Não sei qual é a vossa definição da expressão "rato de biblioteca". Seja ela qual for, há fortes probabilidades de eu me enquadrar nela perfeitamente. Livros físicos são, para mim, uma espécie de paraíso que posso ter na mala para me fazer feliz a qualquer instante. É frequente ter uma data deles espalhados pelo quarto e guardo-os (principalmente os meus favoritos) com imenso carinho. Apesar de me considerar amiga do ambiente, não me imagino a aderir aos livros digitais e a essas modernices (sou assumidamente da old school). Quando olho para os meus livros, do mais antigo ao mais recente, é como ver a história do meu amadurecimento porque tenho livros (e autores) que adorava à uns anos e agora não os suporto e acho que são a coisa mais chata de sempre. Apesar de adorar e consumir filmes à velocidade da luz, relativamente às adaptações costumo preferir o livro ao filme. Raramente acontece o contrário.
O último livro que passou pela minha mesa de cabeceira foi The Revenant de Michael Punk que, a não ser que tenham estado encarcerados numa prisão de segurança máxima pelos últimos meses e ler este post é a primeira coisa que estão a fazer (se for essa a situação, muito obrigada pela preferência!), já devem saber que foi adaptado ao cinema por Alejandro G. Iñarritu. Este caso foi a excepção. Prefiro o filme ao livro, apesar de se regerem por linhas totalmente diferentes. Há, de facto, diferenças abismais. Por exemplo, a cena em que o urso ataca Hugh Glass tem uma importância enorme no filme, é uma cena relativamente longa e violenta. No livro ocupa uma parte pequena e não é tão violenta ou fulcral. Para além disso, e foi um pormenor que me deixou triste, no livro Glass não tem um filho (como acontece no filme) que motiva aquela vingança urgente do filme.
Apesar de tudo, Punke consegue o que nem sempre os autores conseguem mas que é um dos objectivos fulcrais: capturar a essência do período retratado. A história remonta a 1823. Eu não sei como é viver em 1823 (devem ter percebido isso sem eu dizer, mas just in case...) mas se me pedissem para imaginar como seria viver nessa época, eu imaginava da forma como Punke nos descreve em The Revenant e essa sensação é óptima!
No geral, é um livro que entretém com a acção e aventura qb. No entanto, e depois de ver o filme, tornou-se um bocadinho decepcionante para mim. Não sei se é a magia de Iñarritu ou se, caso não tivesse ainda visto o filme, ia achar o mesmo. É, acima de tudo, uma boa viagem a 1823 e uma boa história de vingança pura e dura!
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sábado, 5 de março de 2016
terça-feira, 1 de março de 2016
Valeu pelo DiCaprio, pelo Morricone, pela (surpresa) Spotlight e pouco mais
Acompanhei a gala dos Prémios da Academia do início ao fim, apesar de ter sido complicado manter-me acordada por um sem fim de motivos. Primeiro, as horas são impróprias. Segundo, a red carpet demorou eternidades e eu estava a ver que aquilo nunca mais acabava. Terceiro, acompanhei em directo na SIC Caras e a quantidade de pausas que fizeram ao longo da emissão para uma jornalista falar do que se comentava no Twitter foi no mínimo irritante. Quarto, por volta das 3 da manhã o sono atacou-me e foi difícil não adormecer. A cerimónia não foi nada de especial, como o costume, as surpresas não foram muitas, Chris Rock usou e abusou da polémica de falta de diversidade e acho que só há mais umas pequenas notas a tirar:
- Foi uma surpresa, para mim, The Revenant não ter sido o grande vencedor da noite e arrecadou só 3 estatuetas: melhor actor (Leonardo DiCaprio), melhor realizador (Alejandro G. Iñarritu, que vence pelo segundo ano consecutivo; em 2015 venceu com Birdman) e melhor fotografia ( Emmanuel Lubezki, que vence pela terceira vez consecutiva depois de vencer com Gravity e Birdman);
- Mad Max: Fury Road venceu quase todos os prémios técnicos (melhor edição, melhor edição de som, melhor mistura de som, melhor caracterização, melhor guarda-roupa e melhor cenografia) acumulando o total de 6 que fazem dele o filme com mais prémios da noite;
- Finalmente, e 500 bandas sonoras depois, Ennio Morricone venceu o prémio aos 87 com o fantástico trabalho em The Hateful Eight. Não podia ter sido melhor entregue!
