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quinta-feira, 21 de abril de 2016

Posso ver este filme 1000 vezes sem me cansar

* Se ainda não viram Gone Girl sugiro que não continuem a ler porque há spoilers no resto do post. Vão ver este excelente filme e depois voltem para relembrar um dos melhores monólogos do cinema dos últimos anos e que merecia um Óscar numa categoria própria! *


"I'm so much happier now that I'm dead. Technically missing. Soon to be presumed dead. Gone. And my lazy lying shitting oblivious husband will go to prison for my murder. Nick Dunne took my pride and my dignity and my hope and my money. He took and took from me until I no longer existed. That's murder. Let the punishment fit the crime. To fake a convincing murder you have to have discipline. You befriend a local idiot. Harvest the details of her hundrum life and cram her with stories about your husband's violent temper. Secretly create some money troubles: credit cards, perhaps online gambling. With the help of the unwitting, bump up your life insurance. Purchase getaway car. Craiglist. Generic. Cheap. Pay cash. You need to package yourself so that people will truly mourn your loss. And America loves pregnant women. As if it's so hard to spread your legs. You know what's hard? Faking a pregnancy. First, drain your toilet. Invite pregnant idiot into your home and ply her with lemonade. Steal pregnant idiot's urine. Voilà! A pregnancy is now part of your medical record. Happy Anniversary! Wait for your clueless husband to start his day. Off he goes... and the clock is ticking. Meticulously stage your crime scene with just enough mistakes to raise the specter of doubt. You need to bleed. A lot. A lot, a lot. The head wound kind of bleed. A crime scene kind of bleed. You need to clean; poorly, like he would. Clean and bleed, bleed and clean. And leave a little something behind: a fire in July? And because you're you, you don't stop there. You need a diary. Minimum three hundred entries on the Nick and Amy story. Start with the fairy tale early days: those are true, and they're crucial. You want Nick and Amy to be likable. After that, you invent. The spending, the abuse, the fear, the threat of violence. And Nick thought he was a writer... burn it, just the right amount. Make sure the cops will find it. Finally, honor tradition with a very special treasure hunt. And if I get everything right, the world will hate Nick for killing his beautiful, pregnant wife. And after all the outrage, when I'm ready, I'll go out on the water with a handful of pills and a pocket full of stones. And when they find my body, they'll know: Nick Dunne dumped his beloved like garbage, and she floated past all the other abused unwanted inconvenient women. Then Nick will die too. Nick and Amy will be gone, but then we never really existed. Nick loved a girl I was pretending to be. "Cool girl". Men always use that, don't they? As their defining compliment: "She's a cool girl". Cool girl is hot. Cool girl is game. Cool girl is fun. Cool girl never gets angry at her man. She only smiles in a chagrined, loving manner. And then presents her mouth for fucking. She likes what he likes, so evidently he's a vinyl hipster who loves fetish Manga. If he likes girls gone wild, she's a mall babe who talks for football and endures buffalo wings at Hooters. When I met Nick Dunne I knew he wanted "cool girl". And for him, I'll admit: I was willing to try. I wax-strippe my pussy raw. I drank canned beer watching Adam Sandler movies. I ate cold pizza and remained a size two. I blew him, semi-regularly. I lived in the moment. I was fucking game. I can't say I didn't enjoy some of it. Nick teased out in me things I didn't know existed. A lightness, a humor, an ease. But I made him smarter. Sharper. I inspired him to rise to my level. I forged the man of my dreams. We were happy pretending to be other people. We were the happiest couple we knew. And that's the point of being together if you're not the happiest? But Nick got lazy. He became someone I did not agree to marry. He actually expected me to love him unconditionally. Then he dragged me, penniless, to the navel of this great country and found himself a newer, younger, bouncier cool girl. You think I'd let him destroy me and end up happier than ever? No fucking way. He doesn't get to win. My cute, charming, salt-of-the-earth Missouri guy. He needed to learn. Grown-ups work for things. Grown-ups pay. Grown-ups suffer consequences."

Amy Dunne

segunda-feira, 4 de abril de 2016

A minha estante | Creativity, Inc.

