terça-feira, 5 de julho de 2016

Espectadores do circo

Enquanto o leão não aprender a escrever,
o caçador vai ser sempre glorificado.
- Provérbio Africano


O que mais gosto no provérbio com que dou início a este post é que não é, de todo, sobre leões e caçadores. É sobre opressores e oprimidos. A sua origem remonta aos tempos de colonização em África. Se as antigas colónias não escrevessem sobre a colonização e as suas implicações, inclusive nas suas vidas diárias até ao dia de hoje, apenas conhecíamos a história dos colonizadores - e esses, provavelmente, diriam que estavam no seu direito de fazer o que fizeram e que o fizeram por bem. Se os escravos não tivessem escrito sobre as crueldade e desumanidade da escravatura, hoje só conheceríamos o ponto de vista dos esclavagistas - e estes iam defender apenas a sua posição, iam arranjar argumentos disparatados sobre como a cor inferioriza uns e superioriza outros, iam tentar justificar a desumanização dos seus actos. Imaginem que toda a literatura sobre o Holocausto era apenas escrita pelos nazis. Só teríamos uma única perspectiva de um dos períodos mais monstruosos da História. Sem a visão dos oprimidos, nunca poderíamos compreender totalmente um conflito e a tendência de perpetuar os mesmos ciclos de opressão era muito mais elevada.

Aparentemente este provérbio, assim como o parágrafo anterior, não tem relação nenhuma com o Vitória. Podem achar que nada do que escrevi até agora faz sentido, mas se fizermos o exercício de o aplicarmos a um contexto muito menos violento, muito mais diplomático, menos literal e com menos importância na história mundial e na sociologia acaba por fazer sentido. Opressores e oprimidos. Acho que já perceberam onde quero chegar. O futebol português é feito, de certa forma, de opressores e oprimidos. Claro que a uma escala muito, muito menor relativamente aos eventos da História a que faço referência inicialmente. Não tem, sequer, comparação e não estou a tentar comparar o futebol português ao Holocausto! A ideia fundamental é que, como em todas as histórias de opressores e oprimidos, há um sistema baseado na diferença, no poder e no dinheiro. O futebol português é, cada vez mais, assim. Olha-se para a tabela classificativa como se fossem 3 + os outros. Infelizmente esta visão redutora da liga é partilhada pelos órgãos oficiais que regulam o futebol em Portugal, pela comunicação social e até mesmo pelos presidentes dos "outros" que continuam a prestar subserviência perante os do costume.

O futebol português está sujo, corrompido, nojento e completamente manipulado para facilitar a vida a três, e nem preciso de fazer referência a nomes, e para prejudicar a vida dos restantes.  A arbitragem sectária, a disciplina que consagra uns como filhos e outros como enteados, os sorteios estranhos, as regras sem cabimento que não conhecem igualdade, as capas de jornais sempre dedicadas aos mesmos, o tempo de antena oferecido a uns e roubado a outros. Tudo isso, e tudo o resto a que não faço referência, é vergonhoso. É uma autêntica burla a todos nós, ingénuos espectadores deste circo, e uma descarada falta à verdade desportiva e aos princípios de igualdade e ética. Uma burla grave a todos nós que pagamos quotas, cadeira, bilhetes para jogos em casa e fora, gastámos dinheiro em viagens e muitos de nós poupam para o fazer, faltamos a compromissos porque "hoje não dá, joga o Vitória", gerimos o nosso tempo em função dos jogos, passámos frio e apanhámos chuva ou então passamos por um calor abrasador e um sol que não dá tréguas, conforme estiver o tempo - isso é só um pormenor quando comparado com a dimensão do nosso amor. Isto não é uma queixa, de forma absolutamente nenhuma e acho que agora posso escrever em plural, calculo que sentimos todos o mesmo. Se assim não é, peço desculpa antecipadamente. Fazemos o que fazemos com gosto e falamos disso com os olhos a brilhar de orgulho, a paixão e o amor a fervilhar e a moldar a voz. Sacámos do cartão de associado e contamos mil histórias em cinco minutos, e nem assim dizemos tudo o que queríamos dizer. Às vezes a voz mal se ouve, seja pela emoção ou porque estamos roucos por causa do último jogo em que gritamos até não dar mais - e dá sempre mais - ou porque ficámos doentes (ou uma mistura de tudo isso). Acontece e faz parte, ninguém se queixa. Até nos vangloriamos disso. Os outros que não ficam assim não têm as nossas histórias nem fazem história porque não saem do sofá e, todos sabemos, não entendem o amor verdadeiro a um símbolo porque passam a vida no sofá a escolher o clube por quem vão torcer na próxima época porque naturalmente isso depende do que dizem os jornais, as redes sociais, os outros e se o clube ganha ou não títulos.

