quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

O verbo amar

Já devia ter escrito isto antes, porque dizem que quando passa o dia, passa a romaria. Se não é assim, é parecido. Mas também dizem que é melhor tarde do que nunca. Portanto ainda é altura de me pronunciar.
No sábado passado fui ao Estádio do Bessa apoiar o meu amor do coração naquela que foi a deslocação mais cansativa de sempre (e eu já tenho algumas na conta). O futebol não foi o melhor, e ao intervalo o cenário estava mau. Não podíamos sofrer outra derrota, porque neste momento os pontos são mais do que meros pontos que nos dão uma classificação na tabela. Nem os tantos vitorianos que lá estavam presentes mereciam (mais) uma derrota.
Jogar com o Boavista é sempre especial por toda a tradição e história que os clubes carregam. Este jogo não foi excepção e apesar do pobre futebol e fruto das campanhas menos "ricas" que os clubes estão a fazer as emoções estiveram sempre à flor da pele. Pelo menos as minhas, eu que não consigo sentir o Vitória com menos intensidade quando as coisas correm menos bem. Sou assim, somos assim.
Por sermos assim e pelas nossas características tão únicas, acredito que somos a única massa associativa do país capaz de fazer uma deslocação destas. Por uma deslocação destas entenda-se: uma viagem de comboio Guimarães - Campanhã (que saiu de Guimarães por volta das 14 horas), depois uma viagem no metro (em estilo sardinhas enlatadas) até à Avenida da Boavista. Para chegar da Avenida da Boavista até ao estádio percorrer cerca de 3km a pé (segundo o Google Maps) que pareceram 10km porque parámos de 3 em 3 minutos (acreditem que não estou a exagerar). Mas tenho de admitir que apesar de ser muito chato estar sempre a parar soube muitíssimo bem gritar pelo Vitória no meio da cidade do Porto e ver pessoas sair dos cafés, lojas e casas (e também da Casa da Música) para nos ver passar e filmar, soube muito bem ao longo do caminho e das janelas (inclusive perto do estádio do Boavista) gritarem pelo Vitória e desejarem "Força" e "Boa sorte" - acredito que não sejam vitorianos, mas acredito que gostem de nós, aliás, perante tamanha manifestação de amor é impossível não gostar e soube bem ver todos os turistas que passeavam naqueles autocarros turísticos festejar connosco e a aplaudir-nos e a filmar-nos (devem ter ido para os países deles a pensar que nós tínhamos ganho a Champions League cá da zona). Tudo isto para chegar ao Estádio e apoiar ininterruptamente e de forma soberba (como só nós conseguimos fazer) durante mais de 90 minutos. Depois fazer a viagem de regresso a Guimarães, claro. Mais uns bons 3 ou 4 km para apanhar o metro e regressar à estação da Campanhã para apanhar o comboio das 21 horas para fazer a viagem de regresso a pé (para a maioria dos adeptos, eu incluída) onde a palavra mais ouvida era "jantar" para chegar ao Berço por volta das 22h40m. (De realçar que esta deslocação ocorreu sem nenhum incidente, tomem nota "grandes")
Sim, definitivamente somos os únicos capaz de o fazer. Fizemos e voltaríamos a fazer apesar de no final as nossas pernas já nem nos quererem responder tamanho é o cansaço (e o frio). Fazemos porque acreditamos no Vitória e porque sabemos que o Vitória é nosso. É nosso e há-de ser. Porque ninguém consegue tomar melhor conta dele. Afinal, devemos cuidar de quem amamos e como uma vez li em algum lado o segundo verbo que mais conjugamos é sofrer. O primeiro é, sem dúvida, amar!
O vídeo que não consigo anexar (e que não é meu) está aqui.