- Nas categorias de melhor actriz e melhor actriz secundária foi entregue a quem se esperava: Brie Larson (Room) e Alicia Vikander (The Danish Girl), respectivamente;
- Uma das surpresas da noite foi ver Mark Rylance (Bridge of Spies) subir ao palco para receber o prémio de melhor actor secundário, quando toda a gente esperava ver Stallone. Preferi ver Rylance vencer porque não só teve um desempenho mais satisfatório como é melhor actor.
- A grande surpresa da noite foi, no entanto, ver Spotlight vencer a categoria mais esperada: melhor filme. Pensei que ia ser The Revenant mas fiquei contente porque, apesar do filme de Iñarritu ser muito bom, as questões que Spotlight levanta são questões muito importantes e que merecem os holofotes pela sua seriedade.
- E como não podia deixar de ser fiquei muito feliz pela vitória de Leonardo DiCaprio, é indiscutível e completamente merecido. O mundo ficou todo neste mood:
- Foi uma surpresa, para mim, The Revenant não ter sido o grande vencedor da noite e arrecadou só 3 estatuetas: melhor actor (Leonardo DiCaprio), melhor realizador (Alejandro G. Iñarritu, que vence pelo segundo ano consecutivo; em 2015 venceu com Birdman) e melhor fotografia ( Emmanuel Lubezki, que vence pela terceira vez consecutiva depois de vencer com Gravity e Birdman);
- Mad Max: Fury Road venceu quase todos os prémios técnicos (melhor edição, melhor edição de som, melhor mistura de som, melhor caracterização, melhor guarda-roupa e melhor cenografia) acumulando o total de 6 que fazem dele o filme com mais prémios da noite;
- Finalmente, e 500 bandas sonoras depois, Ennio Morricone venceu o prémio aos 87 com o fantástico trabalho em The Hateful Eight. Não podia ter sido melhor entregue!
- Nas categorias de melhor actriz e melhor actriz secundária foi entregue a quem se esperava: Brie Larson (Room) e Alicia Vikander (The Danish Girl), respectivamente;
- Uma das surpresas da noite foi ver Mark Rylance (Bridge of Spies) subir ao palco para receber o prémio de melhor actor secundário, quando toda a gente esperava ver Stallone. Preferi ver Rylance vencer porque não só teve um desempenho mais satisfatório como é melhor actor.
- A grande surpresa da noite foi, no entanto, ver Spotlight vencer a categoria mais esperada: melhor filme. Pensei que ia ser The Revenant mas fiquei contente porque, apesar do filme de Iñarritu ser muito bom, as questões que Spotlight levanta são questões muito importantes e que merecem os holofotes pela sua seriedade.
- E como não podia deixar de ser fiquei muito feliz pela vitória de Leonardo DiCaprio, é indiscutível e completamente merecido. O mundo ficou todo neste mood:
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segunda-feira, 11 de janeiro de 2016
O primo do Óscar

As diferenças entre os Oscars e os Globos de Ouro são muitas apesar de poder parecer que é só uma desculpa para haver uma festança dos ricos e famosos. Não é. Os Globos de Ouros são prémios atribuídos pela Associação de Correspondentes Estrangeiros de Hollywood e é considerado o prémio mais importante da crítica (os Oscars e os Emmys são atribuídos por profissionais do cinema). No entanto, dizem que os Globos de Ouro é o primo bêbado do Óscar. Talvez seja, o Ricky Gervais conduziu a cerimónia com um copo de cerveja a acompanhar e não se coibiu de fazer piadas controversas que estão a ser apelidadas de "tasteless" na imprensa norte-americana. Não deixou ninguém de fora e foram desde Caitlyn Jenner a Ben Affleck, passando por Bill Cosby e Mel Gibson. Em cima do palco os actores também não estiveram tímidos nas palavras e não foram poucos os que foram censurados. Deixando isso para trás até porque eu não vi a cerimónia, apenas vi alguns highlights, vamos ao que interessa: os vencedores!