Quem é o culpado desta burla? A culpa do crime tem de recair no criminoso, naturalmente. A culpa é de quem toma as decisões, quem manda e pode. Esses sabemos quem são e pouco ou nada podemos fazer, enquanto espectadores, para mudar isso. No entanto não são os únicos culpados. Quem é cúmplice também é criminoso, quem acena a cabeça em sinal de concordância também falta à verdade, quem não age contra também está contaminado, quem sabe e não abre a boca para se revoltar não está a agir em conformidade. Falar contra o e quem está mal pode trazer dissabores, críticas menos favoráveis e consequências amargas. No entanto a revolta tem o poder de mudar as coisas, de alterar o futuro e de fazer a diferença. A conformidade e o silêncio são, desde sempre, os maiores inimigos do progresso. A História ensina-nos isso. Se bem que o silêncio possa ser uma decisão sensata de vez em quando nunca é sensato fazê-lo quando isso nos prejudica, quando é um sinal de obediência, cabeça baixa sobre os narizes empinados. Quando o silêncio é perante aqueles que nos tiram os nossos direitos e perante quem já mostrou não ter princípios, então o silêncio nada mais é do que um sinal de cobardia e de falta de liderança. Nesses casos, o silêncio legitima o criminoso, dá-lhe o à-vontade necessário para continuar a agir da mesma forma, legitima o fosso de desigualdades, legitima o crime, a burla. De vez em quando, e sempre que necessário, é preciso dar um murro na mesa. Infelizmente há muito tempo que, no Vitória, ninguém dá um murro na mesa. Por isso o Vitória continua à procura das migalhas, à espera que elas caiam da mesa dos adultos onde ainda não se pode sentar porque os outros não deixam. Precisamos de reclamar o nosso lugar de uma vez por todas. O silêncio e o comodismo à falta de verdade desportiva já nos roubou muito, muitos pontos, o respeito de alguns meios de comunicação e acredito mesmo que já nos possa ter custado o campeonato.

Embora o Vitória seja o único clube com o qual me importo, reconheço que neste assunto nenhum dos "outros", inclusive nós, pode ser uma ilha desligada das outras ilhas. Devemos ser, antes, um arquipélago na luta pela verdade desportiva, pelo tratamento igual e pelos nossos direitos. No caso do Vitória, como já disse o único que realmente me importa, não vejo iniciativa para mudar o panorama, para progredir. Apenas silêncio, por vezes interrompido por um comunicado vago e pouco específico e que, no final, costuma servir para tapar o sol com a peneira. Um clube que tem como figura máxima um líder e um conquistador, D. Afonso Henriques, tem de ser o primeiro a iniciar uma revolução, uma mudança e a liderá-la com convicção e certeza, pronto a enfrentar o que encontrar no caminho. Com um povo que não se cala nas bancadas, jogo após jogo, época após época, em jogos ou em treinos, dentro do estádio ou fora, no berço ou noutro estádio, e quem nos representa tem de perceber que o silêncio não é aceitável nem deve ser sequer uma opção. A subserviência aos outros é uma admissão de que o tratamento diferente tem uma base legítima e sólida quando, na verdade, não tem, é uma admissão de que uns são menos e os "escolhidos" são mais apenas porque têm mais dinheiro e poder. E porque é que têm mais dinheiro e poder? Por causa deste ciclo vicioso, de tirar aos que pouco têm para dar aos que têm a mais. No fundo, quase uma reflexão do país em que vivemos.