Nunca fui uma leitora ávida de livros sobre gestão ou de negócios. Apesar de ter interesse nesses tópicos e de querer ler mais raramente sei por onde começar ou em que livros me centrar. Creativity, Inc. de Ed Catmull já estava na minha wishlist há algum tempo, e no outro dia cruzei-me com ele online e felizmente não lhe resisti.
Ed Catmull foi co-fundador da Pixar e é o actual presidente da Pixar e da Disney, os gigantes estúdios de animação. Embora não seja, de forma nenhuma, uma autobiografia de Catmull, o início deste livro é o início da sua história, de como nasce a sua paixão pela animação digital ao ver Walt Disney falar sobre os seus filmes e é ainda cedo que se apercebe qual é o seu grande objectivo: fazer o primeiro filme animado totalmente digital. Apesar de na altura os meios tecnológicos não o permitirem, Catmull não desistiu e Toy Story, realizado pela Pixar e distribuído pela Disney, viu a luz do dia no ano de 1995. Foi um sucesso! A partir daí, seguiram-se inúmeros sucessos de bilheteiras e filmes que foram premiados (e que ganharam os corações do público): Up!, Cars, Ratatouille, Monsters, Inc., Wall-E, Brave, Inside-Out e mais uns quantos nomes sonantes que não vale a pena estar a enumerar aqui porque de certeza que vocês já os conhecem (e provavelmente já os viram e gostam).
Depois de Catmull concretizar o grande projecto que foi Pixar, encontrou outro grande desafio: a presidência da Pixar. A Pixar nasceu de um departamento da Lucasfilm adquirido por Steve Jobs que, apesar de não passar muito tempo na sede da empresa, teve um papel fundamental no desenvolvimento da cultura da Pixar. Essa influência começa pelo edifício que ele próprio projecta e que tem como objectivo a troca de ideias e a convivência entre todos os funcionários com um objectivo: o desenvolvimento da criatividade.
Se, depois de ler este livro, me perguntassem onde eu queria trabalhar eu respondia, sem muitas dúvidas, que gostava de trabalhar na Pixar, dentro da "cultura da Pixar" que é fascinante - e Ed Catmull dá-nos acesso a todos os detalhes. Desde as reuniões da equipa Braintrust em que se discute o progresso dos filmes até ao Notes Day em que todos os funcionários se envolvem totalmente em encontrar soluções para tornar a Pixar melhor e financeiramente mais estável. Não vou partilhar mais pormenores por uma razão muito simples: Creativity, Inc. é de leitura obrigatória. Escrito em parceria com a escritora Amy Wallace, pauta-se pela leitura fácil, organizada e inteligente. Seria fácil cair em lugares comuns mas felizmente não o faz e é por isso que vale a pena ler e aprender tudo o que Ed Catmull - e os seus colegas da Pixar - têm para nos ensinar.

domingo, 27 de março de 2016

Se ele está de parabéns, o cinema também está de parabéns


Parabéns Tarantino! Que continues a deliciar-nos com as tuas maravilhas cinematográficas. O cinema é muito maior e muito mais completo contigo. Que venham mais 53!

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Sétima Arte | The Danish Girl & Steve Jobs & 45 Years

The Danish Girl

Estava curiosa para ver The Danish Girl, porque o tema que aborda não é frequentemente abordado no grande ecrã. Lili Elbe, nascida Einar Wegener (Eddie Redmayne) foi das primeiras pessoas a fazer cirurgia para mudar de sexo. Einar era o marido de Gerda Wegener (Alicia Vikander). Ambos eram pintores, Einar era um pintor de sucesso, e viviam um casamento feliz. Pelo menos são-nos apresentados dessa forma logo no início do filme.
Um filme interessante e sobretudo um filme bonito e interessante aos olhos mas que podia ter muito mais conteúdo do que aquele que tem, e podia ser muito mais interessante do que o que foi. No final ficamos com a sensação de a forma o que vimos foi uma oportunidade perdida. Pessoalmente senti que não consegui entrar nas cabeças de Einar/Lili ou Gerda, não há a profundeza psicológica que as personagens pedem e gostava muito de ter visto a reacção da sociedade dos anos 20 a esta transformação que era uma novidade para a época.
As interpretações de Eddie Redmayne e Alicia Vikander são, sem nenhuma dúvida, o melhor que o filme nos oferece. Redmayne transforma-se outra vez, numa prestação fabulosa e que naturalmente lhe garantiu uma nomeação na categoria de Melhor Actor. No entanto, Alicia Vikander é, para mim, a mais fabulosa. Depois de a ver ser excelente em Ex Machina, tive o prazer de a rever aqui, com uma prestação magnífica e que lhe garantiu a nomeação na categoria de Melhor Actriz Secundária.

