Mostrar mensagens com a etiqueta Época 2015/2016. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Época 2015/2016. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 17 de maio de 2016

Avalanches

Foto: O Lado V
Qualquer balanço que se possa fazer da época que terminou no passado sábado relativamente ao percurso da equipa A será, por certo, negativo. Há um provérbio português do qual eu não sou particular fã mas que me parece adequado à situação: quem nasce torto, tarde ou nunca se endireita. Faz sentido se devidamente adequado à situação do Vitória na época 2015/2016. A verdade é que o caminho, iniciado na Áustria para a Liga Europa, foi tortuoso e chegou mesmo a ser penoso ver a forma como a equipa se arrastava apática pelos relvados que pisava.

Ao longo da temporada fui dando a minha opinião sobre a situação do Vitória - sempre com a intenção de contribuir e nunca de estar contra ninguém pessoalmente - e abordei os problemas que me pareceram mais pertinentes. Em suma, o grande problema esteve sempre na época preparada em cima do joelho e numa aposta tímida na vertente desportiva. Tenho poucas (ou nenhumas) dúvidas disso.

Toda a época foi, figuradamente, uma espécie de avalanche. Uma avalanche ocorre quando uma massa de neve se movimenta de forma súbita e rápida até ao vale, acumulando mais massa de neve na descida. Arrasta com ela praticamente tudo aquilo que encontra pela frente. Pode ser causada por vários factores, sendo um deles a acção de ventos fortes. Devem estar a perguntar-se como é que um fenómeno extremo da natureza está relacionado com a época do Vitória. Eu explico mas é necessário que façam, como eu, o exercício de tentar estender o tempo de uma avalanche real ao tempo de uma época desportiva - ou seja, tudo vai ser mais moroso e nunca tão estrondoso como a realidade. Podemos desde já concluir que o vale é o fim da avalanche e, neste caso, o vale é o 10º lugar da tabela classificativa e a eliminação prematura das restantes competições. A causa - ou seja, os ventos fortes - é, como referi no parágrafo anterior, a época mal preparada. A massa de neve que a avalanche acumula na sua descida até ao vale são, basicamente, os problemas. De problemas tivemos a nossa dose e refiro apenas dois exemplos: o erro de casting Armando Evangelista e o erro de trazer para o Vitória um número elevado de emprestados. Sérgio Conceição foi a solução encontrada para tentar parar a avalanche (é impossível parar uma avalanche na realidade principalmente porque acontecem com demasiada rapidez, mas vamos imaginar que sim só por uns minutos) - uma acção imediata para tentar pará-la a meio do caminho; vamos supor que é uma espécie de uma placa gigante que impede a passagem da referida massa de neve. O problema é que acções imediatas raramente apagam os problemas de raiz. Resumidamente: a natureza é soberana! Por isso mesmo a placa cede, apesar de proporcionar janelas de bom tempo que dão esperança de que a tempestade já passou e que, apesar de todos os danos, vai amainar e trazer consigo o bom tempo. Eu tive esperança com o Sérgio Conceição e acreditei ser possível alcançar o mínimo dos objectivos. Não foi. A placa, que nunca esteve realmente ancorada, eventualmente cedeu com uma série de doze jogos sem vencer. Já sem esperança caiu com estrondo! Convém realçar, antes de prosseguir, que a placa cede em resultado de dois factores: em primeiro por causa da massa de neve, ou seja, todos os problemas e erros acumulados, mas também devido ao material da placa, isto é, devido ao trabalho de Sérgio Conceição. Julgo, no entanto, que o primeiro factor é mais responsável.

É desta forma que vejo a época do Vitória. Há, no entanto, diferenças inegáveis e evidentes entre uma avalanche e uma época desportiva de um clube de futebol, nomeadamente do Vitória: a avalanche não pode ser prevista e é uma manifestação espontânea da natureza. A minha comparação pode ser ligeiramente extrema, tola e ridícula mas para mim faz sentido - ao contrário do 10º lugar, que como já disse não condiz com a nossa história, o nosso ADN ou o nosso nome.

Como em tudo a avalanche é uma moeda de duas faces. Não quero que o Vitória faça um campeonato tranquilo! Geralmente a tranquilidade e sossego não são o caminho para o sucesso. O caminho para o sucesso é, salvo raras excepções, montanhoso e difícil. Uma avalanche pode ser, como descrevi anteriormente, desastrosa e um sinal de que as coisas estão más. O que a maioria das pessoas não sabe é que as avalanches são necessárias, vão ocorrer sempre e podem ser positivas - é um mecanismo que restaura o equilíbrio natural e assegurar uma posição mais durável e segura, uma vez que a tal massa de neve é expelida porque é um excesso, e pode até construir novos habitats. Pequenas avalanches podem também prevenir avalanches maiores. É a forma da natureza funcionar e criar harmonia. As avalanches do Vitória têm sido, infelizmente, mais destruidoras do que positivas. Por isso mesmo está na hora de mudar o cenário.

"Loucura é fazer sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes". Esta definição de loucura, atribuída a Einstein mas sem absoluta certeza de que teve origem no mesmo, é uma noção básica da vida. Para mudar o cenário é necessário mudar a preparação e as políticas e nunca esperar que estas se mudem sozinhas. Está na hora de restaurar o equilíbrio, voltar ao nosso curso e seguir a nossa história. Está na hora de ter o nosso Vitória de volta!

Já perdi a conta às vezes que me perguntaram "mas afinal o que é que tu ganhas por seres do Vitória?" ou "quando foi a última vez que festejaste o campeonato?". Naturalmente eu não respondo e não me deixo incomodar por perguntas ignorantes. Nem sequer me dou ao trabalho de responder ou tentar explicar o meu (nosso) amor a quem mede o amor pelo número de títulos ou jogos ganhos. Eles medem o amor deles porque é dependente de uma qualquer variável e é finito. O meu (nosso) não, portanto não o posso medir. É independente e pode até ser incompreensível para muitos. Principalmente para os que nos dias que correm vestem uma camisola que deixam no armário durante todo o ano ou para os que mudam de cor conforme o desfecho da época. É fácil apoiar certos clubes quando estes ganham, uma e outra vez, ou quando as televisões e jornais estão infestados com essas cores. Seria fácil pintar a cidade de vermelho, festejar até às 4 ou 5 horas da manhã, ir para as redes sociais declarar amor a um clube que está sempre a ganhar (não vamos discutir a legitimidade disso agora, mas dava panos para mangas). Seria fácil se Guimarães não fosse... Guimarães. O que vou dizer a seguir é um cliché, um chavão mas a maior das verdades. O melhor do mundo é amar o difícil. Amar o Vitória é, seguramente, difícil. No entanto é isso que fazemos. Não por imposição ou porque nascemos todos programados para tal mas porque o símbolo, onde se pode ver D. Afonso Henriques, nos apaixona. Cada vez mais. Avalanche atrás de avalanche - independentemente do quão destruidoras são!

P.S.: Não posso terminar sem deixar de dar os parabéns ao Rui Vitória pelo seu sucesso individual enquanto treinador. Um homem íntegro, com respeito por si e pelos seus adversários e um profissional cheio de qualidade. Nunca duvidei de nada disso!