O maior erro que esta direcção cometeu até agora foi, na minha opinião (e esta vale o que vale), o silêncio em diversas situações e que continua a coagir com este crime sem precedentes protagonizado pela imprensa, liga, federação. Os direitos devem ser para todos de igual forma. Quem representa um clube da dimensão do Vitória não pode calar-se na iminência da injustiça com medo de represálias. Se fosse essa a nossa história, hoje seríamos espanhóis. Não somos! A única opção de saída deste ciclo vicioso é o de contar a história, falar, dialogar, protestar, revolucionar, mudar o curso. Quando os sistemas não funcionam, é necessário alguém com coragem para tomar medidas disruptoras e para alterar o panorama, parar este ciclo vicioso que não faz sentido e cansa todos os que, como eu, gostam e contribuem para o crescimento do meu clube, o clube da cidade que me viu crescer e que constituí a base do meu crescimento, que apoia o clube da terra sem prestar atenção aos parolismos e estarolismos que poluem o futebol em Portugal. Cansa-me ver este ciclo continuar sem que os prejudicados se revoltem e reclamem os seus direitos. Precisamos de coragem. O Vitória e o futebol português em geral precisam de coragem. Coragem para mudar o que está estático à tantos anos e que tão mal tem feito aos estádios e aos clubes que não são os supostos "grandes". O leão sabe escrever mas infelizmente ainda não aprendeu a contar uma história diferente da dos caçadores.

Cinquenta livros por ano

Stuttgart City Library, Germany
Queria ser como o Bill Gates e ler cinquenta livros por ano. Seguir os exemplos de um homem assim só pode ter resultados positivos. É um dos meus objectivos a longo prazo. Não pelo número, porque não é o mais importante, mas sim porque mais livros significa mais conhecimento. É uma das coisas que gosto mais de fazer. Sentar-me num sítio confortável e ter o meu livro como companhia. Ou então tirar o livro da mala nos lugares menos confortáveis e transportar-me para outro sítio bem mais interessante. Os livros são escritos para fazer a nossa vida melhor. Desde o início do ano li 12. Estou a ler o décimo terceiro, é o The Godfather de Mario Puzo. Não vou chegar aos cinquenta este ano, mas um ano destes vou conseguir.

terça-feira, 28 de junho de 2016

A união faz a força

Foto: O Lado V
Acho que não é novidade nenhuma o que hoje escrevo. A união é um dos elementos fundamentais para o sucesso. Cada vez temos mais exemplos disso no futebol. Recentemente vimos o Chile ganhar a final da Copa América a uma Argentina com nomes mais sonantes. Ontem vimos, com alguma surpresa, a Islândia vencer a Inglaterra e passar aos quartos-de-final do Europeu. Vimos, na mesma competição, a Itália que muitos descreveram antes do início do Europeu como ter "a pior selecção da sua história" vencer à selecção espanhola, bi-campeã europeia. Se estas vitórias acontecem, e ainda bem que sim, é por haver muito trabalho e muita dedicação mas também porque entram em campo unidas, sem medo. São "mais equipa".

Ser equipa não é só juntar uns quantos jogadores e treiná-los. Exige muito mais trabalho e esforço do que isso. Uma equipa de verdade tem de ser coesa e entrosada, dentro e fora de campo. Para que seja eficaz, a coesão e o entrosamento tem de se estender a toda a estrutura - jogadores, equipa técnica, staff e administração porque no fim do dia o trabalho de uns depende, em parte, do trabalho dos outros. Todos os que estão a bordo têm de estar cientes dos objectivos que se pretendem alcançar a curto, médio e longo prazo, têm de saber a história do símbolo que representam, têm de entender os detalhes, as particularidades. Nenhum barco afunda por causa da água que o rodeia mas sim pela água que entra dentro dele.