sábado, 14 de novembro de 2015

Nous sommes avec vous

Acordei com um sentimento de revolta a pensar que talvez tudo tivesse sido um pesadelo e nada disto tivesse acontecido. Infelizmente aconteceu. A França está de luto e nós também, pelas vidas inocentes que ontem foram roubadas em nome do poder a todos os custos e sem meias medidas. O ataque de ontem é repugnante, é triste e desolador. Tudo a acontecer aqui tão perto. Em dias destes o pior do ser humano tem destaque. Não consigo ainda conceber esta ideia de Paris em silêncio e com as luzes apagadas. Não consigo entender que alguém tenha coragem de matar outro ser humano.
Hoje acordei com o coração apertado porque podia ser eu ou alguém que eu conhecesse. Em nome de quê? Com que objectivo? No fim, chegamos todos ao mesmo sítio. No fim a morte espera-nos a todos mas ninguém tem o direito de tirar a vida a ninguém. A todos os familiares das vítimas da noite de ontem as minhas sinceras condolências. La mort n'est rien

La mort n'est rien
Je suis simplement passé dans la pièce à côté.
Je suis moi. Tu es toi.
Ce que nous étions l'un pour l'autre, nous le sommes toujours.
Danne-moi le nom que tu m'a toujours donné.
Parle-moi comme tu l'as toujours fait.
N'emploie pas de ton différent.

Ne prends pas un air solennel ou triste-
Continue à rire de ces petites choses qui nous amusaint tant...
Vis. Souris. Pense à moi. Prie pour moi.
Que mon nom soit toujours prononcé à la maison comme
il l'a toujours été.
Sans emphase d'aucune sorte et sans trace d'ombre.

La vie signifie ce qu'elle a toujours signifié.
Elle reste ce qu'elle a toujours été. Le fil n'est pas coupé.
Pourquoi serais-je hors de ta pensée,
Simplement parce que je suis hors de ta vue?
Je t'attends. Je ne suis pas loin.
Juste de l'autre côté du chemin.
Tu vois, tout est bien.

La mort n'est rien - Henry Scott Holland

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Sétima Arte | Django Unchained

