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segunda-feira, 20 de junho de 2016

Génio Ronaldo

Sejamos coerentes. Para criticar e/ou elogiar é necessário haver sempre alguma ponderação e coerência. Naturalmente que num desporto tão apaixonante como o futebol vão haver sempre comentários de cabeça quente, comentários do momento e coisas ditas sem pensar. Acontece a toda a gente. O que não pode acontecer é viver permanentemente com memória curta e/ou selectiva.
Ontem o Ronaldo falhou um penalti. O guarda-redes não o defendeu nem a relva teve culpa da trajectória da bola. A culpa foi única e exclusivamente do Ronaldo! Eu sei isso, tu sabes isso e eu tenho a certeza de que ele também sabe disso e provavelmente sabe-o melhor do que ninguém.
No entanto nunca, em momento algum, podemos culpar apenas um jogador pelo empate (ou pela perda de dois pontos) de uma equipa. Não estou a dizer que o Ronaldo está imune da culpa do resultado de ontem. O que eu estou a dizer é que o Ronaldo tem a mesma culpa de todos os outros jogadores. Num jogo colectivo é ingénuo imputar a culpa apenas num "bode expiatório". Não é correcto nem faz sentido. Num jogo colectivo, como é o futebol, a culpa é dividida entre todos os intervenientes e a grande maioria dos comentários que leio culpam apenas o Ronaldo.
Talvez estes críticos, sempre tão ávidos e prontos a atacar, não vejam as estatísticas, não tenham interesse em vê-las ou desviem os olhos quando lhes são apresentadas porque afinal o Ronaldo é "egoísta", "só quer marcar lá no clube dele", "só quer saber da imagem e de selfies" e é "arrogante". Vou ser breve e deixar aqui apenas três comentários que são "só" fundados em estatísticas e factos:
- Há uma imagem a circular na Internet que compara o número de remates do Cristiano Ronaldo com os remates de outras equipas do Europeu, como por exemplo a Itália ou a Islândia. O curioso é que o Ronaldo soma mais remates do que essas equipas (nove equipas, para ser precisa). Para terem uma ideia: o Ronaldo soma 20 remates, a Itália 19 e a Suécia 11. Eu sei, os remates não dão pontos mas não deixa de ser uma estatística muito interessante.
- Durante toda a sua carreira, o Ronaldo falhou apenas 19 penalties das 110 oportunidades que teve. Isto significa que concretizou com sucesso 91. Na selecção falhou no total 4 (quatro) penalties. Para quem diz que ele só se interessa em marcar os penalties nas equipas em que joga... andam muito mal informados.
- Tornou-se ontem no jogador português com mais internacionalizações (128). São mais jogos nas pernas só pela selecção nacional do que estes os críticos provavelmente têm na vida inteira. Jogou com lágrimas nos olhos quando o pai morreu (e só quem sabe o que é perder o pai pode imaginar o quanto isso dói), jogou quando todos estavam contra ele, jogou quando estava lesionado e é visível que veste com orgulho a nossa camisola. É o melhor marcador de sempre da selecção nacional com um total de 58 golos - ainda não acabou a carreira e é provável que deixe este recorde num patamar tão alto que vão passar anos até alguém ficar perto de bater esse recorde. Nunca viu um cartão vermelho na selecção, nem por acumulação de amarelos, nem em jogos oficiais, nem em amigáveis.
A isto podia juntar histórias que só demonstram a força, a qualidade, a humildade e a as particularidades únicas do génio do futebol Cristiano Ronaldo. Não o vou fazer, quem prefere ver com palas nos olhos nunca entenderia tudo.
O Ronaldo não está, tal como os outros jogadores, imune a críticas. Bateu mal o penalti ontem, falhou. Reconheço e critico quando tenho de criticar mas tento ser coerente, justa, realista e não me esqueço de que, apesar de por vezes não parecer, o Ronaldo é humano e tem o direito de falhar e de ter fases menos boas. Os comentários que leio e ouço são provavelmente de quem não conhece a sua história nem a sua carreira. São comentários que destilam ódio e inveja pelo sucesso alheio. Quem o critica gratuitamente certamente não tem a menor ideia do que este miúdo, que nasceu pobre e com poucos recursos se fez um futebolista e profissional de excelência e ganhou tudo o que hoje tem, já deu à selecção portuguesa, ao futebol português e a Portugal. Não me esqueço quando conquista a Champions pelo Real Madrid, não me esqueço quando ganha outra bola de ouro ou outro troféu individual, não me esqueço quando o vejo elogiado por todo o mundo e só se for hipócrita me vou esquecer quando falha um penalti ou quando faz um jogo menos bom (e não acho que fez um jogo péssimo ontem).
Não é a hora adequada para comentários incendiários que em nada ajudam. As criticas são boas quando construtivas e são essas que devem surgir agora. O caminho está difícil, e ficou mais difícil ontem, mas ainda não é impossível. Por isso, e enquanto não for, eu vou acreditar. Vou acreditar e vou apoiar. FORÇA PORTUGAL!

domingo, 22 de maio de 2016

Uma pequena reflexão sobre os destinos da selecção

Com o Europeu a começar dentro de dias para a selecção A e depois da selecção sub-17 ter vencido o Europeu na sua categoria e com números extraordinários (apenas um golo sofrido na final, por exemplo) parece-me que é necessário tirar algumas notas.
Ao longo dos anos as camadas jovens têm revelado uma grande qualidade com vários troféus conquistados e com excelentes campanhas mas poucos desses jovens chegam à selecção A. Compreendo que nem todos os jogadores que têm qualidade enquanto jovens continuam a evoluir e a mostrar qualidade suficiente para merecer a chamada à selecção mais tarde. Há jovens jogadores que estagnam, que não evoluem, que não se adaptam e nesse percurso há mais uma data de factores que fogem ao controlo do jogador e que prejudicam a sua evolução. Por outro lado há jogadores que enquanto jovens não são chamados à selecção mas que são uma aposta natural mais tarde. Tudo isso é natural e eu compreendo.
No entanto penso que há duas causas que para mim são igualmente preocupantes e determinantes para que as camadas jovens tenham sucesso e a selecção A nem por isso:
- Nas camadas jovens a fibra das camisolas usadas pelos jogadores ou os agentes que os representam têm pouca ou nenhuma importância. Quer isto dizer que o critério é a qualidade e/ou a forma do jogador na altura da convocatória. Só quem usa palas é que não percebe que na selecção A há lugares cativos e lugares reservados aos "enteados" que mesmo depois de uma época (ou épocas) em nada convincente continuam incompreensivelmente a ser chamados.
- A maioria dos clubes portugueses tem pouco interesse em apostar no desenvolvimento dos jovens e na formação destes e prefere apostar em jogadores estrangeiros. Já disse muitas vezes aqui no blogue que sou a favor da aposta na formação e também já disse que gostei de ver o Vitória fazê-lo há uns anos atrás (infelizmente mais pela situação financeira complicada da altura do que pela vontade espontânea) com sucesso. Infelizmente é uma reflexão em parte da mentalidade portuguesa de que o estrangeiro é sempre melhor do que o nacional - e nem sempre é assim!
Resta-me agora dar os parabéns aos miúdos que mereceram muito este troféu e foram um grande exemplo para todos os que vestem esta camisola, na esperança de que todos se tornem grandes jogadores e que sejam valorizados por isso numa altura em que também a selecção A se importe com a qualidade e nada mais!