começa a minha corrida aos Óscares (a minha única corrida porque sou demasiado preguiçosa para ir, literalmente, correr), isto é, ver os filmes todos antes da entrega dos ditos cujos para fazer as minhas apostas com antecipação (apostas comigo própria, tenho de ser sincera). O ano passado não consegui o meu objectivo e ficou um ou outro para trás, ainda assim acertei nas categorias de melhor filme, melhor fotografia, melhor actriz, melhor actriz secundária, melhor actor e melhor actor secundário. Podem dizer que sou uma craque nesta área, eu deixo!! (Eu não sou uma grande adepta da Academia por diversos motivos, acho que ainda não nomeiam nem premeiam os melhores; e porque nunca deram um Óscar ao Leonardo DiCaprio, que já merecia! No entanto acho piada à cerimónia como não podia deixar de ser de uma apaixonada por cinema como eu)
Na corrida a 5 óscares (melhor fotografia, melhor actor principal, melhor actriz principal, melhor banda sonora e melhor argumento adaptado), The Theory of Everything é baseado nas memórias de Jane Wilde Hawking, a primeira mulher de Stephen Hawking, por isso podemos esperar que o filme seja centrado na união de ambos e não só em Stephen Hawking. No entanto, também não se foca só no casamento de ambos. Nem só na doença ingrata que lhe é diagnosticada aos 21 anos de idade e com um futuro de sucesso pela frente. Acho que é isso que faz o filme tão maravilhoso, o facto de não se centrar apenas num aspecto da vida deste ser humano maravilhoso e cheio de coragem que nunca desistiu por mais obstáculos que a vida lhe colocasse. Isso e a interpretação sublime de Eddie Redmayne que merece o Óscar (e sim, tenho consciência de que estou a dizê-lo sem ver a interpretação dos outros nomeados mas quem já viu este filme compreende-me perfeitamente: Eddie está para lá de perfeito e para eu achar que alguém é mais merecedor do que ele é preciso ser uma interpretação do outro mundo, acreditem! Já o tinha visto em My Week with Marilyn e tinha gostado do seu desempenho mas fiquei positivamente surpreendida.). Felicity Jones, que interpreta a incansável e apaixonada mulher de Stephen, tem também um desempenho positivo mas, e esta é a minha opinião pessoal, Rosamund Pike em Gone Girl (já vi e espero falar-vos dele brevemente) está à frente na corrida.
Este é aquele tipo de filme que eu não queria ir ver ao cinema. Não me recusava a ir, no entanto é íntimo e pessoal. É o género de filme que eu prefiro ver no conforto da minha casa porque me tira o conforto, porque me inquieta. Quando comecei a ver o filme, outro me surgiu imediatamente: A Beautiful Mind, a biografia de um brilhante matemático protagonizado por Russell Crowe e um dos meus filmes preferidos e fiquei receosa de não me conseguir desligar de forma a apreciar o filme da melhor forma possível. A verdade é que depois de 10 minutos tudo isso me passou da cabeça e comecei a apreciar o filme e a perder o conforto, que é o que eu mais gosto quando estou a ver um filme: posso até gostar de filmes que não mexam comigo, aqueles que dão para entreter, os que eu digo serem de domingo à tarde mas nada me faz mais feliz (ou poucas coisas, vá) do que ver um filme que me deixa com 37829 pensamentos em simultâneo na cabeça. The Theory of Everything é bom, é poderoso e intenso. Conhecemos Stephen, um jovem brilhante de 21 anos que com pouco esforço consegue fazer coisas absolutamente extraordinárias. No entanto, surge na sua vida uma adversidade que, segundo conceituados médicos, lhe roubará a vida em dois anos, roubando-lha um bocadinho a cada dia que passa. Essa adversidade é uma doença degenerativa, a injusta e ingrata Esclerose Lateral Amiotrófica. A doença afecta-lhe o corpo, rouba-o, põe Stephen numa cadeira de rodas mas não afecta o seu cérebro (a ELA afecta os músculos, inclusive faz com que o doente não consiga respirar ou engolir sem ajuda, mas não afecta o sistema nervoso central portanto o raciocínio continua a funcionar a 100%) e por isso continua a ser brilhante, a nunca desistir daquilo que quer provar, a ser incansável e melhor a cada dia - mesmo que seja complicado percebê-lo. Para isso conta com a ajuda da sua incansável mulher, Jane.
No entanto o filme podia ser mais profundo, pois passa ao lado de aspectos importantíssimos e que só faria o filme ganhar. Há perguntas sem resposta: o casamento de Jane e Stephen era perfeito? Eles nunca discutiam? Qual era a forma que Stephen usava para continuar a trabalhar? Como era a sua vida sexual (eles têm três filhos, mas é só isso que sabemos)? Como é que Stephen se sente quando vê o seu corpo e as suas capacidades de se expressar livremente serem roubadas para além do seu bom humor (ao longo do filme percebemos que apesar da sua condição, Stephen é tem um bom temperamento e consegue brincar com a sua doença)? Há ideias que gostava que fossem desenvolvidas, ou melhor desenvolvidas. Apesar disso há um tema que é desenvolvido e que é extremamente interessante: a relação a dois que passa a ser a três. Quando Jane se encontra exausta da situação aparece Jonathan, que se torna membro da família, é parte da mobília. Desenvolve-se uma relação muito singular e muito invulgar e à qual é importante ter atenção.
É um dos filmes que certamente vou rever. É sobre amor, sobre a vida, sobre a doença, sobre as batalhas que constantemente temos de travar. É sobre alguém a quem todos nós devemos buscar ensinamentos porque Stephen Hawking é um exemplo de força e uma fonte de inspiração.
P.S.: Não consigo deixar de rever mentalmente a última cena do filme, tão bonita, tão espectacularmente diferente, tão inspiradora.
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