Há filmes. Depois há o Django. É óbvio que esta distinção merece ser feita. Senão vejamos: o filme é de Tarantino e no elenco temos os monstros Leonardo DiCaprio, Jammie Foxx, Christopher Waltz, Sammuel L Jackson e Kerry Washington. Podia nem acrescentar mais nada e acho que vocês já tinham percebido que é, com toda a certeza, um filme memorável. Quem ainda não viu pode até assustar-se com os 165 minutos de duração, parece muito tempo para um filme. E provavelmente seria, se não fosse de Tarantino.
Não vou dizer que é um filme que vai agradar unicamente aos admiradores e fãs de Tarantino, não. Seria injusto limitar assim uma obra-de-arte. Acredito que, mesmo para aqueles que não apreciam este tipo de filmes, seja um grande filme. No entanto, para os que apreciam o estilo tão singular de Tarantino (é impossível não identificar um dos seus filmes), este filme é bem capaz de os deixar em êxtase. Como me deixou a mim.
Não sei se sou a única a pensar assim, mas eu penso que Hollywood tem medo de tocar no tema da escravatura. Quando o faz é de forma muito sensível e sempre com a ideia de abolição e de liberdade presente. Não quero dizer que esteja mal, e eu entendo porque é um tema realmente sensível, mas isto leva-me a pensar que só Quentin Tarantino podia pegar num tema tão delicado e que facilmente é interpretado de 20 formas diferentes (nem sempre positivas) e fazer uma obra-de-arte que mistura acção, comédia e suspense como Django. Sim, há muitos momentos cómicos durante estas 2 horas e 45 minutos.
Já todos sabemos também que se há alguém que consegue transformar os actores na melhor versão de si próprios é, claramente, Tarantino. Voltou a fazê-lo. As interpretações são soberbas e é daquelas situações em que é impossível destacar alguém porque se o fizesse era uma injustiça para os restantes. Leonardo DiCaprio, no papel de Calvin Candie - proprietário da Candieland, uma plantação de algodão no racista Mississipi-, dá aquilo a que já nos habituou em todo os filmes que participa, uma interpretação inesquecível, onde vai de um desprezível menino bonito com demasiadas tendências racistas a ser um dos vilões mais épicos de Hollywood dos últimos anos; há uma cena memorável em que ele parte um copo e fica a sangrar, o que muita gente não sabe é que ele cortou mesmo a mão e sangrou de verdade, só que não quis parar e continuou a ser brilhante (what's not to love about this guy?). Jammie Foxx, o nosso Django, também não podia estar melhor na pele de um tímido escravo que depois de um fortuito encontro com Dr. Schultz, se torna no mais rápido pistoleiro do sul, mas sendo sempre um eterno apaixonado que faz tudo para recuperar a sua mulher, de quem o separaram - consegue ser cómico quando deseja, charmoso sempre que quer e detestável quando precisa. Não consigo esquecer os momentos em que tem de interpretar um esclavagista, o que para ele só é tolerável porque tem de recuperar Broomhilda. Christopher Waltz tem, para mim, no Dr. King Schultz, a interpretação da sua vida - um alemão, dentista sem exercer e caçador de prémios, que abomina a escravatura e que sente uma grande compaixão pela história de Django e Broomhilda, ao ponto de arriscar a sua vida para os ajudar a ficar juntos. É extremamente divertido e é impossível não gostar dele. Samuel L Jackson é o detestável Stephen, o fiel servo de Candie já de idade avançada e que é demoníaco - não conseguimos desenvolver nenhum carinho por este homem, bem pelo contrário. Tem uma interpretação perfeita, não tenho absolutamente nada a apontar! Kerry Washington cumpre muito bem o seu papel de Broomhilda, uma escrava que tem as suas marcas por todo o corpo e é dramática sempre que tem de o ser, sem exageros. 
Para além dos desempenhos brilhantes deste elenco de luxo, e para completar a obra-de-arte, há um argumento fabuloso com diálogos brutais e duros, mas também cómicos - acho que é por este dom que Tarentino consegue oferecer-nos o melhor dos seus actores. A banda sonora também merece um grande destaque, é como se fosse uma personagem porque é impossível imaginar o filme sem ela, mas tem um grave problema: é que acaba. A sério, mesmo que não queiram ver o filme (mas vejam!) ouçam com atenção a banda sonora porque é sublime.
Sem dúvida nenhuma, Django é um dos melhores filmes dos últimos anos e que nos consegue entreter com a maior das facilidades durante 2 horas e 45 minutos. Com a marca indelével de Tarantino, as interpretações perfeitas de um elenco maravilhoso, uma banda sonora de chorar porque acaba e um argumento de fazer inveja, temos horas garantidas de puro deleite e de uma experiência cinematográfica única. São estes filmes que me fazem ser fascinada por cinema e entender que quando um filme começa o meu mundo passa a ser esse e não o mundo real. Cinema é o que cada um quiser fazer dele, para mim é uma forma de escapar do mundo real e viver outras vidas. Django é cinema puro para ver, rever e voltar a ver e ficar cada vez mais maravilhado!

P.S.: Não, os óculos de sol ainda não existiam na altura, mas vá, vamos perdoar o nosso Tarantino porque o Jammie Foxx fica com um ar badass naqueles óculos pelos quais eu fiquei apaixonada.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Isto da coligação à esquerda ser legítima é uma anedota não é?