Steve Jobs
Lançamento do Macintosh, 1984. Lançamento do computador NExT em 1988. Lançamento do iMac em 1998. Três lançamentos de três produtos importantes na carreira - e na vida - de Steve Jobs.
Danny Boyle conta-nos a vida de Jobs através dos momentos que antecedem essas três apresentações dos três produtos, sem nunca nos mostrar a apresentação.
A verdade é que a maioria das coisas não aconteceram como Boyle nos diz que aconteceram. Os maiores dramas da vida de Jobs não eram todos 40 minutos antes de cada apresentação e a maioria das pessoas que trabalhou com Jobs afirma que a forma como ele é apresentado no filme não corresponde à realidade.
É um filme que entretém, mas não é o filme que representa a vida de Jobs, nem o próprio, da forma mais fidedigna ou fiel. Michael Fassbender, que está inegavelmente bom (e nomeado a Melhor Actor) nunca me parece Steve Jobs.
Se não tivesse como título um dos nomes dos génios maiores dos últimos anos nem se apresentasse como uma representação da sua vida seria um filme certamente muito melhor. O filme é bom, mas desilude porque se centra em apenas três momentos (que, ainda por cima, não são retratos fieis da realidade) da vida grandiosa de um génio!
Para além da nomeação de Fassbender ao Oscar de Melhor Actor, valeu ainda a nomeação da Kate Winslet, que nunca desilude, a Melhor Actriz Secundária.

45 Years
Há muitos filmes sobre amor, geralmente cheios de clichés e lugares comuns. Acho que é por isso que não sou fã de romances, a maioria parecem-me iguais e demasiado previsíveis. 45 Years é sobre amor e a sua resistência, e sobre o casamento.
Kate Mercer (Charlotte Rampling) e Geoff Mercer (Tom Courtenay) são um casal inglês que está a uma semana de festejar o seu 45º aniversário de casamento. Por problemas de saúde de Geoff, viram-se impossibilitados de festejar o 40º aniversário. No entanto, Geoff recebe uma carta das autoridades suíças que o informam que o corpo de Katya, o seu primeiro amor, tinha sido encontrado em perfeito estado de conservação. Naturalmente, Geoff fica abalado e leva a que Kate a questionar o seu casamento.
O filme constrói-se devagar e não há um clímax, um ponto alto. O registo é constante e não precisamos das palavras de Kate ou Geoff para percebermos o que se passa no seu íntimo. É um filme melancólico e todas as cenas são naturais. Não há artifícios, porque são dispensáveis. É um filme que nos faz sentir que nunca devemos tomar nada por garantido - se uma simples carta pode abalar um casamento construído durante 45 anos, tudo pode ser abalado e até mesmo destruído.
Um filme de uma hora e meia do mais realista que o cinema pode ser. Charlotte Rampling está nomeada, merecidamente, na categoria de Melhor Actriz porque oferece à sua personagem tudo o que ela precisa: credibilidade, naturalidade, drama e amor. Sem esquecer a também excelente interpretação de Tom Courtenay! Um filme que certamente não agradará a todos por haver pouca ou quase nenhuma acção mas que me agrada a mim. Agrada-me, principalmente, por ser tão distinto na sua normalidade.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