Ainda não vi a maioria dos filmes nomeados (em Fevereiro começa a maratona para ver todos os nomeados aos Oscars) mas tenho algumas observações:
- O grande vencedor da noite foi The Revenant que levou para casa três troféus importantes - Melhor Filme (drama), Melhor Realizador (Alejandro Iñárritu) e Melhor Actor (Leonardo DiCaprio). Este foi um dos filmes que ainda não vi mas que estou muito curiosa para ver e é, sem dúvida, aquele de que espero mais.
- No ponto anterior já referi que Leonardo DiCaprio venceu na categoria de Melhor Actor. Sendo que não posso tecer nenhum comentário sobre o seu desempenho, tenho de dizer que fiquei feliz por ter vencido porque foi um papel que lhe exigiu muito (como por exemplo, dormir em carcaças de animais ou quase entrar em hipotermia) e acredito que tenha sido merecido porque no momento em que o seu nome foi anunciado recebeu uma ovação de pé!
- The Martian arrecadou dois prémios: Melhor Filme (Comédia ou Musical) e Melhor Actor em Comédia ou Musical (Matt Damon). Um filme com qualidade, que nos prende até ao último minuto e que é genuinamente engraçado; Matt Damon tem um desempenho carismático e enche o ecrã. Em breve farei o comentário ao filme aqui no blogue.
- O prémio de Melhor Actor Secundário foi para Sylvester Stallone em Creed. Parece-me merecido. O filme é excelente e Stallone faz-nos esquecer que tem... 69 anos. Aparece revigorado, brilha pela sua excelência e pela cumplicidade com Michael B. Jordan.
- Da televisão, foi Mr. Robot o grande vencedor: arrecadou o prémio de Melhor Série Drama e Melhor Actor Secundário (Christian Slater). Sobre isto não há muito mais a dizer para além de que foi merecido. Considero esta como a melhor série de 2015 sem dúvida nenhuma. Se não viram ainda, vejam!
- Last but not least, o grande e enorme Denzel Washington recebeu o prémio Cecil B. DeMille em homenagem à sua carreira! Well done Hollywood Foreign Press Association!
- Ah e não sei de quem foi a ideia de juntar Brad Pitt e Ryan Gosling no mesmo palco mas belíssima ideia essa,
- Agora mesmo para acabar e porque houve toda uma red carpet antes da cerimónia tenho de dizer que a Jennifer Lopez aos 46 anos me deixa cheia de inveja!
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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015
Sétima Arte | Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance)
A noite de Óscares foi noite de empate mas Birdman foi o vencedor. Para ser mais clara, Birdman e The Grand Budapest Hotel tinham 9 nomeações cada um; e cada um arrecadou 4 estatuetas douradas. Porque é que Birdman foi o vencedor? Ganhou nas categorias mais importantes: melhor filme e melhor realizador (Alejandro González Iñarritu), para além de melhor argumento original (por Alejandro González Iñarritu, Nicolas Giacobone, Alexander Dinelaris e Armando Bo) e melhor fotografia (que ficou a cabo de Emmanuel Lubezki, que já conta com 7 nomeações no currículo e venceu o ano passado com Gravity).
Quanto a mim, eu tenho sentimentos extremamente antagónicos em relação a este filme; se por um lado acho que tem pontos brilhantes e um elenco muito sólido e extremamente bom, por outro sinto que não me consegui sintonizar com o filme na sua totalidade.
O filme é dirigido como se fosse uma peça de teatro, com poucas interrupções. A narração ocorre enquanto deambulamos com as personagens pelos corredores do teatro. É esse estilo que, para mim, faz com que Birdman se distinga de um filme normal.
Riggan (Michael Keaton) é um actor assombrado pela grandiosidade de Birdman, o herói que interpretou à 20 anos e que lhe deu prestígio, antes de entrar numa fase decadente. No entanto, Riggan tenta reerguer-se no teatro - porque o teatro dá prestígio - ao escrever, encenar e actuar numa peça. Esta peça serve não só para se reerguer mas também para calar a voz que o assombra: a voz de Birdman, ele próprio mas muitos anos antes. Para que a peça funcione é necessário que seja protagonizada por bons actores, é aqui que entra Mike (Edward Norton). Mike é o menino querido da Broadway, o preferido da crítica e chega com um método revolucionário para fazer com que a peça resulte. Mas aparentemente esse método pode desviar os holofotes de Riggan; que agora para além de ter de lutar contra si próprio, tem de lutar também contra Mike para ser divinizado pela crítica e assim reconstruir a sua carreira sob bases firmes, porque caso seja contestado pela crítica pode ser o fim da sua carreira!