Num caso tão particular e único como é o Vitória não basta haver uma união apenas entre os jogadores, equipa técnica, staff e administração porque o Vitória é muito, muito mais do que qualquer nome passageiro. É preciso que a união seja também com as bancadas, com quem apoia incessantemente, com quem marca presença esteja bom ou mau tempo, com o 12º jogador. Somos parte da equipa, parte da identidade, parte da essência que nos torna únicos. Estamos sempre presentes, prontos para defender o símbolo contra quem o ataque, sempre a trabalhar para e pelo Vitória - vejam-se as opiniões, textos e demonstrações de apoio que continuam com a mesma intensidade até quando o campeonato está parado. Somos a maior força do Vitória, a força propulsora. Por isso, sejam os tempos fáceis ou difíceis, temos de estar a bordo! Todos!

O mais importante de sermos uma equipa e agirmos todos como tal é que as equipas preocupam-se em primeiro lugar com o símbolo que está ao peito, só depois se preocupam com o nome estampado atrás. As críticas construtivas e as discussões são em prol do progresso, o trabalho dos jogadores e equipa técnica deve ser em prol de bons resultados, o trabalho da administração deve ser em prol de defender e manter o Vitória num caminho saudável e vitorioso. Tudo tem de ser feito em prol de um Vitória de sucesso, um Vitória ainda maior, um Vitória desportivamente competitivo e financeiramente estável. O nosso Vitória!

No fim da época que se inicia em breve espero que possamos ser capazes de olhar para trás e conectar todos os pontos. Espero que nos últimos 90 minutos possamos entender que valeu a pena todos os momentos em que nos foi pedida paciência, todos os momentos em que a frustração era tanta e quase deitamos a toalha ao chão. Desta vez tem de valer a pena! Está finalmente na altura de uma época de sucesso, de vitórias, de conquistas. Desta vez temos de honrar o nosso nome e a nossa história!

segunda-feira, 27 de junho de 2016

À magia do futebol

Vivemos numa altura em que é ingénuo (e uma demonstração clara de arrogância) dividir os campeonatos e as competições em equipas difíceis ou fáceis, subestimar certas equipas que aparentemente não são favoritas. As equipas que anteriormente eram consideradas fracas e acessíveis já não querem ser o bombo da festa. Fartaram-se! Agora preparam-se, trabalham muito, entram em campo com atitude, unidas, organizadas e com uma ideia clara de jogo. Entram a olhar o adversário nos olhos, sem medos. Não interessa quem é, sabem que estão onze de cada lado e tudo é possível. São vitórias merecidas e alcançadas pela superioridade e pela qualidade dentro das quatro linhas.
Nos últimos tempos os amantes de futebol têm sido presenteados com estas surpresas. O futebol, todos sabemos, proporcionou-nos histórias incríveis ao longo dos anos e continua a fazê-lo. É parte da magia. Histórias de superação, de recompensa pelo trabalho árduo.
Hoje foi mais uma dessas histórias. A Islândia eliminou a Inglaterra e, na sua primeira presença no Europeu, fazem história. Um país com cerca de 330 000 habitantes está a fazer frente a todas as selecções que encontra pelo caminho. Um percurso bonito e que ainda não acabou!
No final festejaram todos juntos, num momento de grande cumplicidade entre os jogadores, equipa técnica, staff e os adeptos. Uns no relvado, outros na bancada. Todos com as mãos no ar e a gritar em uníssono. Arrepiante! Não sei até onde vão chegar. Sei que hoje estou agradecida pelos bons momentos que me proporcionaram. Foi bonito, tão bonito!
Parabéns Islândia. Acho que todos vemos futebol também porque esperamos assistir a momentos destes: em que se escreve história e que nos fazem acreditar que tudo é possível. Se fosse sempre tudo conforme as previsões e os favoritismos não éramos tão apaixonados por esta modalidade. Por isso obrigada!