As opiniões são como os nossos cartões

Os Prémios da Academia estão aí à porta. Dia 28 sabemos quem leva para casa um Óscar. Ainda não vi todos os nomeados nas principais categorias (Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Actor, Melhor Actriz, Melhor Actriz Secundária e Melhor Actor Secundário), mas estou quase a atingir essa meta pela primeira vez na vida. É um motivo de orgulho, eu sei, podem dar-me os parabéns e uma prenda!
Acho que estas entregas de prémios valem o que valem, e valem pouco. Ser o "melhor filme" do ano é relativo, e isso aplica-se a todos as categorias. O melhor filme do ano para mim é, provavelmente, diferente do melhor filme do ano para ti. Por isso não só a escolha dos vencedores, mas também os nomeados para cada categoria, são discutíveis. Apesar de ainda não ter visto todos os nomeados na categoria de melhor filme (faltam-me dois!), já conseguia tirar pelo menos um da lista e sabia qual o filme que nomeava nesse lugar. Para alguns, esse até pode ter sido o filme do ano. Ou do século. Só que não é para mim, de forma nenhuma! Gosto, no entanto, de ver a cerimónia e de ver os filmes nomeados porque por vezes há filmes realmente bons que me passavam ao lado se não fosse pela nomeação numa qualquer categoria.
Este ano a polémica (prémios que se prezem têm pelo menos uma grande polémica antes da cerimónia) chegou cedo e em força com algumas figuras de peso em Hollywood a boicotar a cerimónia. Pouco depois da lista de nomeados ser revelada a meio de Janeiro a hashtag #OscarsSoWhite tornou-se muito popular no Twitter por todos os actores nomeados serem brancos pelo segundo ano consecutivo. Jada Pinkett Smith foi a primeira a revoltar-se contra a academia, seguida de Spike Lee. De opinião contrária estiveram actrizes como Whoopi Goldberg, que já venceu na categoria de Melhor Actriz Secundária em 1990 com o filme Ghost e Charolotte Rampling, que está nomeada na categoria de Melhor Actriz com o filme 45 Years.
Se acho que os Oscars são muito brancos? Não, não acho. Calculo que as pessoas que escolham os nomeados sejam pessoas com o mínimo bom senso e não escolham os filmes pela cor de pele. Não concordo com as quotas que muitos pedem, porque ter quotas nas nomeações é um passo para dar prémios só para ficar bem na fotografia e deixar de premiar o melhor desempenho. Inclusão significa igualdade de oportunidades para todos os actores (seja qual for a cor da pele), mas prémio para o melhor desempenho!
Não se esqueçam que as opiniões são como os nossos cartões: pessoais e intransmissíveis. A nomeação e o vencedor são, por norma, sempre discutíveis porque todos temos gostos e histórias diferentes que, naturalmente, nos fazem gostar de certos e determinados filmes. É natural e é bom que assim seja. Era muito mais chato se gostássemos todos do mesmo, não era?

sábado, 16 de janeiro de 2016

Mas é verdade?

Já foram anunciados os nomeados aos Oscars. Isso significa que é altura de começar as reflexões profundas sobre todos os filmes e desempenhos dos actores. Alguém da redacção do The Shiznit já passou essa fase e fez a pergunta: e se os posters dos filmes dissessem a verdade? Seria mais ou menos assim:
Bridge of Spies
The Revenant
Steve Jobs

The Big Short
The Danish Girl

Inside Out
Carol
Mad Max
Sicario
The Martian
Joy
Brooklyn
Room
The Hateful Eight
Ex Machina
Spotlight
E o bónus: 

A entrega dos prémios é dia 28 de Fevereiro mas o burburinho e as especulações já começaram e intensificam-se de semana para semana. Eu (e o Leonardo DiCaprio) já estamos ansiosos para ver quem leva mais troféus para casa.
A partir de 1 de Fevereiro está aberto a época dos Oscars aqui no estaminé. Vou ver os filmes TODOS e vou falar dos filmes TODOS aqui e vou dar as minhas previsões no próprio dia 28. Portanto fiquem atentos e deixem as vossas opiniões. Agora quero saber: são estes os posters verdadeiros?

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Sétima Arte | Django Unchained