Michael Keaton e Edward Norton desempenham muito bem os seus papéis e sem dúvida que mereceram as nomeações (não ganharam por mérito dos outros nomeados, nunca por desmérito deles). Um facto curioso é que a ficção mistura-se com a realidade: Michael Keaton não interpretava um personagem de forma tão magistral e tão importante desde 1992, momento em que a sua carreira entrou em decadência; tem em Riggan o papel para recuperar os golden days da sua carreira - um bocadinho como o seu personagem. Emma Stone também se destaca no papel de Sam, a filha desequilibrada e carente de Riggan que sai da reabilitação. A miúda tem muita pinta e talento e uma interpretação positiva. Os actores tiveram uma dificuldade acrescida: o facto de as cenas serem sequenciais, de raramente haver cortes (ou se os há Alejandro torna-os invisíveis) dificulta o trabalho do actor.
Este filme é uma crítica. Uma crítica a Hollywood, uma crítica à indústria do entretenimento de forma global. E mais uma vez, centra-se na necessidade humana pela grandiosidade, pelas palmas quando as cortinas baixam, pela necessidade de sermos grandes e de sermos reconhecidos. Levanta questões importantes: Riggan e Mike fazem-no pela arte como o afirmam ou fazem-no por satisfação própria, para se tornarem imortais, pela fama? É uma sátira também aos críticos que julgam e desvalorizam os actores consagrados antes mesmo de ver o seu trabalho.
Concluindo, eu gostei da experiência de ver Birdman no nível técnico. A fotografia e a realização são brilhantes, são outside the box, são muito peculiares e eu adoro novas experiências. Birdman é, sem qualquer dúvida, uma incrível experiência cinematográfica. No entanto, não consegui criar nenhuma ligação emocional com o filme, não consegui sintonizar-me. Por isso digo que é antagónico: se por um lado gostei da parte técnica e da novidade e da ousadia, deixou a desejar em tudo o resto. E geralmente, eu valorizo "tudo o resto" um bocadinho mais.
P.S.: Fiquei muito contente por ver Alejandro levar o Óscar de Melhor Realizador, é o segundo mexicano da história a vencer o Óscar (o primeiro foi Alfonso Cuáron, o ano passado, com Gravity). Merece por ter sido arrojado e ter apresentado um trabalho consistente enquanto realizador e um trabalho inegavelmente bom. Mas não dava o Óscar de Melhor Filme a Birdman exactamente pelo que já disse: distingue-se principalmente pela forma como é filmado, pela montagem e pela fotografia (3 dos 4 óscares que ganhou) mas, apesar do elenco magnífico, não consegui criar empatia pelas personagens ou pelo filme em si. Foi um problema exclusivamente meu?
P.S. 2: Certamente já perceberam que o filme tem um segundo título: The Unexpected Virtue of Ignorance. Eu questionei-me imediatamente o porquê de ter um segundo título e tentei pesquisar. Não encontrei nenhuma explicação vinda directamente de Alejandro e portanto cada um pode interpretar como quiser esse acrescento; há quem defenda que é devido à crítica que Tabitha Dickinson faz da peça de teatro de Riggins. Trocando isto por miúdos: Riggins não pertence ao teatro, é um amador e para ela as características de um actor de cinema não são as cacterísticas ideiais para quem pretende trabalhar no teatro. Tabitha já viu muito teatro que não respeita as normas e a maioria foi uma má experiência. No entanto, Riggins surpreende-a e apresenta um trabalho agradável e consistente; é a inesperada virtude da ignorância.
Quanto a mim, eu tenho sentimentos extremamente antagónicos em relação a este filme; se por um lado acho que tem pontos brilhantes e um elenco muito sólido e extremamente bom, por outro sinto que não me consegui sintonizar com o filme na sua totalidade.
O filme é dirigido como se fosse uma peça de teatro, com poucas interrupções. A narração ocorre enquanto deambulamos com as personagens pelos corredores do teatro. É esse estilo que, para mim, faz com que Birdman se distinga de um filme normal.