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Liberdade de expressão


Há quem diga que "a nossa liberdade acaba onde começa a do outro". Uma frase feita repetida constantemente quando se fala de liberdade de expressão. Entendo a intenção de quem a diz mas nunca consegui concordar inteiramente por um simples motivo: impõe um limite à liberdade, "a liberdade acaba". Não, a liberdade não tem um fim. Se tem um fim ou se é limitada então não é realmente liberdade. É liberdade... condicionada. Não é liberdade!

Isto não significa que se pode dizer tudo e mais alguma coisa. Não significa que possamos dizer um chorrilho de disparates sempre que nos apeteça. Não significa que as pessoas não sejam responsáveis pelo que dizem. Não significa que não temos de ter provas quando acusámos alguém. Eu começo a achar que muitas pessoas julgam que liberdade de expressão é o direito de dizer qualquer coisa sem nenhuma responsabilidade sobre o que dizem. Alegam sempre a liberdade de expressão aqueles que falam sem saber o que falam e que julgam que as palavras são só e apenas uma combinação fortuita de letras.

Liberdade de expressão não é nada disso é triste saber que ainda há muita gente que julga que sim. Basta olhar para as presidenciais dos EUA e ouvir durante cinco minutos o Trump. Basta ler uma notícia de um dos jornais mais vendidos em Portugal. Podia citar muitos mais casos mas não me vou dar ao trabalho. Não perceber um conceito tão básico e importante como o de liberdade de expressão só tem uma única explicação: ignorância. Nada mais. E há tantos ignorantes por aí.

A liberdade tem de ser, obrigatoriamente, acompanhada pelo respeito. Respeito pelos outros e por nós próprios. Só depois de se entender plenamente o que é o respeito é que se poderá perceber o que é a liberdade de expressão. São dois conceitos inseparáveis e com os quais temos e devemos viver. Já chega de dar tempo de antena a quem não os entende e principalmente não quer entender.

terça-feira, 21 de junho de 2016

2022

Foto: Vitória Sport Clube
Em 2022 o Vitória completará cem anos. Um século. Não é um número irrisório, muito pelo contrário. É um número redondo e um número bonito. Ainda faltam seis anos para comemorar o centenário e até lá é certo que muitas coisas, boas e más, vão acontecer. Hoje vou aproveitar-me de uma pergunta que o Carlos Ribeiro, da rádio Fundação, fez ao Júlio Mendes quando o entrevistou: o que será o Vitória em 2022? Não tenho qualquer pretensão de adivinhar o futuro mas não posso deixar de pensar no que eu quero para o Vitória daqui a 6 anos.

Em 2016 o Vitória é um clube frágil. Esta fragilidade é o resultado, em grande parte, de anos de má gestão financeira. Em nome da recuperação e de continuar com "as portas abertas" várias alterações tiveram de ser feitas. O plano desportivo foi relegado em detrimento da recuperação financeira e hoje parece não haver ainda um projecto desportivo a longo prazo. Apesar de tudo isto, nos últimos anos tivemos também momentos muito positivos no futebol vitoriano, a começar por aquela que é talvez a página mais bonita de toda a nossa história - falo, como é óbvio, da conquista da Taça de Portugal - mas também da aposta (ganha) nos jogadores da formação, uma medida necessária mas que teve um resultado muito positiva, e acabou por ser um exemplo para muitas equipas portuguesas. Na formação não posso deixar de referir o campeonato nacional conquistado pelos juvenis na época 2014/2015 e que é mais um indicador, de muitos, de que o Vitória é uma óptima escola.