Eu já disse aqui que com facilidade me dão 15-0 numa conversa sobre política. É totalmente verdade. Ainda assim eu vou continuar a falar de política, daquilo que vejo e gosto (não acontece assim muitas vezes) e daquilo que vejo e não gosto. Eu também não sei cantar, mas continuo a cantar. Percebem a ideia? Exacto. Vamos continuar.
Da última vez que eu verifiquei, a coligação PSD-CDS teve mais votos do que os outros partidos. Ou seja, ganhou. Espantem-se agora: quem ganha é quem tem mais votos! Eu sei que isto é uma grande novidade e peço que não fiquem demasiado indignados, eu vou explicar mais à frente como é que este fenómeno se processa para aqueles que não conseguem entender... como o António Costa.
Antes de continuar deixem-me informar-vos que não este post não tem como intenção defender a coligação nem o Passos Coelho nem o Paulo Portas e atacar o PS e o António Costa (e os seus novos melhores amigos), eu já disse e volto a dizer: eu não voto em partidos, eu voto em pessoas (e não gosto do Paulo Portas). Isso até pode ser a coisa mais ignorante desta vida, e eu até posso vir a defender um partido no futuro mas agora não é com isso que me identifico. Este post tem como objectivo partilhar as minhas ideias. Tem tendência a ser relativamente sarcástico, mas isso agora não interessa nada.
Voltando à parte de ganhar quem tem mais votos. Desde pequena que me ensinaram assim. É uma fórmula muito simples e que não tem nada que enganar. Neste caso, uma vez que foram mais portugueses votar na coligação do que nos outros partidos, a coligação ganhou. Não é física quântica pois não? Os meus primos de 5 anos sabem que é assim que funciona. Se se quiserem reger pela filosofia de António Costa, então eu vou reclamar contra a Liga Portuguesa de Futebol... é que se o Vitória fizesse uma coligação com o Moreirense tínhamos sido campeões mas com uma distância brutal do Benfica, ficava o campeonato em Guimarães e ninguém se chateava. Só que eu sei (e toda a gente sabe) que quem ganha... é quem tem mais votos!
Aparentemente António Costa quer fazer com que eu acredite que a minha vida foi uma mentira. Que quem ganha é quem tem menos votos. Aliás, estou a enganar-vos agora. Ele sabe que ganha quem tem mais votos, mas uma vez que ele teve menos votos, acha que se se juntar a outros partidos que também tiveram menos votos é ele o vencedor (e os outros partidos). Corrijam-me se eu estou errada, mas na folha de voto tinha um quadradinho para o PS, outro para o BE e outro para a CDU. Não me lembro de ver lá um quadradinho para a opção PS/BE/CDU, e olhem que eu vejo bem. Uma vez que essa opção não existia, os portugueses não podiam votar nela. Então, nem António Costa nem Catarina Martins nem Jerónimo de Sousa, nem ninguém em boa verdade, têm legitimidade para dizer que os portugueses votaram mais neles do que na coligação porque não é verdade, nem que eles façam 5 mortais seguidos.
Esta coligação à esquerda acha-se legítima por dois motivos. Primeiro, porque em 2011, aquando da formação do governo, formou-se a coligação PSD/CDS. Segundo, os votos são para o número de deputados e não para o primeiro-ministro.
Tenho de recuar no tempo para 2011. Nessa altura foi a coligação PSD/CDS que formou governo. Há é uma "pequena" diferença entre 2011 e 2015: em 2011 o partido mais votado tinha sido o PSD (o partido vencedor). Não dá para comparar uma coisa com a outra porque os termos são totalmente diferentes.