Há filmes. Depois há o Django. É óbvio que esta distinção merece ser feita. Senão vejamos: o filme é de Tarantino e no elenco temos os monstros Leonardo DiCaprio, Jammie Foxx, Christopher Waltz, Sammuel L Jackson e Kerry Washington. Podia nem acrescentar mais nada e acho que vocês já tinham percebido que é, com toda a certeza, um filme memorável. Quem ainda não viu pode até assustar-se com os 165 minutos de duração, parece muito tempo para um filme. E provavelmente seria, se não fosse de Tarantino.
Não vou dizer que é um filme que vai agradar unicamente aos admiradores e fãs de Tarantino, não. Seria injusto limitar assim uma obra-de-arte. Acredito que, mesmo para aqueles que não apreciam este tipo de filmes, seja um grande filme. No entanto, para os que apreciam o estilo tão singular de Tarantino (é impossível não identificar um dos seus filmes), este filme é bem capaz de os deixar em êxtase. Como me deixou a mim.
Não sei se sou a única a pensar assim, mas eu penso que Hollywood tem medo de tocar no tema da escravatura. Quando o faz é de forma muito sensível e sempre com a ideia de abolição e de liberdade presente. Não quero dizer que esteja mal, e eu entendo porque é um tema realmente sensível, mas isto leva-me a pensar que só Quentin Tarantino podia pegar num tema tão delicado e que facilmente é interpretado de 20 formas diferentes (nem sempre positivas) e fazer uma obra-de-arte que mistura acção, comédia e suspense como Django. Sim, há muitos momentos cómicos durante estas 2 horas e 45 minutos.
Já todos sabemos também que se há alguém que consegue transformar os actores na melhor versão de si próprios é, claramente, Tarantino. Voltou a fazê-lo. As interpretações são soberbas e é daquelas situações em que é impossível destacar alguém porque se o fizesse era uma injustiça para os restantes. Leonardo DiCaprio, no papel de Calvin Candie - proprietário da Candieland, uma plantação de algodão no racista Mississipi-, dá aquilo a que já nos habituou em todo os filmes que participa, uma interpretação inesquecível, onde vai de um desprezível menino bonito com demasiadas tendências racistas a ser um dos vilões mais épicos de Hollywood dos últimos anos; há uma cena memorável em que ele parte um copo e fica a sangrar, o que muita gente não sabe é que ele cortou mesmo a mão e sangrou de verdade, só que não quis parar e continuou a ser brilhante (what's not to love about this guy?). Jammie Foxx, o nosso Django, também não podia estar melhor na pele de um tímido escravo que depois de um fortuito encontro com Dr. Schultz, se torna no mais rápido pistoleiro do sul, mas sendo sempre um eterno apaixonado que faz tudo para recuperar a sua mulher, de quem o separaram - consegue ser cómico quando deseja, charmoso sempre que quer e detestável quando precisa. Não consigo esquecer os momentos em que tem de interpretar um esclavagista, o que para ele só é tolerável porque tem de recuperar Broomhilda. Christopher Waltz tem, para mim, no Dr. King Schultz, a interpretação da sua vida - um alemão, dentista sem exercer e caçador de prémios, que abomina a escravatura e que sente uma grande compaixão pela história de Django e Broomhilda, ao ponto de arriscar a sua vida para os ajudar a ficar juntos. É extremamente divertido e é impossível não gostar dele. Samuel L Jackson é o detestável Stephen, o fiel servo de Candie já de idade avançada e que é demoníaco - não conseguimos desenvolver nenhum carinho por este homem, bem pelo contrário. Tem uma interpretação perfeita, não tenho absolutamente nada a apontar! Kerry Washington cumpre muito bem o seu papel de Broomhilda, uma escrava que tem as suas marcas por todo o corpo e é dramática sempre que tem de o ser, sem exageros. 
Para além dos desempenhos brilhantes deste elenco de luxo, e para completar a obra-de-arte, há um argumento fabuloso com diálogos brutais e duros, mas também cómicos - acho que é por este dom que Tarentino consegue oferecer-nos o melhor dos seus actores. A banda sonora também merece um grande destaque, é como se fosse uma personagem porque é impossível imaginar o filme sem ela, mas tem um grave problema: é que acaba. A sério, mesmo que não queiram ver o filme (mas vejam!) ouçam com atenção a banda sonora porque é sublime.
Sem dúvida nenhuma, Django é um dos melhores filmes dos últimos anos e que nos consegue entreter com a maior das facilidades durante 2 horas e 45 minutos. Com a marca indelével de Tarantino, as interpretações perfeitas de um elenco maravilhoso, uma banda sonora de chorar porque acaba e um argumento de fazer inveja, temos horas garantidas de puro deleite e de uma experiência cinematográfica única. São estes filmes que me fazem ser fascinada por cinema e entender que quando um filme começa o meu mundo passa a ser esse e não o mundo real. Cinema é o que cada um quiser fazer dele, para mim é uma forma de escapar do mundo real e viver outras vidas. Django é cinema puro para ver, rever e voltar a ver e ficar cada vez mais maravilhado!

P.S.: Não, os óculos de sol ainda não existiam na altura, mas vá, vamos perdoar o nosso Tarantino porque o Jammie Foxx fica com um ar badass naqueles óculos pelos quais eu fiquei apaixonada.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Sétima Arte | Trainspotting