No entanto, o Vitória que vemos hoje, muitas vezes apático, adormecido e silencioso, não é aquele que gostaríamos de ver. Muitas vezes nem parece o nosso Vitória, com a identidade conquistadora herdada de D. Afonso Henriques, com ambição, garra e uma vontade incontestável de vencer! O Vitória de hoje parece ser um Vitória de conformado - "não foi uma época boa, mas ganhámos a Taça de Portugal em 2013" -, resignado e que aceita qualquer coisa que aconteça. A nossa história não é essa. A nossa história diz que somos nós, e mais ninguém, a construir a nossa história. Não deixamos que o façam por nós, nem aceitamos tal coisa. Tal como D. Afonso Henriques, que orgulhosamente ostentamos ao peito, conquistámos aquilo que queremos conquistar e aniquilámos as adversidades, fáceis ou difíceis. Esse é, e acredito que estejam de acordo comigo, o nosso Vitória.

É esse o Vitória que quero sempre e é esse o Vitória que quero em 2022. Um Vitória vencedor, capaz, forte e seguro de si. Até 2022 quero que este monstro adormecido acorde. Continuar no caminho silencioso de hoje não é opção se queremos estar na frente da batalha do futebol português e se queremos ser fortes na Europa. É esse o lugar do Vitória, estar na frente não deve ser um objectivo mas sim a realidade. Chamem-me sonhadora, mas até 2022 quero o Vitória campeão. Sim, campeão. Numa liga comprada e nojenta, como a nossa, é um objectivo difícil e tendo em conta a nossa situação actual poderá parecer, principalmente a quem está de fora, um objectivo impossível mas não é. Deve ser um objectivo real de um clube como o Vitória.

Em 2022 quero o Vitória desperto, vivo, emocionante, apaixonante. Quero ver o estádio cheio, as cadeiras sempre ocupadas por pessoas que gostam tanto do Vitória quanto eu, quero ver o Vitória fazer frente aos que por aí andam intocáveis todos os dias, quero ver o Vitória seguro de si, capaz de surpreender. Quero a nossa unicidade e autenticidade presente, quero que a vejam. Quero ver cada jogador a envergar a branquinha apaixonado e com a mesma vontade que eu tenho de carregar um símbolo tão especial como o nosso para sempre. Quero o inferno branco de volta. Quero que os adversários tremam de medo quando chega o dia de jogar em Guimarães, quero ver-lhes as pernas a tremer e as mãos suadas porque sabem que aqui não é como lá, aqui a paixão sufoca e é avassaladora.

Não basta dizer que queremos este Vitória em 2022, é preciso concretizar através de medidas concretas e reais. Medidas em prol do sucesso. O Vitória tem tudo para ser tudo o Vitória dos nossos sonhos. Só falta serem tomadas as medidas certas e em prol destes objectivos. Quando se está no Vitória, os objectivos não podem ser pequenos pela simples razão de que o Vitória não é pequeno. Não é difícil ver a grandeza do Vitória quando se anda pelas bancadas do estádio, o nosso ou outros, quando se encontra um vitoriano fora de Portugal, quando perguntamos a um vitoriano o que é o Vitória. Quando a nossa grandeza em campo for igual à nossa grandeza na bancada e ao amor dos vitorianos, então vai ser difícil alguém fazer-nos frente. O objectivo é ser o melhor que podemos ser e nenhum objectivo é grande demais quando comparados à dimensão do Vitória!