É verdade que nas eleições não votamos para eleger um primeiro-ministro, votamos para eleger o número de deputados. Têm razão, as eleições são para eleger deputados. Os deputados eleitos são os seguintes: a coligação Portugal à Frente (PSD/CDS) ficou com 107 dos 203 assentos disponíveis, o PS conquistou 86, o BE tem 19, a CDU 17 e o PAN elegeu 1 deputado. Feitas as contas, esta nova coligação tem 122 (86+19+17) deputados eleitos, mas não são legítimos, porque não foi o que o os portugueses elegeram porque votar numa coligação PS/BE/CDU é totalmente diferente de votar no PS ou no BE ou na CDU. Se é verdade que votamos para eleger os deputados, também é verdade que, sendo o sistema político de Portugal semipresidencialista, é o Presidente da República que indigita o Primeiro-Ministro. Mais uma vez me vejo obrigada a lembrar-vos que o nosso Presidente da República, de seu nome Aníbal Cavaco Silva, indigitou... Pedro Passos Coelho! No Luxemburgo o Primeiro-Ministro não é do partido que venceu as eleições, mas o Luxemburgo é um país que tem como sistema político o parlamentarismo, ou seja, o Primeiro-Ministro é eleito pelo parlamento e não é indigitado pelo Presidente da República.
Esta crise política está só a confirmar uma coisa que eu já sabia (e que se calhar não é a coisa mais ignorante desta vida): não votem em partidos! Por uma razão muito simples... Os partidos não respeitam os seus ideais políticos, mudam de ideias como lhes é mais favorável e tudo com um único objectivo: a obtenção de poder a todo o custo. Basta uma rápida pesquisa na internet para ver os golpes que os representantes destes três partidos desferiam uns nos outros e que agora se tornaram melhores amigos e querem que os portugueses comprem a ideia de que Portugal está cheio de fadas e unicórnios. À pouco mais de um mês, no final de Setembro, Catarina Martins (BE) disse que “O que era bom era que o PS dissesse qualquer coisa de esquerda”. Jerónimo de Sousa também se manifestou sobre a sua visão do PS, relativamente às eleições legislativas que ocorreram este ano, dizendo que "deste PS que nem é carne nem é peixe, que mais parece um caranguejo moído em termos de definição de uma política alternativa". Para António Costa, em Setembro,  " quem ouvir o PCP ou o BE percebe que os dois partidos só têm um objetivo: combater o PS. São meros partidos de protesto, querem estar nas manifestações mas não no Governo a resolver os problemas das pessoas" quando o jornalista o questionou se um acordo à esquerda era possível. Não sei que revolução aconteceu entre Setembro e Outubro/Novembro para que estes três partidos se tornassem em melhores amigos inseparáveis quando antes não paravam de se criticar e atacar uns aos outros. Aliás, nada aconteceu. A verdade é que eles não querem defender as suas ideias, não querem o melhor para os portugueses. Tudo o que querem é o poder, a todo o custo (eu não sei, mas eu quase apostava que o António Costa vendia um rim e um pulmão se o deixassem ser Primeiro-Ministro!).
 Por tudo isto que já disse, sempre que dizem que a coligação à esquerda é legítima eu tenho vómitos e morre um unicórnio. Nem aqui, nem em lado nenhum, esta coligação oportunista é legítima. Esta coligação está a fazer apenas uma coisa: denegrir ainda mais a classe política portuguesa e, consequentemente, o nome de Portugal. Enquanto este impasse político continua e parece não se resolver porque uma data de iluminados acha que os portugueses são burros e não sabem que quem ganha é quem tem mais votos, a bolsa está em queda desde ontem e os bancos já estão reticentes com o que se poderá passar. Para terem uma ideia: a bolsa de Lisboa ontem fechou com uma queda de 4% e o banco alemão Commerzbank enviou um relatório aos seus clientes (que são 11 milhões de clientes privados e 1 milhão de clientes corporativos espalhados pelo mundo) intitulado "Portugal. A próxima Grécia?".
Acho que já não preciso de acrescentar nada ao que disse. É inadmissível uma situação como esta passar-se num país "civilizado". Isto não é, nem pode ser de forma nenhuma, uma expressão de democracia. A coligação à esquerda não respeitou o voto dos portugueses. Lembrem-se de que na folha de voto não aparecia lá "Esquerda" nem "Direita".