Quando vi o Requiem for a Dream tinha lido vários comentários que o comparavam a Trainspotting. Conhecia vagamente o filme e sabia que o tema principal era o uso de drogas, por isso a comparação entre estas duas obras ser tão evidente. Apesar do tema ser o mesmo acho que são dois filmes muito distintos. Requiem for a Dream é, indubitavelmente, um dos filmes que mais me marcou até hoje, continua a arrepiar-me e a mexer imenso comigo e portanto, se tivesse de escolher um, seria esse. Acho que a maior diferença reside no facto de Trainspotting ser um filme mais leve, que dá espaço para rir de algumas das deixas de um ou outro personagem. É, também ele inesquecível e o seu lado psicadélico com cenas absolutamente icónicas como quando Renton (Ewan McGregor) "mergulha" na sanita mais suja da Escócia para procurar os seus comprimidos ou a cena em que o espectador vê Renton ser, aparentemente, enterrado quando este se encontra num estado entre a vida e a morte. O que se separa este filme de todos os filmes sobre o uso de drogas? É a sua objectividade. O que quero dizer com isto é que é um filme que não tem um tom moral relativamente ao uso de drogas, é a realidade pura e dura sem flores ou adornos e eu gosto muito disso. Uns verão este filme como pró-drogas e outros como anti-drogas. Outros verão uma obra-prima do cinema. Essa interpretação, Danny Boyle deixa-a connosco.
As drogas apresentavam-se como um caminho alternativo à sociedade consumista e fútil dos anos 90. É um escape à vida sempre igual de todos os outros, pessoas monótonas e todos com os mesmos objectivos. A heroína é um prazer e um grito de revolta dos jovens para quem a sociedade parece não ter espaço. Renton, que se revela capaz de levar uma vida normal, vai narrando episódios da sua vida e da vida dos seus amigos: o inocente e trapalhão Spud (Ewen Bremner), o interesseiro Sick Boy (Johny Lee Miller), o atinado mas que acaba por se tornar como os amigos Tommy (Kevin McKidd) e Begbie (Robert Carlyle), viciado em álcool e violento qb. Sabem o tipo de companhias com quem nenhuma mãe sonha que os seus filhos se dêem? São eles. O pano de fundo são os arredores de Edimburgo, na Escócia e Londres, onde Renton acaba por começar uma vida longe das drogas e arranja um emprego convencional... até que tudo recomeça quando os amigos lhe decidem aparecer à porta.
Injectam-se com heroína pelo prazer mas também pelo desafio, por ser contra o que todos esperam, até porque, segundo Renton, num diálogo frenético em que enumera todas as drogas com ele e os amigos se injectam refere que "até nos injectávamos com Vitamina C, se fosse ilegal". O filme é uma experiência em que não conseguimos ver as personagens como heróis, mas passamos o tempo todo a olhar para ele como se fossem uns desgraçados, até sentirmos pena deles. No entanto não conseguimos evitar uma pergunta no final do filme: afinal quem é mais triste? É a sociedade que tem uma vida normal, sempre igual, planeada ao mais ínfimo pormenor e moralmente aceitável ou este grupo de jovens, que encontra prazer e felicidade no companheirismo que todos têm por compreenderem entre si o vício das drogas e na heroína, sem nunca querer ceder à vida adulta e a um envelhecimento convencional?
Para além do argumento ser extremamente bom, a direcção de Danny Boyle é frenética e soberba. Os desempenhos dos actores foram maravilhosos. A todos estes pontos positivos junta-se mais um: a banda sonora que é de luxo e que faz do filme algo ainda melhor (e eu acho que se bem escolhida e seleccionada, a banda sonora acaba por ser também uma personagem).
No início deste post disse que era um filme mais leve do que o Requiem for a Drem. Sem dúvida que é, mas continua a ser um filme difícil de ver com cenas que de facto nos fazem sentir quase aquilo que as personagens sentem, que nos assombram como quando Renton está em recuperação no quarto da casa dos seus pais e o bebé anda no tecto, enquanto tem uma visão dos seus amigos. Apesar de ser difícil é um filme imperdível, nada convencional e mais do que isso, é uma obra-prima inesquecível do género de que Hollywood anda a precisar neste tempo de crise criativa que por lá paira. Há boas novidades: Danny Boyle anunciou a sequela para 2016 com os mesmos actores e inspirado no livro homónimo de Irvin Welsh (e que eu espero ler em breve no idioma original para que nada se perca na tradução)!
Danny Boyle dirigiu outro filme que eu gosto muito: The Beach com Leonardo DiCaprio no papel principal e dois outros filmes bastante conhecidos e reconhecidos: 127 Hours e Slumdog Millionaire. 

P.S.: Trainspotting é, na Inglaterra e na Escócia, o acto de fazer alguma coisa que é uma perda de tempo, nomeadamente escolher um comboio e marcar sempre as horas a que ele passa. É mesmo uma perda de tempo, mas há outras coisas que Renton enumera no início do filme e que corresponde a cada personagem: para si, a heroína, vista como o maior desperdício de tempo. O Sick Boy é obcecado por filmes do James Bond, o Begbie por álcool e lutas de bar, o Spud quer sempre evitar trabalhar e Tommy encontra o seu entretenimento em filmar-se a ter relações sexuais com a namorada.