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Génio Ronaldo

Sejamos coerentes. Para criticar e/ou elogiar é necessário haver sempre alguma ponderação e coerência. Naturalmente que num desporto tão apaixonante como o futebol vão haver sempre comentários de cabeça quente, comentários do momento e coisas ditas sem pensar. Acontece a toda a gente. O que não pode acontecer é viver permanentemente com memória curta e/ou selectiva.
Ontem o Ronaldo falhou um penalti. O guarda-redes não o defendeu nem a relva teve culpa da trajectória da bola. A culpa foi única e exclusivamente do Ronaldo! Eu sei isso, tu sabes isso e eu tenho a certeza de que ele também sabe disso e provavelmente sabe-o melhor do que ninguém.
No entanto nunca, em momento algum, podemos culpar apenas um jogador pelo empate (ou pela perda de dois pontos) de uma equipa. Não estou a dizer que o Ronaldo está imune da culpa do resultado de ontem. O que eu estou a dizer é que o Ronaldo tem a mesma culpa de todos os outros jogadores. Num jogo colectivo é ingénuo imputar a culpa apenas num "bode expiatório". Não é correcto nem faz sentido. Num jogo colectivo, como é o futebol, a culpa é dividida entre todos os intervenientes e a grande maioria dos comentários que leio culpam apenas o Ronaldo.
Talvez estes críticos, sempre tão ávidos e prontos a atacar, não vejam as estatísticas, não tenham interesse em vê-las ou desviem os olhos quando lhes são apresentadas porque afinal o Ronaldo é "egoísta", "só quer marcar lá no clube dele", "só quer saber da imagem e de selfies" e é "arrogante". Vou ser breve e deixar aqui apenas três comentários que são "só" fundados em estatísticas e factos:
- Há uma imagem a circular na Internet que compara o número de remates do Cristiano Ronaldo com os remates de outras equipas do Europeu, como por exemplo a Itália ou a Islândia. O curioso é que o Ronaldo soma mais remates do que essas equipas (nove equipas, para ser precisa). Para terem uma ideia: o Ronaldo soma 20 remates, a Itália 19 e a Suécia 11. Eu sei, os remates não dão pontos mas não deixa de ser uma estatística muito interessante.
- Durante toda a sua carreira, o Ronaldo falhou apenas 19 penalties das 110 oportunidades que teve. Isto significa que concretizou com sucesso 91. Na selecção falhou no total 4 (quatro) penalties. Para quem diz que ele só se interessa em marcar os penalties nas equipas em que joga... andam muito mal informados.
- Tornou-se ontem no jogador português com mais internacionalizações (128). São mais jogos nas pernas só pela selecção nacional do que estes os críticos provavelmente têm na vida inteira. Jogou com lágrimas nos olhos quando o pai morreu (e só quem sabe o que é perder o pai pode imaginar o quanto isso dói), jogou quando todos estavam contra ele, jogou quando estava lesionado e é visível que veste com orgulho a nossa camisola. É o melhor marcador de sempre da selecção nacional com um total de 58 golos - ainda não acabou a carreira e é provável que deixe este recorde num patamar tão alto que vão passar anos até alguém ficar perto de bater esse recorde. Nunca viu um cartão vermelho na selecção, nem por acumulação de amarelos, nem em jogos oficiais, nem em amigáveis.
A isto podia juntar histórias que só demonstram a força, a qualidade, a humildade e a as particularidades únicas do génio do futebol Cristiano Ronaldo. Não o vou fazer, quem prefere ver com palas nos olhos nunca entenderia tudo.
O Ronaldo não está, tal como os outros jogadores, imune a críticas. Bateu mal o penalti ontem, falhou. Reconheço e critico quando tenho de criticar mas tento ser coerente, justa, realista e não me esqueço de que, apesar de por vezes não parecer, o Ronaldo é humano e tem o direito de falhar e de ter fases menos boas. Os comentários que leio e ouço são provavelmente de quem não conhece a sua história nem a sua carreira. São comentários que destilam ódio e inveja pelo sucesso alheio. Quem o critica gratuitamente certamente não tem a menor ideia do que este miúdo, que nasceu pobre e com poucos recursos se fez um futebolista e profissional de excelência e ganhou tudo o que hoje tem, já deu à selecção portuguesa, ao futebol português e a Portugal. Não me esqueço quando conquista a Champions pelo Real Madrid, não me esqueço quando ganha outra bola de ouro ou outro troféu individual, não me esqueço quando o vejo elogiado por todo o mundo e só se for hipócrita me vou esquecer quando falha um penalti ou quando faz um jogo menos bom (e não acho que fez um jogo péssimo ontem).
Não é a hora adequada para comentários incendiários que em nada ajudam. As criticas são boas quando construtivas e são essas que devem surgir agora. O caminho está difícil, e ficou mais difícil ontem, mas ainda não é impossível. Por isso, e enquanto não for, eu vou acreditar. Vou acreditar e vou apoiar. FORÇA PORTUGAL!