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Eu não quero ser chata mas...

Ainda à pouco tempo falei aqui do lixo em que a comunicação portuguesa se está a tornar, disse-o porque todos os dias vejo um desrespeito enorme pela maioria dos clubes portugueses e uma veneração quase divina pelos do costume. Uma comunicação que já cansa, que é ridícula e que em nada acrescenta ao nosso país. Disse-o porque não me conformo e não sou de me conformar. Ontem sabia que hoje me ia revoltar outra vez. Demasiado fácil, demasiado previsível.
Se estão a par das novidades sabem que ontem foi um dia histórico para o ténis português: João Sousa conquistou o torneio ATP250 de Valência e alcançou a sua melhor posição de sempre no ranking mundial sendo que é também a melhor posição de sempre de um português, Gastão Elias venceu o Challenger de Lima e Frederico Silva foi campeão no Future do Egipto.
Sabem qual é o destaque dos jornais desportivos? Exactamente, os do costume. João Sousa tem um pequeno destaque em todas as capas mas a capa vai mesmo para o Sporting e o Porto. Os três jornais desportivos portugueses dão um destaque mínimo ao feito de três portugueses que honraram tão bem o nosso nome por todo o mundo.
Eu sei que há assuntos mais importantes para discutir mas há coisas que me fazem alguma espécie, ou então sou só eu que implico com tudo e todos. Como quiserem. A verdade é que o que eu disse é inegável, o destaque que dão a estes atletas é mínimo e dão uma atenção máxima sempre aos mesmos. Portugal não é pequeno, mas há coisas que me fazem duvidar disso!

domingo, 1 de novembro de 2015

Obrigada João!!