Riggan (Michael Keaton) é um actor assombrado pela grandiosidade de Birdman, o herói que interpretou à 20 anos e que lhe deu prestígio, antes de entrar numa fase decadente. No entanto, Riggan tenta reerguer-se no teatro - porque o teatro dá prestígio - ao escrever, encenar e actuar numa peça. Esta peça serve não só para se reerguer mas também para calar a voz que o assombra: a voz de Birdman, ele próprio mas muitos anos antes. Para que a peça funcione é necessário que seja protagonizada por bons actores, é aqui que entra Mike (Edward Norton). Mike é o menino querido da Broadway, o preferido da crítica e chega com um método revolucionário para fazer com que a peça resulte. Mas aparentemente esse método pode desviar os holofotes de Riggan; que agora para além de ter de lutar contra si próprio, tem de lutar também contra Mike para ser divinizado pela crítica e assim reconstruir a sua carreira sob bases firmes, porque caso seja contestado pela crítica pode ser o fim da sua carreira!
Michael Keaton e Edward Norton desempenham muito bem os seus papéis e sem dúvida que mereceram as nomeações (não ganharam por mérito dos outros nomeados, nunca por desmérito deles). Um facto curioso é que a ficção mistura-se com a realidade: Michael Keaton não interpretava um personagem de forma tão magistral e tão importante desde 1992, momento em que a sua carreira entrou em decadência; tem em Riggan o papel para recuperar os golden days da sua carreira - um bocadinho como o seu personagem. Emma Stone também se destaca no papel de Sam, a filha desequilibrada e carente de Riggan que sai da reabilitação. A miúda tem muita pinta e talento e uma interpretação positiva. Os actores tiveram uma dificuldade acrescida: o facto de as cenas serem sequenciais, de raramente haver cortes (ou se os há Alejandro torna-os invisíveis) dificulta o trabalho do actor.
Este filme é uma crítica. Uma crítica a Hollywood, uma crítica à indústria do entretenimento de forma global. E mais uma vez, centra-se na necessidade humana pela grandiosidade, pelas palmas quando as cortinas baixam, pela necessidade de sermos grandes e de sermos reconhecidos. Levanta questões importantes: Riggan e Mike fazem-no pela arte como o afirmam ou fazem-no por satisfação própria, para se tornarem imortais, pela fama? É uma sátira também aos críticos que julgam e desvalorizam os actores consagrados antes mesmo de ver o seu trabalho.
Concluindo, eu gostei da experiência de ver Birdman no nível técnico. A fotografia e a realização são brilhantes, são outside the box, são muito peculiares e eu adoro novas experiências. Birdman é, sem qualquer dúvida, uma incrível experiência cinematográfica. No entanto, não consegui criar nenhuma ligação emocional com o filme, não consegui sintonizar-me. Por isso digo que é antagónico: se por um lado gostei da parte técnica e da novidade e da ousadia, deixou a desejar em tudo o resto. E geralmente, eu valorizo "tudo o resto" um bocadinho mais.
P.S.: Fiquei muito contente por ver Alejandro levar o Óscar de Melhor Realizador, é o segundo mexicano da história a vencer o Óscar (o primeiro foi Alfonso Cuáron, o ano passado, com Gravity). Merece por ter sido arrojado e ter apresentado um trabalho consistente enquanto realizador e um trabalho inegavelmente bom. Mas não dava o Óscar de Melhor Filme a Birdman exactamente pelo que já disse: distingue-se principalmente pela forma como é filmado, pela montagem e pela fotografia (3 dos 4 óscares que ganhou) mas, apesar do elenco magnífico, não consegui criar empatia pelas personagens ou pelo filme em si. Foi um problema exclusivamente meu?
P.S. 2: Certamente já perceberam que o filme tem um segundo título: The Unexpected Virtue of Ignorance. Eu questionei-me imediatamente o porquê de ter um segundo título e tentei pesquisar. Não encontrei nenhuma explicação vinda directamente de Alejandro e portanto cada um pode interpretar como quiser esse acrescento; há quem defenda que é devido à crítica que Tabitha Dickinson faz da peça de teatro de Riggins. Trocando isto por miúdos: Riggins não pertence ao teatro, é um amador e para ela as características de um actor de cinema não são as cacterísticas ideiais para quem pretende trabalhar no teatro. Tabitha já viu muito teatro que não respeita as normas e a maioria foi uma má experiência. No entanto, Riggins surpreende-a e apresenta um trabalho agradável e consistente; é a inesperada virtude da ignorância.
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