terça-feira, 14 de junho de 2016

Uma identidade que não podemos perder

Foto: O Lado V
Todos temos consciência de que ser vitoriano não é ser iguais a todos os outros. Há uma identidade e uma cultura com contornos especiais que nos diferencia dos restantes. Tenho consciência de que sou suspeita para o dizer mas é difícil negar, mesmo a quem está de fora, que eu estou certa. Preservar a nossa cultura e identidade, com contornos tão particulares, bem como transmiti-la a qualquer pessoa que represente este símbolo é fundamental para o nosso sucesso.

A nossa identidade nasce dos princípios de independência e de conquista. Da mesma forma que nasceu Portugal. Com muita luta mas sempre com a mesma vontade de vencer e de crescer, de elevar o nosso nome ao mais alto nível. Claro que tudo isto não passam de palavras e palavras não entram em campo, não marcam e não ganham títulos. São só isso mesmo: palavras. No entanto estas que hoje escrevo transmitem uma verdade difícil de negar e que mesmo para aqueles que não entendem e são apenas espectadores de tamanha paixão e amor é praticamente inegável.

A identidade de que falo é o que faz atletas, que não são atletas do Vitória, como o João Sousa ou o Pedro Meireles terem sempre o símbolo presente em qualquer parte do mundo. É o que faz com que os ex-atletas do Vitória lembrem com carinho os tempos em que o foram, não se esqueçam do quão especial é ter a camisola do Rei ao peito e falem com um brilho inconfundível nos olhos, anos depois, dos adeptos e da instituição vitoriana. É o que faz com que estes ex-atletas levantem bem alto o nosso símbolo quando ganham um troféu por outro clube. É o que faz com que tenhamos a necessidade de viajar com pelo menos um cachecol ou uma camisola do Vitória na mala de viagem para o outro lado do mundo se for preciso. É o que nos faz oferecer um cachecol com todo o amor do mundo a quem conhecemos quando viajamos, com a consciência da importância daquilo que para outros é apenas um pedaço de tecido mas que para nós é muito mais do que isso.

Já vi, mais vezes do que desejado, a nossa identidade ser negligenciada ou a ser relegada para segundo plano através de políticas e politiquices que em nada representam o Vitória. Talvez se todos os parâmetros que definem a época forem definidos de acordo com a nossa identidade e a nossa cultura, possamos chegar então ao sítio que queremos - o de transformar o Vitória num clube vencedor em todas as competições onde participa.

A poucas horas da selecção portuguesa iniciar a sua caminhada no Europeu, e para terminar, tenho de deixar uma última nota. Conto que todos os que entrem em campo e entoem A Portuguesa antes do início do jogo possam ter o espírito conquistador de que falo como D. Afonso Henriques tinha. De um lado o escudo para defender e proteger e do outro a espada para atacar e lutar.

quarta-feira, 8 de junho de 2016

A contar os dias como uma criança

Falta um mês e os meus meninos têm dado concertos incríveis por essa Europa fora com uma set list naturalmente guiada pelo novo álbum mas que honra os clássicos. Desde Idioteque a Creep, passando por No Surprises (e já não tocavam as duas últimas desde 2009). Com a certeza de que vai ser um concerto memorável em Lisboa já começo a contar os dias como uma criança conta os dias para receber os presentes no Natal. Não há remédio para mim, em muitos aspectos vou ser sempre uma criança. Por exemplo nestas ocasiões, quando falta muito pouco tempo para ver uma das minhas bandas favoritas e que me acompanha há muitos, muitos anos e que também me fez ser quem hoje sou. A vida devia ser sempre feita disto!

(Malta que vai a festivais de Verão, nomeadamente ao NOS Alive, e tiver algumas dicas práticas sobre o assunto pode deixá-las nos comentários que eu fico muito, muito agradecida!)