Infelizmente não pude acompanhar o jogo de João Sousa em directo, mas fiquei muito feliz quando soube que estava na final do Torneio ATP de Valência porque acredito sempre que consiga vencer todas as finais que disputa porque sei que tem qualidades suficientes para isso. De 7 finais disputadas, já venceu duas delas em Kuala Lumpur e agora em Valência. É, indiscutivelmente, o melhor português de sempre e alcança a melhor posição da sua carreira, posicionando-se na 33ª posição do ranking mundial.
São pessoas e atletas como o João que representam Portugal lá fora de forma sublime e com a maior classe possível. É nestes momentos que tenho muito orgulho de ser portuguesa e vimaranense. É muito bom saber quem nos representa!
MUITOS PARABÉNS CONQUISTADOR!

terça-feira, 27 de outubro de 2015

A minha estante | 1984

Há livros que eu tenho medo de ler porque as minhas expectativas estão para lá de altas. Um desses livros era 1984, de George Orwell (pseudónimo de Eric Arthur Blair). Não consegui resistir mais e devorei-o em dois dias. As minhas expectativas estavam altas mas consegui ficar positivamente surpreendida. Tornou-se, com facilidade, um dos meus livros favoritos. Por isso torna-se difícil falar dele, porque é sempre mais difícil falar em público do que é pessoal para nós.
Em 1984 conhecemos uma sociedade distópica, em que o Estado, na figura do Big Brother (O Grande Irmão), controla tudo e todos. O mundo divide-se em três mega-blocos:Oceânia, Lestásia e Eurásia. A sociedade da Oceânia divide-se no Partido Interno, o Partido Externo e os Proles. Todos os cidadãos, excepto os proles (a maioria da sociedade, com nenhuma educação e que por isso não são uma ameaça ao governo), são vigiados durante todo o dia, através dos telecrãs que têm em suas casas ou através dos espiões que estão por todo o lado. Desde cedo as crianças são ensinadas a denunciar tudo à Polícia do Pensamento e são inclusive encorajadas a denunciar os próprios pais se estes tiverem um comportamento suspeito (sendo que todos os comportamentos são suspeitos, como ir por um caminho diferente do habitual). Estas denuncias geralmente levavam à detenção e à tortura ou até mesmo à vaporização de quem tem a infelicidade de ser denunciado (era como se nunca tivessem existido, passavam a ser impessoas). Todos os dias são transmitidos, através dos telecrãs os "2 Minutos de Ódio" em que, tal como o nome indica, são dois minutos em que são passadas imagens e ideias de Emmanuel Goldstein, o grande inimigo do Partido. Durante estes 2 minutos, os espectadores são encorajados a destilar todo o seu ódio nesta figura através de insultos e com extravagância qb. No final têm oportunidade de mostrar todo o amor pelo Big Brother. Quem não o fizer é considerado suspeito! A verdade é que não há nenhuma lei escrita. Não é proibido falar mal do Governo, ou discordar dele. No entanto quem o fizer é sentenciado com a pena de morte.
O slogan do Partido é: Guerra é Paz, Liberdade é Escravidão, Ignorância é Força. Este slogan é criado tendo como base o duplopensar. A palavra duplopensar é uma criação da novilíngua, que pretende tornar-se na língua oficial da Oceânia (eliminando o inglês corrente, referido como a velhilíngua) e que aspira a eliminar, na sua versão final, todas as palavras que podem ser uma ameaça ao Governo e que possam criar no cidadão o acto de pensar reduzindo-o ao que é necessário. Ou seja, se a palavra liberdade não existe então o seu conceito também não existe e se a palavra bom existe não seria necessário existir a palavra mau, bastava dizer-se que era imbom e deixava de ser necessário existir as palavras óptimo ou espectacular, bastava dizer que algo era extrabom ou duploextrabom. O conceito duplopensar é, como Orwell descreve, "o poder de manter duas crenças contraditórias na mente ao mesmo tempo, de contar mentiras deliberadas e ao mesmo tempo acreditar genuinamente nelas".
O Partido faz-se representar através de quatro ministérios: o Ministério da Verdade , o Ministério do Amor, o Ministério da Riqueza e o Ministério da Paz. A ironia reside no facto de que nada é o que parece. O Ministério da Verdade é responsável pela falsificação de documentos que possam representar uma referência ao passado: o Partido nunca pode estar errado. Se o Big Brother  fez uma previsão à cinco semanas sobre a produção de alguma coisa e os dados não estivessem correctos o Ministério da Verdade tinha de alterar esse discurso de forma a que tudo estivesse certo, ou se alguém que fora um dia mencionado e se tivesse tornado uma impessoa esse artigo era eliminado e substituído por um artigo qualquer. O Partido tinha de ser infalível. O Ministério do Amor trata de controlar a população e da lavragem cerebral, é um edifício imponente, uma espécie de fortaleza que não tem janelas para que os dissidentes que lá se encontram em cativeiro estejam totalmente isolados, é onde os prisioneiros são torturados. O Ministério da Riqueza tratava da economia da Oceânia, fabricando boletins que apresentavam números incríveis e que pretendiam passar a imagem de que tudo era perfeito quando na verdade os proles viviam em condições desumanas. Por fim, o Ministério da Paz era responsável por manter a guerra (contra a Eurásia ou contra a Lestásia, sendo que quando a guerra era com um, o outro era o aliado) porque a guerra era uma forma de manter a população com o patriotismo ao rubro e unida.
Ainda estão comigo? Óptimo, avancemos! História que é história tem um herói. O nosso é Winston Smith, um cidadão totalmente comum, com 39 anos tem uma úlcera varicosa acima do tornozelo direito e um casamento falhado com uma completa devota ao Governo mas com quem não mantém nenhum tipo de contacto. Em pouco tempo percebemos que Winston não concorda com as ideias do Governo e do Big Brother, para conter a sua revolta escreve, envolto em medo, um diário onde revela as suas ideias revolucionárias contra o Partido.
Winston conhece Julia, uma rapariga intrigante que parece persegui-lo e a quem ele sonha em esmagar o crânio com uma pedra porque pensa que ela faz parte da Polícia do Pensamento e o vai denunciar por ele andar a vaguear no meio dos proles. Até que num dia normal Julia cria uma distracção só para entregar um bilhete a Winston sem que ninguém se aperceba, eles têm um encontro e percebem que se sentem totalmente atraídos um pelo outro. Julia é, à primeira vista, uma ortodoxa convertida às ideologias do Partido: passou pelos Espias e ingressou na Liga Anti-Sexo (o sexo era visto como uma mera actividade reprodutiva, sendo que o sexo devia sempre ser separado do prazer, era abominável ter prazer) no entanto discorda tanto destas ideologias como o próprio Winston.
Esta esperança de revolução fortifica-se quando O'Brien, um membro do Partido Interno com quem Winston sentia alguma ligação o convida para aparecer em sua casa para conhecer a nova edição do dicionário de Novilíngua. É nesse momento que Winston se vê envolvido em algo realmente maior do que ele e do que Julia.
Apesar de ter sido finalizado em 1948, esta obra é realmente fenomenal e continua actual. O objectivo de Orwell era criticar o totalitarismo e conseguiu-o de forma magistral. Nos dias actuais somos constantemente manipulados e estamos sempre sob vigilância. Não da forma radical como a sociedade de 1984 mas continuamos debaixo de uma vigilância constante em que todos sabem aquilo que fazemos e comemos e com quem estamos. Os jornais que são uns fantoches manipulados nas mãos de quem tudo pode, manda e faz. Será que vamos chegar um dia a 1984? De qualquer das formas lembrem-se sempre: Big Brother is watching you.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Fazem disto um circo

Não fui ao circo, não. Só parece. Hoje depois do Sporting ter ganho 3-0 na Luz uma estação qualquer transmitiu em directo de 23649718 cafés e 2765352 lugares onde perguntaram a benfiquistas e sportinguistas as suas opiniões sobre o jogo. Como se os 27862948272672 directos desde a segunda-feira passada não fossem já suficientes. Não, não é por eu não ser afecta a nenhum destes clubes que isto é ridículo. É mesmo porque inaugura um novo patamar de estupidez. Já é do conhecimento geral que só existem três clubes no futebol português (eu já sugeri fazerem um campeonato entre os três, e depois o resto das equipas estão noutro campeonato) e de vez em quando existem os clubes adversários. No entanto, este pequeno circo toma proporções megalómanas quando estes três clubes se defrontam entre si.
Eu compreendo que este jogo tinha contornos peculiares devido a toda a polémica que houve no início da época (e que ainda não serenou), então sabia de antemão que ia ter demasiada atenção (mais do que aquela que deveria). Compreendo também que pela dimensão, pela história e pela rivalidade entre estes dois clubes ia ser dada uma maior atenção do que a um Arouca - Tondela (com todo o respeito por estas duas equipas). Isso compreendo. Não compreendo é que um Arouca - Tondela seja ignorado porque há um Sporting - Benfica, isso não compreendo porque os quatro clubes participam do mesmo campeonato: o português, o nosso!
Não compreendo que nos telejornais passem resumos dos jogos da Inglaterra, da Rússia e se lhes desse na real gana até passavam resumos dos jogos do Butão (eu também não sabia que eles tinham um campeonato de futebol, mas têm, google it), mas não passam resumos de jogos dos clubes portugueses a não ser que joguem contra três clubes específicos. Aí já passam umas imagens dos treinos e das conferências de imprensa e assim. Só para dar aquela falsa sensação de tratamento igual para todos.
Sabem aqueles programas de futebol em que supostamente é para falar de futebol mas que como cenário têm os símbolos dos estarolas do costume? Pois, eu também sei mas como para mim são uma fantochada em que a maioria dos comentadores perde o bom-senso porque não tem postura nenhuma e falam de tudo menos de futebol a sério eu não os vejo porque não há seriedade nem igualdade. Enquanto a comunicação trabalhar assim, com filhos e enteados não conseguem ter o meu respeito. O futebol é de todos e mais importante, é para todos. Se querem pôr uns no pedestal e outros debaixo do chão então não podem dizer que estão a fazer um trabalho sério e de informação. Nem se auto-proclamem jornalistas quando são meros jornaleiros.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

O meu tempo tem sido sugado sei lá bem para onde e eu raramente tenho ligado o computador e quando o faço é para desfrutar de uma série (estou a acompanhar uma nova, Blindspot, que está a ser maravilhosa, depois conto-vos!) ou para ver um filme. Ou então para fazer alguma pesquisa ou trabalho para a universidade, claro! Apesar de as aulas já terem começado à algumas semanas ainda não consegui organizar bem o meu calendário e tenho andado bastante cansada. Há muitos temas sobre os quais quero falar por cá e pretendo fazê-lo assim brevemente. Quero falar-vos do 1984. Do meu Vitória, infelizmente as coisas não têm corrido pelo melhor. E de mais uma data de coisas. Por isso fiquem por cá, vou tentar ser uma companhia mais assídua. Só passei por cá porque tinha saudades de partilhar alguma coisa. Nem que fosse um bocadinho da minha própria confusão!

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

O significado das palavras

Às vezes as palavras são tão usadas que nós nem pensamos mais no significado real das mesmas, pensamos que as conhecemos sem as conhecer. Só de vez em quando, quando alguma coisa desperta essa nossa curiosidade adormecida, é que pensamos e reflectimos na realidade das palavras que são tão fundamentais na nossa ligação aos outros. Melhor do que continuar a tentar explicar o que quero dizer, deixo em baixo um vídeo que tem tanto de engraçado como de verdadeiro. O vídeo pretende esclarecer dois conceitos: empatia e simpatia. Se calhar nunca pensaram muito na distinção. Eu nunca o tinha feito.